Backrooms leva o terror da creepypasta às telonas, mas se perde em excesso de explicações

Quando o assunto são creepypastas, Backrooms ocupa um lugar de destaque entre as mais conhecidas e aterrorizantes, conquistando uma base de fãs imensa e dedicada desde que apareceu em 2019 como uma imagem simples no fórum 4chan. Foi assim que Kane Parsons decidiu, em 2022, transformar essa narrativa no curta-metragem “The Backrooms”, que explodiu no YouTube com mais de 78 milhões de visualizações.

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Com a repercussão inesperada e a popularidade crescente do Backrooms na internet, o diretor expandiu a mitologia em uma websérie em seu canal do YouTube, Kane Pixels.

Não demorou muito para que Kane Parsons, que tinha apenas 16 anos quando lançou o curta, chamasse a atenção dos estúdios de Hollywood. A A24 contratou o promissor diretor para produzir um longa-metragem baseado em seu próprio sucesso na web. É assim que chegamos a Backrooms: Um Não-Lugar (2026), um filme que consegue trazer o terror da creepypasta para as telonas pela primeira vez com mais orçamento, mas acaba tropeçando em suas próprias pernas — e ambições.

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Qual é a história de Backrooms?

Na trama, o vendedor de móveis Clark (Chiwetel Ejiofor) descobre, no porão de sua loja, um portal para um labirinto perturbador de ambientes intermináveis que lembram escritórios. Fascinado e angustiado, ele decide mapear aquela vastidão impossível de salas e corredores de arquitetura surreal, onde ruídos estranhos sugerem a presença de algo sobrenatural. Quando Clark desaparece, sua terapeuta, Dra. Mary Kline (Renate Reinsve), também acaba se perdendo no Backrooms em busca de respostas e de uma saída.

Backrooms transporta o terror da creepypasta e dos curtas para o cinema com êxito

No livro “O Estranho e o Sinistro” (publicado no Brasil pela Autonomia Literária), Mark Fisher descreve que “o sinistro é constituído por uma falha de ausência ou por uma falha de presença. A sensação do sinistro ocorre quando há algo presente onde não deveria haver nada; ou quando não há nada presente onde deveria haver algo”. Essa definição se encaixa perfeitamente no terror provocado por espaços liminares, como no caso do Backrooms, que são lugares vazios ou abandonados — normalmente, de transição.

Com sua experiência nos vídeos do YouTube, Kane Parsons entende esse universo como poucos, e foi um acerto da A24 trazê-lo para essa adaptação. Ele consegue reproduzir a sensação de desconforto e inquietação causada pelo Backrooms em uma escala ampliada. Os cenários foram construídos de verdade no set, com os próprios atores se perdendo durante as filmagens, o que se torna um diferencial para a imersão do público nessa dimensão e seu terror claustrofóbico.

O filme acerta em cheio quando mergulha de cabeça nesse labirinto do Backrooms, acompanhando os personagens na exploração da dimensão. Parsons constrói uma atmosfera opressiva de mistério e perigo nesses ambientes de escritórios vazios. Toda essa estética visual, combinada ao trabalho sonoro, provoca uma ansiedade constante e entrega apenas alguns sustos e aparições. As sequências mais aterrorizantes são aquelas em que o diretor brinca com found footage, relembrando seu curta e vídeos originais, formato que funciona perfeitamente na composição de tensão da proposta.

Esses são os melhores momentos do filme e rendem as cenas mais desconfortáveis e aterrorizantes, embora Backrooms: Um Não-Lugar perca boa parte de sua potência no terror devido a excessos narrativos.

Trama inchada e explicações psicológicas em excesso prejudicam o filme de terror

O roteiro escrito por Will Soodik, baseado nas produções de Kane Parsons, apoia-se fortemente em seus protagonistas indicados ao Oscar, Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão) e Renate Reinsve (Valor Sentimental), com uma abordagem que prioriza o terror psicológico.

Seguindo a tendência do gênero atualmente, especialmente nas produções da A24, o filme se aprofunda nos traumas e nas lutas psicológicas de Clark, enquanto ele passa por um processo terapêutico com a Dra. Mary Kline. Chiwetel Ejiofor é excelente ao abordar essas nuances da complexidade emocional do personagem. É realmente interessante como a narrativa relaciona o estado mental do protagonista com o Backrooms, que se torna um reflexo de seu vazio existencial, instabilidade psicológica e ciclo vicioso de vida, mas, infelizmente, isso também acaba sendo o principal problema.

Parece que Backrooms: Um Não-Lugar cai e se perde em seu próprio ciclo, com excesso de explicações e alegorias psicológicas que deixam a trama desnecessariamente inchada. Um exemplo perfeito disso é a personagem terapeuta de Renate Reinsve que, apesar da boa atuação da atriz, é usada como um artifício de roteiro preguiçoso para fornecer interpretações ao público. Esses elementos tomam grande parte do filme e, nesse vai e vem da narrativa, tiram o foco do que é mais interessante na história: a exploração do Backrooms e sua mitologia.

Isso afeta principalmente o impacto das cenas de terror, que são interrompidas constantemente para sequências de diálogos expositivos, desperdiçando a chance de ser mais assustador e seguir um fluxo constante de sensações nos espaços liminares.

Vale a pena assistir Backrooms: Um Não-Lugar?

Apesar de sua pouca experiência em longas-metragens e idade jovem, com apenas 20 anos, Kane Parsons consegue levar o terror do Backrooms para o cinema, reproduzindo — com mais pompa e orçamento — sua atmosfera claustrofóbica e desconfortante em cenários vazios que ganham vida de forma aterrorizante.

Embora sofra com excesso de explicações psicológicas que atrapalham e tentam fazer o filme parecer mais inteligente e profundo do que realmente é, Backrooms: Um Não-Lugar promete agradar os fãs desse universo e também apresentá-lo a um novo público com uma experiência inquietante e desorientadora pelos espaços liminares.

Uma das maiores preocupações com o filme era que ele tentasse resolver todos os seus mistérios e simplificar sua mitologia de forma mais palatável para alcançar novas pessoas. Felizmente, os excessos ficam mais na abordagem psicológica, e Backrooms não fornece todas as respostas, deixando espaço aberto para novas produções que continuem explorando suas dimensões. O que fica claro é que Kane Parsons se consolida como um dos nomes mais promissores do terror atual.

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