Todas as Manhãs do Mundo

A reconstituição de períodos históricos no cinema frequentemente se perde em exageros visuais, mas existem obras que abraçam a grandiosidade através do recolhimento e da precisão. É esse triunfo que o público testemunha com a chegada de “Todas as Manhãs do Mundo” à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, uma obra-prima de 1991 dirigida por Alain Corneau. Trata-se de um drama de época refinado, centrado na música, na perda e na complexa transmissão de saberes entre duas gerações de artistas no século XVII, sob o reinado de Luís XIV.

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O roteiro, escrito a quatro mãos pelo próprio diretor e pelo autor Pascal Quignard – que adaptou o romance homônimo lançado no mesmo ano –, acompanha a trajetória do renomado músico Marin Marais. Na maturidade, o personagem é interpretado com o vigor habitual de Gérard Depardieu, que também assume a narração de sua própria juventude. Já Guillaume Depardieu, filho do ator na vida real, encarna o jovem Marais com uma entrega impressionante.

O núcleo da narrativa reside na busca do rapaz pelo aprendizado com o recluso e jansenista Monsieur de Sainte-Colombe, interpretado magistralmente por Jean-Pierre Marielle. Esse mestre se isolou do mundo e da corte após a morte da esposa, dedicando-se exclusivamente às filhas e à arte. O elenco principal é completado por Anne Brochet no papel de Madeleine, a filha mais velha do tutor, que se apaixona por Marais. Curiosamente, a crítica internacional destacou na época que esta foi a segunda vez consecutiva que Brochet e Gérard Depardieu formaram um par romântico nas telas, repetindo a química já testada no aclamado “Cyrano de Bergerac”.

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A Música Como Protagonista e Fenômeno de Público

Além das intrigas amorosas e das desilusões que culminam em tragédia, o verdadeiro coração do longa-metragem está na música barroca, executada na emblemática viola da gamba pelas mãos virtuosas de Jordi Savall. A trilha sonora não apenas dita o tom melancólico e poético da produção, mas também gerou um fenômeno comercial sem precedentes no mercado fonográfico global. Em uma das maiores surpresas da indústria cultural dos anos 1990, o álbum com as composições barrocas do filme superou as vendas de “Dangerous”, de Michael Jackson, na França, e ultrapassou os números da popstar Madonna, que lançava o álbum “Erotica”. Um feito histórico para a música erudita.

A consagração do filme não se limitou ao sucesso comercial da trilha sonora. “Todas as Manhãs do Mundo” foi o grande vencedor da 17ª edição do Prêmio César em 1992, conquistando sete estatuetas, incluindo as de Melhor Filme, Melhor Diretor para Alain Corneau, Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Brochet e Melhor Música para Jordi Savall. Além disso, o diretor levou o prestigiado Urso de Prata no Festival Internacional de Cinema de Berlim, e a obra garantiu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1993. O título poético faz referência a uma das falas mais dolorosas de Marais ao constatar a finitude da vida e o peso dos erros passados: todas as manhãs do mundo nunca mais voltam. É um cinema rigoroso, esteticamente impecável e que merece ser absorvido por quem o assiste.

Ficha técnica

“Todas as Manhãs do Mundo” | “Tous les Matins du Monde” (título original)

Gênero: drama. Duração: 115 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: francês. Direção: Alain Corneau. Roteiro: Pascal Quignard e Alain Corneau. Elenco: Jean-Pierre Marielle, Gérard Depardieu, Anne Brochet, Guillaume Depardieu, Carole Richert, Michel Bouquet, Jean-Claude Dreyfus, Yves Gasc, Yves Lambrecht, Jean-Marie Poirier e Myriam Boyer.

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