Hungria: A Escolha de Um Sonho

A internet gerou, entre inúmeras outras transformações, algo que podemos chamar de “fenômeno das bolhas”. Ao escolher quem seguir e quem nos segue, cada pessoa constrói um feed pessoal que limita o acesso a outros participantes sem interação prévia. Por isso, não é raro que algo amplamente difundido em certos nichos seja completamente ignorado em outros. O cantor Hungria Hip Hop parece se encaixar nesse cenário. Mesmo não sendo uma figura exatamente mainstream, ele acumula recordes e conquistas ao longo de mais de vinte anos de carreira. Apesar de ter milhares de fãs, ainda é desconhecido para parcelas do público. Daí a importância do passo que dá com a cinebiografia Hungria: A Escolha de um Sonho, um longa que, mesmo sem grandes ousadias ou novidades, cumpre com competência seu papel: serve como porta de entrada para o artista e, ao mesmo tempo, satisfaz quem já o acompanha há tempos.

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Essa intenção de apresentar Hungria a quem ainda não o conhece fica evidente. O longa dirigido por Izaque Cavalcante e Cristiano Vieira foca na origem do rapaz, e não em sua consagração como rapper. Natural de Ceilândia, cidade-satélite de Brasília, no Distrito Federal, ele foi um garoto comum. Morador de uma comunidade humilde, abandonou os estudos ainda na adolescência, enquanto via muitos amigos e vizinhos se envolverem com assaltos, tráfico ou outras contravenções. É importante destacar que este é um projeto aprovado pelo próprio Gustavo da Hungria Neves – seu nome de batismo –, que acompanhou todo o processo, da elaboração do roteiro às filmagens e finalização. Ou seja, não espere por passagens controversas, informações problemáticas ou revelações inesperadas: o que temos é o que muitos já conhecem, agora em uma abordagem ficcional. Quase como um conto de fadas, que exalta seu protagonista sem desviar das dificuldades que enfrentou durante a jornada.

Falando no personagem principal, é preciso atentar para o intérprete. Gabriel Santana é um jovem versátil, com carreira diversificada, e isso se percebe em cena. Depois de começar a vida artística na versão brasileira de Chiquititas (2013-2014), passou pela novela jovem Malhação (2019), esteve no sucesso Pantanal (2022) e ficou conhecido nacionalmente como participante do Big Brother Brasil. Sem contar suas aparições no teatro e em programas de auditório. É alguém com repertório, e essas experiências colaboram com a construção que entrega como Hungria. Ele é tanto o filho perfeito que engana a mãe (sem malícia, mas com bom coração) quanto o projeto de malandro que se mete em enrascadas por confiar demais nos amigos. Enquanto a narrativa evita polêmicas – seu envolvimento ou não com atividades criminosas, por exemplo, já que muitos amigos seguiram esse caminho, é cogitado, mas recusado de forma tão enfática que soa ingênua – cenas icônicas são reencenadas para deleite dos fãs, como o miojo feito com água quente do chuveiro. É curioso, até engraçado, mas pouco acrescenta à trajetória.

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Felizmente, Gabriel não carrega essa história sozinho. As participações de veteranos como André Ramiro (indicado ao Grande Otelo por Tropa de Elite 2, 2010) e Chico Sant’anna (premiado no Cine PE por Simples Mortais, 2008) trazem profundidade dramática ao conjunto, que também aproveita para explorar novos talentos, como o impressionante Ramon Brant (DNA do Crime, 2023). Ele interpreta Gabiru, o vizinho e colega que se torna empresário do artista em formação. É o primeiro a acreditar no potencial de Gustavo, quem o incentiva e acompanha em sua jornada rumo à transformação em Hungria, e fica clara a importância de sua presença, mesmo nos momentos mais difíceis. Tanto quanto se centrar em quem dá título ao filme, esta é também a jornada desse outro menino humilde que sonhou grande e, por isso, pagou um preço compartilhado por milhares. Enquanto um foi a exceção – e segue sendo –, o outro foi a regra, cumprindo uma triste sina que lembra esse destino trágico, muitas vezes inevitável, e também serve como contrapeso para enaltecer ainda mais as conquistas do amigo. A desenvoltura de Brant chama atenção desde seu primeiro momento em cena, fazendo às vezes de Michael Peña em Homem-Formiga (2015) com tanta graça e simpatia que, a partir dali, será quase impossível desviar os olhos dele.

Os feitos de Hungria são superlativos e podem ser conferidos em qualquer pesquisa rápida no Google, Wikipedia ou nas plataformas de streaming de música. Não é para isso, portanto, que Hungria: A Escolha de um Sonho foi criado. Este é um filme com a proposta de quebrar barreiras, e consegue isso com humildade e determinação. Temos uma história acessível e de fácil contato, que envolve muitos tanto pela forma competente como é conduzida, sem exageros e focada no essencial, quanto pelo exemplo que enaltece. Algo que, obviamente, não será alcançado por todos, mas que aponta que uma realidade melhor é possível. Tanto Gabriel Santana quanto Gustavo da Hungria carregam a responsabilidade que têm, tanto na fantasia quanto na vida real. Longe de ser o fim de uma caminhada, é apenas o lembrete de que o começo é possível. Para uns, apesar de todas as adversidades que os cercam. Para tantos outros, quanto melhor o entorno, maiores serão as chances. Há um propósito em observar com atenção casos como esse, e esse viés não pode nem deve ser esquecido ou ignorado.

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