Militar enfrenta 12 semanas e seleção física para facão de Guerreiro de Selva

O Curso de Operações na Selva (COS), conduzido pelo Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), em Manaus, inicia-se muito antes de o militar receber o brevê que o distingue como Guerreiro de Selva. A preparação estende-se por meses e inclui uma série de avaliações capazes de interromper a candidatura antes da matrícula.

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Documentos oficiais do CIGS indicam que o processo atual compreende inspeção de saúde, avaliação física preliminar e, já em Manaus, o Exame de Avaliação Física Definitivo (EAFD) e o Teste de Conhecimentos Militares. Essas duas últimas etapas são eliminatórias: quem não atinge os índices mínimos fica fora da matrícula e volta à sua organização militar.

Essa filtragem ajuda a compreender um dado histórico notável. Em reportagem sobre o CIGS, o site DefesaNet registrou que cerca de 40% dos candidatos não obtinham aprovação para começar o curso. Com uma seleção mais rigorosa, combinando testes físicos, psicológicos e intelectuais, o percentual de militares que concluíam o treinamento teria saltado de 50% para 85%. Os números são históricos e não devem ser tomados como índice oficial das turmas atuais.

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Para os aprovados na seleção, a cobrança física não diminui. Aumenta.

A documentação do CIGS destinada aos candidatos é clara: não é suficiente exibir o preparo físico comum em um teste militar convencional. O Exame de Avaliação Física reúne provas que antecipam algumas das habilidades essenciais para resistir ao treinamento na Amazônia.

Entre as provas estão corrida, flexão na barra fixa, abdominal supra, flexão de braços, nado submerso, subida em corda vertical, Pista de Pentatlo Militar, natação utilitária de 400 metros, flutuação e marcha.

Na subida da corda, por exemplo, o candidato precisa alcançar o topo de uma corda vertical sem impulso inicial e sem usar pernas ou pés. O ponto de referência superior fica a quatro metros da marca inicial. No nado submerso, o percurso deve ser percorrido em uma única apneia, sem que qualquer parte do corpo emerga antes de ultrapassar a marca exigida.

A marcha insere outra variável: o peso. O militar caminha armado com fuzil, equipado e com mochila. A orientação oficial fixa 15 quilos para a mochila, que é verificada tanto no início quanto no final. Se o peso final estiver abaixo do estipulado, o candidato é considerado inapto.

Existe pouca margem para compensar um desempenho fraco em uma prova com um ótimo resultado em outra. O regulamento permite até duas tentativas em alguns testes, porém a marcha só pode ser feita uma única vez. E há um ponto crucial: se o militar não alcançar o mínimo em mais de uma prova logo na primeira tentativa, é automaticamente considerado inapto para a matrícula.

É nesse ponto que o COS se afasta de um simples teste de aptidão física. O exame não representa o objetivo final; é somente a porta de entrada para um curso em que correr, nadar e carregar peso deixam de ser exercícios isolados e se tornam parte da rotina operacional.

O CIGS recomenda que a preparação comece pelo menos seis meses antes

O próprio Centro adverte que treinar somente para atingir a nota mínima do exame não é suficiente. A orientação oficial destaca que a carga curricular envolve esforços físicos “intensos e prolongados” e menciona casos de candidatos aprovados que depois enfrentaram dificuldades nas atividades do curso. A natação utilitária surge como um dos exemplos mais evidentes.

Antes de chegar a Manaus, a orientação é desenvolver de forma progressiva a capacidade de nadar e flutuar com uniforme e carga. Ao término da preparação, o candidato deve estar apto a nadar mais de 2.000 metros fardado, equipado e com um PARA-FAL 7,62 mm, flutuar por pelo menos 15 minutos nessas condições e percorrer cerca de 200 metros com o armamento preso ao corpo.

O documento vai além: sugere que parte do treinamento aquático seja realizada após outras atividades físicas intensas, como corrida intervalada, marcha ou musculação. A justificativa é simular uma situação típica do COS, em que o militar chega à água já desgastado por tarefas anteriores.

O programa elaborado pelo Instituto de Pesquisa da Capacitação Física do Exército (IPCFEx) em parceria com o CIGS desenvolve corrida, natação, força, marchas e adaptação progressiva à carga. Para iniciar esse plano, o candidato precisa ter obtido, no mínimo, menção “MB” no último Teste de Avaliação Física.

O Centro recomenda que os cuidados de preparação para o COS sejam iniciados com pelo menos seis meses de antecedência.

Correr 10 quilômetros em uma hora é apenas uma das tarefas físicas do curso

Curso de Operações na Selva. Foto: Divulgação/EB

Ser aprovado na seleção significa apenas conquistar o direito de começar.

Entre as atividades previstas na orientação oficial para o período do curso está uma corrida de 10 quilômetros em 60 minutos, executada com uniforme de combate.

Na água, a situação se torna ainda mais específica. O aluno precisa nadar pelo menos 800 metros, fardado e equipado, arrastando o fardo de combate e o fuzil presos por um cabo, no limite de 42 minutos. Há também flutuação por pelo menos 15 minutos com uniforme, equipamento e PARA-FAL, além de nado submerso e exercícios de desequipagem no ambiente aquático.

A preparação para as marchas também evolui gradualmente. O programa físico disponibilizado aos candidatos chega a prever 16 quilômetros armado e equipado, com mochila, além de sessões de corrida, natação, exercícios neuromusculares e circuitos operacionais.

O objetivo central não é formar um atleta especializado em uma única capacidade. É garantir que o corpo continue funcionando depois de ser submetido a várias exigências em sequência.

O próprio CIGS afirma que a intensidade das atividades busca simular as implicações físicas do combate e recorda que o ambiente amazônico pode forçar o militar a percorrer grandes distâncias transportando volume expressivo de carga.

Vida na selva, técnicas especiais e operações: o treinamento avança em três fases

O COS é organizado didaticamente em três grandes fases: Vida na Selva, Técnicas Especiais e Operações. Fontes militares apontam tradicionalmente 12 semanas de duração para a formação, embora edições específicas possam ter cronogramas distintos — em 2024, por exemplo, duas turmas divulgadas pelo Exército tiveram dez semanas de treinamento.

Na primeira fase, o aluno aprende técnicas de sobrevivência e adaptação ao ambiente. Em seguida, são introduzidos procedimentos específicos para o deslocamento e a atuação militar na floresta. Na fase de operações, esses conhecimentos deixam de ser trabalhados isoladamente e passam a ser aplicados no planejamento e na execução de missões.

Calor, umidade, fadiga, fome, sede e pressão psicológica estão entre os fatores de estresse aplicados de forma controlada durante a formação. O Centro de Psicologia Aplicada do Exército define o COS como uma experiência voltada igualmente para o desenvolvimento de liderança, comportamento coletivo e adaptação diante das condições adversas da atividade operacional.

Essa distinção é relevante para quem enxerga o curso apenas pelos vídeos de sobrevivência na mata. O desgaste não é um efeito colateral do treinamento; ele faz parte do cenário em que o aluno precisa manter o raciocínio, a liderança e a execução de tarefas.

O curso existe desde os anos 1960 e já formou milhares de militares

O CIGS foi criado em 2 de março de 1964, época em que o Brasil ainda não contava com uma organização militar voltada especificamente para a especialização no combate em selva, apesar da dimensão amazônica do território nacional. Os primeiros cursos ocorreram a partir de 1966.

O alcance acumulado ajuda a dimensionar a instituição. O Almanaque do CIGS atualizado em 2024 contabilizava 7.298 Guerreiros de Selva, incluindo brasileiros e militares de nações amigas registrados pelo Centro. Somente entre os brasileiros listados no documento havia integrantes do Exército, da Marinha, da Força Aérea, de polícias e de corpos de bombeiros.

Militares estrangeiros também fazem parte da história da instituição. O almanaque registra concludentes e especialistas vindos de dezenas de países, como Estados Unidos, França, Argentina, Chile, Reino Unido, Espanha, Índia, Japão, Portugal e Alemanha.

Décadas após a criação da escola, o condicionamento físico segue como a primeira barreira visível de um processo muito mais amplo. O candidato que chega a Manaus não está disputando apenas a aprovação em uma corrida ou uma sequência de flexões; precisa demonstrar que tem uma base física capaz de suportar semanas de esforço acumulado, deslocamento com carga, atividades aquáticas e operações na floresta. Somente depois de atravessar essa sequência é que ocorre a cerimônia de conclusão e vem o direito de ostentar o facão de Guerreiro de Selva.

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