Por quase duas décadas, a ideia de um sistema monetário dos BRICS capaz de rivalizar com o dólar parecia distante da realidade. Jim O’Neill, o economista que criou o termo BRIC no início dos anos 2000, agora pensa diferente. Ele reconhece que as principais economias emergentes já têm recursos suficientes para montar uma alternativa crível à ordem monetária dominada pelo dólar.
A virada não é sutil. O’Neill afirma que, até dezoito meses atrás, chamaria essa possibilidade de pura fantasia. Hoje ele diz que o G7 não pode mais ignorar o peso da aliança. O que mudou foi o avanço acelerado das infraestruturas de pagamento digital e das plataformas descentralizadas, que tornaram viável algo que antes soava improvável.
O economista é cauteloso quanto ao histórico do bloco. Ele lembra que o Novo Banco de Desenvolvimento continua sendo a única realização concreta e operacional dos BRICS até agora. Mesmo assim, os progressos técnicos abrem espaço para redes de transferência transfronteiriça mais eficientes, fora dos circuitos tradicionais controlados por instituições americanas.
O’Neill não fala de uma moeda global que substitua o dólar de uma vez. Ele descreve algo mais específico, um instrumento de liquidação comercial baseado em uma cesta de moedas, ponderada pelo peso econômico de cada país participante.
As tensões geopolíticas empurram esse movimento. O uso frequente de sanções financeiras pelos Estados Unidos e a aplicação recorrente de sobretaxas alfandegárias fazem países que representam 75% do PIB mundial não americano buscarem formas de negociar fora do controle direto de Washington. Essa busca por autonomia já não é exclusividade de alguns governos isolados. Tornou-se estratégia compartilhada por boa parte da economia global.
A transição acontece sem rupturas abruptas. É uma erosão progressiva da participação do dólar no faturamento de matérias-primas e bens manufaturados, com países priorizando a segurança das próprias transações.
Para acompanhar esse processo, O’Neill lançou uma plataforma de análise independente, sem fins lucrativos, chamada BRICS+ Thinking. A iniciativa vai produzir pesquisas e indicadores sobre a evolução do bloco e suas interações com os mercados ocidentais, um sinal de que o crescimento das economias emergentes já exige instrumentos próprios de análise.
O dólar deve manter papel dominante no curto prazo, sustentado pela liquidez incomparável de seus mercados. Mas a coexistência com sistemas regionais de pagamento e ativos de liquidação descentralizados parece cada vez mais inevitável. Para O’Neill, o mundo caminha para uma ordem financeira multipolar, moldada tanto pela diplomacia quanto pela inovação tecnológica.







