O reconhecimento, por parte dos Estados Unidos (EUA), de grupos do crime organizado brasileiros como organizações terroristas deve gerar danos à economia nacional, afetando segmentos como turismo, investimentos e comércio exterior. Essa é a análise de estudiosos das áreas de geopolítica, economia e relações internacionais.
O analista político e especialista em relações exteriores Francisco Carlos Teixeira da Silva relatou à Agência Brasil que recebe, vindas de corporações internacionais, questionários para responder sobre as condições de segurança vigentes no Brasil. “Com a rotulagem de nação que acolhe terrorismo global, esse patamar de investimento sofrerá um abalo considerável. Bancos e indústrias serão afetados, provocando desinvestimento, paralisação na criação de vagas de emprego e perda em transferências de tecnologia”, declarou o pesquisador.
Outro dano provável é direcionado às vendas externas brasileiras, que se tornam alvo de um controle mais rigoroso por parte de nações como os EUA e aliados europeus, que endossam as definições de Washington. “Tudo que o Brasil exporta será colocado no patamar de produtos suspeitos de serem empregados para o tráfico de drogas, para atos terroristas ou contra corporações multinacionais. Esse é o grau mais profundo que afetará de modo prolongado e permanente as exportações do Brasil”, afirmou o cientista político.
Teixeira, professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro, enfatizou ainda que o setor turístico deve ser imediatamente prejudicado, uma vez que a determinação do governo Trump coloca o país como refúgio de entidades terroristas. “Isso nos equipara à Somália ou a outros territórios. Coloca-nos no mesmo nível de países que antes chamávamos de nações párias, países que não são considerados seguros para o turismo e para viajantes internacionais”, avalia o docente. Conforme o professor da UFRJ, o chamado turismo corporativo em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, que abrigam as facções classificadas como terroristas, também será impactado. “A realização de eventos de negócios em São Paulo deve diminuir de forma expressiva; é o que denominamos turismo de negócios, que é extremamente relevante em São Paulo por movimentar a rede hoteleira e os serviços de restaurantes, táxis, entre outros”, complementou.
O professor de economia internacional da UFRJ Luiz Carlos Prado esclareceu que é difícil calcular o impacto dessa medida para a economia, mas acredita que as companhias podem sofrer prejuízos através de subterfúgios empregados para obstruir concorrentes. Ele levanta a hipótese da utilização política da classificação. “Recentemente, ocorreram investigações envolvendo fintechs [empresas financeiras] na região da Faria Lima, em São Paulo. Em teoria, a resolução dos EUA abre espaço para uma retaliação contínua por suposto apoio ao terrorismo de instituições financeiras no Brasil. É possível usar isso politicamente para esse propósito”, afirmou. Para o economista, empresas brasileiras poderiam ser prejudicadas sob alegações de envolvimento com o terrorismo. “Eleva-se o risco de companhias que operam no país virem a ser prejudicadas por algum critério que se estabelece, reduz a margem de ação de empresas brasileiras e do Estado brasileiro, amplia a instabilidade política e trata de questões particulares do crime organizado”, comentou.
Pretexto para intervenção
O governo brasileiro tem indicado que a determinação de classificar as facções do Brasil como entidades terroristas pode servir como justificativa para uma interferência externa, com consequências econômicas consideráveis sobre o sistema financeiro. “Podem afetar nosso sistema financeiro e inovações nacionais como o Pix, que incomodam interesses estrangeiros”, afirma o comunicado. Os EUA estão investigando o Pix do Brasil por suposta “concorrência desleal”. O mecanismo prejudica comercialmente empresas financeiras norte-americanas.
Terrorismo tem motivação política
Os especialistas ouvidos pela Agência Brasil explicaram que, ao contrário do crime organizado e do narcotráfico, que visam o lucro, o terrorismo global persegue metas políticas e ideológicas. Para o professor da UFRJ Luiz Carlos Prado, o combate às organizações que almejam o lucro precisa ser distinto do combate a grupos que buscam objetivos políticos. “O Estado Islâmico contava com seus apoiadores em grupos radicais, inclusive em países aliados aos EUA, como Arábia Saudita e em vários outros, mas por razões ideológicas. Nenhum grupo criminoso no Brasil possui apoio, por razões ideológicas, na Europa, nos EUA ou na América Central. O que eventualmente pode motivar são interesses econômicos”, comentou. O especialista em relações exteriores Chico Teixeira, por sua vez, avalia que a decisão do governo Trump não traz nenhum benefício para a luta contra o crime organizado e sugere que os EUA deveriam buscar suprimir os paraísos fiscais usados para lavagem de dinheiro. “O governo Trump deveria suprimir o paraíso fiscal que representa o estado de Delaware, dentro dos EUA, para onde vai o dinheiro dos criminosos brasileiros para ser lavado. E, em segundo lugar, os paraísos fiscais do Caribe, como Ilhas Virgens e Ilhas Cayman, que estão sob soberania americana”, concluiu.







