Em meio à guerra no Oriente Médio e às pressões sobre os preços da energia, um dos principais riscos para as economias é que o choque atual se torne uma inflação persistente, declarou o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Pierre-Olivier Gourinchas. Ele também alertou que, a cada dia de prolongamento do conflito, aumenta a probabilidade de um cenário adverso para a economia mundial, com uma situação mais severa podendo resultar em recessão global.
“Não se pode permitir que um choque energético se transforme em um problema inflacionário duradouro”, afirmou Gourinchas durante a apresentação da edição de abril do World Economic Outlook (WEO), o principal relatório de perspectivas econômicas da instituição.
De acordo com o economista, embora os bancos centrais não tenham controle sobre o preço do petróleo, eles podem atuar para evitar o surgimento de espirais salário-preço e para ancorar as expectativas de inflação — lições fundamentais extraídas dos choques do petróleo da década de 1970.
“Isso não significa que precisem frear a economia de maneira abrupta e imediata”, complementou. “Porém, se observarem sinais de que a inflação está se consolidando, de que há espirais de salários e preços, ou de que famílias e empresas começam a esperar uma inflação mais permanente, então será necessário agir.”
Projeções e cenários de risco
As novas projeções do FMI indicam um crescimento global de 3,1% neste ano — uma revisão para baixo de 0,2 ponto percentual em relação às estimativas de janeiro — em um cenário base considerado moderado, que pressupõe a redução das disrupções causadas pelo conflito até meados do ano. Nesse contexto, a inflação mundial deve subir de 4,1% em 2025 para 4,4% em 2026.
Gourinchas ressaltou, contudo, que a cada novo episódio de disrupção no setor energético, o mundo se aproxima mais de um cenário adverso. Nesse quadro, a economia global cresceria apenas 2,5% em 2025 — o ritmo mais lento desde a pandemia de Covid-19 em 2020 — caso os preços do petróleo se mantenham em torno de US$ 100 por barril ao longo do restante do ano.
“A cada dia que passa e a cada nova interrupção no fornecimento de energia, nos aproximamos mais do cenário adverso”, disse o economista.
Ele também alertou para o risco de uma deterioração ainda mais acentuada da atividade global, como no cenário mais severo do relatório. Nessa hipótese, “a economia mundial ficaria próxima de uma recessão”, com crescimento em torno de 2% neste ano e no próximo, e inflação global próxima de 6%.
“Se as condições financeiras se apertarem de forma abrupta, como em nosso cenário severo, quando a atividade global se deteriora de maneira acentuada, as políticas monetária e fiscal devem estar preparadas para se reorientar em apoio à economia e para salvaguardar o sistema financeiro, aliadas a políticas financeiras e de liquidez adequadas”, afirmou.
Investimento em energias renováveis
O economista-chefe do FMI também destacou a importância da diversificação energética no cenário atual. A melhor estratégia — adotada por vários países já nos anos 1970 e que provavelmente será ampliada agora — é encontrar formas de diversificar as fontes de energia, com maior dependência da produção doméstica.
“Frequentemente, isso significa investir em energias renováveis, e é provável que testemunhemos um forte impulso nessa direção”, declarou.
Por fim, Gourinchas observou que as crescentes tensões na ordem internacional estão impulsionando uma configuração mais multipolar, mas alertou que isso não precisa resultar em maior fragmentação.
“É preciso continuar fortalecendo a cooperação global com as políticas adequadas, incluindo uma cessação imediata das hostilidades e a reabertura do Estreito de Ormuz”, completou. “Os danos ainda podem ser limitados.”







