Crítica: O Santo e a Porca

Entre a Grana, Santo Antônio e a Avareza, um Grupo de Guaçuí tenta acender o pavio do sertão na era Digital em Vitória

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27 de Maio de 2026 | Grupo Gota, Pó e Poeira | Aldeia SESC Ilha do Mel

Confesso que entrar no teatro para assistir a uma obra de Ariano Suassuna é sempre um misto de expectativa e desconfiança. Afinal, lidar com o sagrado do nosso teatro popular exige muito. No balanço das ondas da cultura, o Grupo Teatral Gota, Pó e Poeira, vindo lá de Guaçuí para celebrar seus impressionantes 42 anos de trajetória neste ano de 2026, trouxe ao público a montagem de “O Santo e a Porca”. O espetáculo se propõe a ser um repente cênico, uma excursão direta para o coração do sertão, nos colocando dentro da história com a velocidade de um raio. Mas será que a pólvora desse grupo tradicional ainda acende o pavio da nossa juventude conectada?

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Ariano Suassuna escreveu essa comédia de costumes em 1957, bebendo diretamente na fonte de d’O Avarento, de Molière. Trazer essa discussão para o público de hoje é um desafio de tradução cultural. Se no passado a preocupação era a mudança do Cruzeiro para o Cruzado, hoje o jovem se preocupa se o Pix vai cair ou se o Direct do Instagram foi visualizado.

Os figurinos são bonitos e extremamente bem-feitos, enchendo os olhos de quem busca uma experiência visual rica. A introdução funciona como uma espécie de cartão de visitas em alta velocidade, a música introduz bem (tudo começa por uma carta). Mas, desde o início já nos mostra um mistério: o personagem descrito como o “mais feio”, se revela o verdadeiro galã escondido, mantendo um romance secreto com a filha do patriarca. Isso dá o norte da apresentação.

A dinâmica familiar apresentada na montagem é o mais puro suco do caos. A família é confusa, ninguém se escuta e a falta de comunicação impera. Para piorar a situação, a presença da manipuladora Caroba instaura uma desordem generalizada, transformando a casa de Euricão em um verdadeiro hospício nordestino. Vivemos em uma época onde as conexões são rápidas, mas os vínculos são frágeis. Todo mundo digita, todo mundo grita nas redes sociais, mas ninguém realmente se escuta. Na peça, todos falam a mesma língua, mas ninguém se entende. É a perfeita tradução da solidão hiperconectada que os jovens vivenciam hoje: cercados de amigos virtuais, mas isolados em seus próprios monólogos.

Essa confusão atinge seu ápice quando entra em cena a personagem Caroba, a empregada da casa. Ela é, sem sombra de dúvidas, a mente mais brilhante daquele universo. Enquanto os outros personagens se afogam em suas próprias neuroses e ganâncias, Caroba arma todos os planos, tenta sempre ganhar um “a mais” e articula o destino de todo mundo, inclusive agindo contra as expectativas gerais. Ela manipula os casamentos cruzados para garantir seus salários atrasados: une Eudoro a Benona (antigos noivos), garante a união de Margarida e Dodó, e se junta ao seu noivo, Pinhão. Ela sabe exatamente o que cada um quer e usa essa engrenagem para fazer o mundo girar a seu favor. O noivo dela, Pinhão, funciona como o contraponto perfeito: ele é medroso, enquanto ela assume as rédeas e a coragem das atitudes. Mas, daqui a pouco falo mais sobre ele.

Um dos grandes acertos técnicos da montagem do Grupo Gota, Pó e Poeira reside na inteligência cenográfica. O cenário é extremamente bem usado, destacando-se pela versatilidade de maletas unidas que se transformam em cadeiras e outros mobiliários ao longo da encenação. Essa escolha estética dialoga diretamente com as propostas de Bertolt Brecht e seu “teatro épico”, onde os elementos de cena não servem apenas para ilustrar a realidade de forma passiva, mas sim para lembrar o espectador de que aquilo é uma construção artística, convidando-o a pensar sobre as funções daqueles objetos na engrenagem social da peça. As malas simbolizam a impermanência, o trânsito e a própria fragilidade da riqueza material de Euricão.

No entanto, o espetáculo derrapa justamente onde deveria manter o fôlego lá no alto: na figura do patriarca Euricão. O personagem é chato, avarento, desconfiado e mesquinho. Toda vez que ele entrava em cena, o ritmo da apresentação caía drasticamente. Se a intenção do diretor foi construir um personagem propositalmente irritante para gerar o distanciamento crítico do público, a execução deixou a desejar. O ator insistia em repetir exaustivamente a palavra “ladrões”, tornando a piada maçante e sem o efeito cômico esperado.

Apesar desse problema crônico de ritmo no núcleo central, o ator que interpretou o patriarca demonstrou um louvável profissionalismo e uma presença de cena admirável. Em um determinado momento da apresentação, percebendo que os elementos técnicos de iluminação estavam prejudicando a estética visual da cena, ele não hesitou em incorporar uma correção técnica ao próprio texto dramático, dizendo para a colega de elenco: “dá um passo para frente que está dando sombra“. Esse tipo de jogo de cintura mostra que, apesar dos problemas de direção de ritmo, o elenco estava vivo e atento ao espaço cênico.

Ao Santo e a Porca no Aldeia Sesc Ilha do Mel | Foto: Daniel Bones

Se o patriarca derrubava o ritmo, como dito acima, o emissário Pinhão era o verdadeiro motor elétrico da peça. O alívio cômico desse personagem é simplesmente sensacional. Ele rouba a cena com maestria até mesmo quando não está no foco principal da ação. O humor físico do ator é impecável, arrancando gargalhadas sinceras da plateia através de uma linguagem corporal. Os rapazes (Pinhão e Dodó) também entregam uma boa movimentação cênica quando reclamam da vida: eles sentam, levantam, reclamam e sentam novamente se aproximando, em uma coreografia orgânica da frustração romântica dos jovens.

Contudo, nem todas as escolhas de movimentação e direção foram felizes. Certos exageros corporais não foram bem executados e acabaram quebrando a suspensão da descrença, como na cena em que os personagens correm de forma demasiadamente caricata e na posterior ameaça do patriarca aos rapazes.

O maior calcanhar de Aquiles da montagem, entretanto, ficou por conta da proposta de fazer com que os personagens criassem os sons fora de cena; o que até possui valor artístico, mas a falta de sincronia estragou o efeito de exaltação que o texto de Suassuna exige. Pior ainda: as trocas constantes dos atores para fazerem a sonoplastia ao vivo eram visíveis e desconcertavam a fluidez da cena, quebrando a energia do espetáculo.

O elenco, contudo, provou sua resiliência diante do inesperado. Durante a apresentação, alguém na plateia deu um espirro estrondoso. Em vez de ignorarem ou se desconcentrarem, os atores em cena estranharam o barulho de forma cômica, mantiveram a postura de seus personagens e incluíram o espirro organicamente no texto. Uma jogada de mestre que arrancou aplausos extras e mostrou o verdadeiro espírito do teatro vivo.

Ao Santo e a Porca no Aldeia Sesc Ilha do Mel | Foto: Daniel Bones

Analisando os outros personagens que orbitam esse caos, temos Benona, a irmã do patriarca. Ela entra na trama envolvida no plano com a promessa de que finalmente vai casar, de olho no ricaço Eudoro. A atriz traz um bom humor e uma safadeza na medida certa, funcionando como um breve, mas eficiente, alívio cômico. Por outro lado, Margarida, a filha prometida que todos querem casar, acaba se tornando apenas um objeto de desejo dentro da engrenagem do roteiro, carecendo de uma construção de personagem mais profunda e tridimensional na atuação.

No geral, o sentimento que fica ao término da sessão é de que faltou energia vital em cena. O texto de Ariano Suassuna é uma força da natureza, poderoso por si só, repleto de uma crítica popular feroz contra a opressão e a hipocrisia das elites coloniais do sertão. Lamentavelmente, o grupo de Guaçuí parecia cansado no palco, desprovido do vigor necessário para sustentar a farsa. Eles entregaram boas piadas isoladas, mas o espetáculo passou a nítida impressão de que faltou ao elenco tomar um bom café forte antes de abrir as cortinas. O final da peça, que deveria ser o clímax, me pareceu jogado e excessivamente caótico, perdendo a contundência da crítica social que faz a obra ser imortal.

Quando Euricão descobre que a porca de madeira recheada de dinheiro não vale mais nada porque o “dinheiro envelheceu”, ele é jogado no absurdo da existência. Ele termina sozinho com o seu santo e o seu pedaço de madeira inútil. Euricão termina conversando com Santo Antônio sem obter resposta, porque passou a vida inteira aceitando apenas o eco do seu próprio egoísmo. O avarento se isola tanto do mundo em nome do capital que, quando a vida acontece, ele perde a única linguagem que sabia falar, restando apenas o monólogo com o vazio. O Grupo Gota, Pó e Poeira entregou uma montagem correta, engraçada e visualmente caprichada para celebrar seus 42 anos, mas que precisa recuperar a velha energia do teatro para que a porca de Suassuna não pareça jogada e sem a forte mensagem.

O verdadeiro tesouro da vida não se guarda em porcas de madeira, pois enquanto o homem idolatra o dinheiro esquecendo o afeto, o tempo muda, e a vida te deixa sozinho a conversar com o santo.

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Daniel Bones
Daniel Bones
Sou o "Severino do Audiovisual Capixaba", já atuei em diversas áreas como fotografia, edição, sou ator, compositor, produtor e diretor de filmes e TV. Gosto de contar histórias. Ponto Final. (...) Aqui, minha coluna é cultural, mas vive com uma dor postural. Eventos, Arte, Cultura, Cinema e Teatro são comigo aqui! Se quiser, siga essa doideira ai!

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