Nem tudo na vida precisa ter utilidade

Grande parte da existência é dedicada a fazer o tempo render, os planos caminharem e cada esforço resultar em algum avanço. Até as pausas para descansar parecem exigir justificativa. No entanto, nessa pressa por construir uma vida melhor, talvez a própria vida esteja sendo deixada para depois. O hábito de perseguir resultados é tão forte que se perde de vista o valor daquilo que não precisa conduzir a lugar nenhum.

Continua após a publicidade

Talvez você já tenha ouvido a parábola do pescador: um empresário observa um homem pescar com facilidade no barco e pergunta por que ele não passa mais tempo no mar, já que assim conseguiria mais peixes. O pescador, tranquilo, responde que já pescou o suficiente para sustentar a família. “Com o restante do tempo, brinco com meus filhos, cochilo com minha esposa e, à noite, vou ao vilarejo conversar com meus amigos, tocar violão e cantar. Tenho uma vida plena e feliz.”

Sem aceitar a falta de ambição do pescador, o empresário oferece um conselho de negócios. “Você deveria passar mais tempo pescando. Com o lucro, compraria um barco maior, pegaria mais peixes e compraria uma frota de barcos. Depois, abriria sua própria fábrica para controlar a produção e a distribuição. Sairia desta aldeia e iria morar em uma grande metrópole para gerenciar seu império.” O pescador então pergunta: “Mas, senhor, quanto tempo isso levaria?”

Continua após a publicidade

O empresário responde que seriam uns 15 ou 20 anos. E então viria a melhor parte: “Você poderia se aposentar, mudar para uma pequena aldeia costeira, dormir até tarde, pescar um pouco, brincar com seus filhos, cochilar com sua esposa e passar as noites bebendo e tocando violão com seus amigos.” O pescador olha com calma para o empresário e pergunta: “Mas, senhor… não é exatamente isso que eu já faço hoje?”

À primeira vista, talvez a reação mais comum seja pensar como o empresário, enxergando ali uma oportunidade de negócio. Mas uma fala recente do líder indígena, escritor e filósofo Ailton Krenak fez essa história ser olhada de outra maneira:

“A vida é tão maravilhosa que a nossa mente tenta dar uma utilidade a ela, mas isso é uma besteira. A vida é fruição, é uma dança, só que é uma dança cósmica, e a gente quer reduzi-la a uma coreografia ridícula e utilitária.”

Vive-se em uma sociedade na qual a lógica da produtividade foi tão incorporada ao modo de viver que já não é preciso alguém cobrando o tempo todo. Essa pressão passou a vir de dentro. Para Silvia Muiramomi, socióloga e líder indígena do povo Guayaná-Muiramomi, trata-se da condição humana funcionando em modo fábrica. Para entender como se chegou a esse ponto, porém, é necessário olhar para o passado.

Dos saberes ancestrais ao acúmulo de riquezas

Quando os navios portugueses e europeus chegaram às Américas, encontraram mais de mil povos organizados em sociedades autossustentáveis, com conexão íntima com os ciclos da natureza. “Eles conviviam no território, livres, havia entre dez e 12 mil anos”, explica.

Com o passar do tempo, muitos saberes ancestrais indígenas sobre como viver bem foram apagados, abrindo espaço para a valorização do trabalho duro e da produtividade. “Nos séculos 16 e 17, quem não aceitava essa dinâmica era preso por vadiagem ou escravizado nos engenhos e fazendas beneditinas. Logo, essa construção de sociedade não ocorreu de forma natural, mas pela violência da colonização”, afirma Silvia.

O estabelecimento da propriedade privada aprofundou esse quadro. Ter terras passou a ser o novo sinônimo de vida boa. A promessa de um futuro estável, seguro e confortável estimulou a busca por produtividade cada vez maior. “O desejo de acumular bens passou a ser priorizado em detrimento da coletividade e da colaboração, substituindo a lógica da abundância e da vida”, diz Silvia.

Consegui! E agora?

Ocorre que o desejo — essa força cega que habita as pessoas — nunca alcança satisfação definitiva. Como uma fome sem prato específico, ele é alimentado, proporciona prazer por um instante e, dez minutos depois, retorna com apetite redobrado. Para Silvia, essa dinâmica é a condição humana funcionando em modo fábrica.

Contudo, “nada que venha do exterior pode nos levar à plenitude do ser. Um objeto externo que adquirimos, ao contrário, proporciona um prazer efêmero e ilusório, um pico rápido de satisfação que logo dá lugar ao estresse, à fadiga e à frustração pelo vazio que deixa”, explica a líder indígena. Por isso, permanece-se num ciclo de busca constante, sem nunca atingir a sensação de saciedade. “Essa dinâmica reforça uma busca exterior e nos leva ao adoecimento.”

Na prática, é o convívio com a natureza, a partilha entre amigos e a vida em comunidade que conduzem à realização e a estados de felicidade mais perenes. O bem-estar é uma equação que envolve saúde física, emocional e espiritual. “Quando todos esses aspectos se alinham harmoniosamente em nosso interior, somos capazes de sentir satisfação com quem somos, o que fazemos e como sentimos. E isso desencadeia reações químico-fisiológicas que nos trazem alegria, prazer e amor duradouros”, afirma.

A beleza está na própria existência

A escritora e ativista Guarani Geni Núñez compartilhou, no programa Café Filosófico, uma reflexão de Dona Lulu Cunhai Botu Caioá, liderança do povo Caioá, que evidencia como a lógica utilitarista influencia até a forma como se atribui valor e beleza às diferentes fases da vida.

A infância é vista como preparação para a vida adulta, enquanto a velhice é tratada como fase de perda. Crianças e idosos acabam ficando em segundo plano, tanto por não serem considerados produtivos quanto porque o cuidado que demandam pode ser encarado como obstáculo ao trabalho de quem cuida. É como se o valor da vida estivesse concentrado nos anos em que se é capaz de produzir.

Para questionar essa ideia, ela traz a imagem de uma folha que um dia foi verde e depois se tornou marrom, sem que isso a tornasse menos bonita. A beleza, nessa perspectiva, não está presa à juventude, mas à própria vida. Silvia complementa essa ideia:

“Para nós, indígenas, a vida e a natureza vivem na circularidade. Tudo é importante e cada etapa desse ciclo guarda seu valor. Assim, o rio que passa, a folha que cai, a chuva que inunda as várzeas, o fogo que faz renascer o cerrado, a criança que nasce e o idoso representam importantes etapas da vida e da natureza, e devem ser igualmente honrados, protegidos e celebrados.”

Sob a lógica da utilidade, porém, o rio que enche causa danos materiais, e os ciclos da terra devem ser controlados para servir ao homem. Enxergar utilidade em tudo é uma forma de destruir as subjetividades e, assim, controlar os corpos, explica a socióloga. “A contemplação dos ritmos da vida em todas as suas formas é a chave para desligar o sistema e buscar o bem viver ancestral.”

É preciso amar o “inútil”

Mas como atenuar os efeitos disso, se há tanta familiaridade com esse modo de viver? Para Chrystinna Barros, especialista em felicidade pela Universidade de Berkeley, não é necessário abandonar metas, trabalho ou ambição; no entanto, essa não pode ser a única régua para definir o que merece tempo. “Quando fazemos isso, corremos o risco de empobrecer a própria vida.”

É possível percorrer um caminho que preserve espaços sem finalidade determinada, mesmo nas pequenas coisas: contemplar uma música inteira, caminhar sem transformar o percurso em exercício, conversar sem olhar o relógio. Tudo isso sem criar a meta de ser improdutivo, explica. “Se transformarmos esse momento em mais uma obrigação, repetiremos exatamente a lógica que estamos tentando questionar.”

Também vale lembrar: por mais que a produtividade seja útil e ofereça uma base para planejar o amanhã, é preciso estar aberto ao inesperado, àquilo que não tem finalidade certa. Como sair para resolver algo simples e acabar passando a tarde inteira com alguém querido, fazer um caminho mais longo e descobrir uma paisagem bonita ou aceitar um convite sem saber exatamente qual é a programação.

Como diria a escritora Lygia Fagundes Telles, “é preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher as rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim, sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas da vida.”

Continua após a publicidade
Redação
Redação
Redação representa o esforço colaborativo de toda a equipe de jornalistas e editores dO Capixaba. Por meio de um trabalho integrado e multidisciplinar, contextualizando as informações e acompanhando as novidades do momento com agilidade e rigor.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
22ºC
Máxima
24ºC
Mínima
22ºC
HOJE
31/10 - Sáb
Amanhecer
04:59 am
Anoitecer
05:49 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
11.12 km/h

Média
23ºC
Máxima
24ºC
Mínima
22ºC
AMANHÃ
01/11 - Dom
Amanhecer
04:59 am
Anoitecer
05:50 pm
Chuva
19.13mm
Velocidade do Vento
10.04 km/h

Fim da Sanremo: ônibus de Vila Velha têm novos números

Redação

Leia também