Em redes sociais, jovens de diferentes partes do mundo vêm divulgando uma suposta estratégia amorosa que abre mão de banho, desodorante e perfume.
No pheromone-maxxing — traduzido como “maximização dos feromônios” —, a higiene básica fica em segundo plano, e o principal estímulo é que os homens parem de tomar banho para atrair mulheres.
Na prática, a intenção é impulsionar a vida amorosa. Quem adere ao pheromone-maxxing busca “exalar masculinidade” ao se livrar de odores artificiais de tudo o que possa interferir no cheiro natural do corpo. Isso funcionaria como um “atrativo sexual biológico”, o que, conforme especialistas, não faz muito sentido.
Jovens relatam que deixaram de tomar banho com frequência, abandonaram itens de higiene pessoal e usam as mesmas roupas por vários dias, sobretudo antes de encontros. Alguns contam que passaram a receber mais elogios pela aparência e que conseguiram se relacionar com mais mulheres depois de aderir ao movimento.
De onde vem essa ideia?
A “lógica” por trás da tendência são os feromônios, moléculas presentes no organismo de diferentes espécies e que cumprem funções bastante distintas. No reino animal, estão associados a fatores como comunicação, defesa e acasalamento de insetos, peixes, mamíferos e outros.
Em seres humanos, essa discussão ainda carece de evidências científicas, segundo o endocrinologista Guilherme Augusto, do Hospital Sírio-Libanês. “O feromônio existe, mas não está totalmente ligado com o que vem sendo falado pelo pheromone-maxxing”, explica.
Alguns estudos apontam a existência de sinais químicos que provocam respostas inconscientes em humanos, ainda que de baixa intensidade, seguindo a lógica do feromônio. É o caso da androstadienona e do estratetraenol, substâncias associadas ao sexo e tidas como as principais “candidatas” ao posto de feromônios sexuais humanos.
Apesar disso, nenhuma pesquisa chegou a resultados conclusivos de que as substâncias funcionem dessa maneira, enfatiza Luiz Portari, médico endocrinologista e coordenador da pós-graduação da Afya Educação Médica.
Na lógica do pheromone-maxxing, a mudança nos hábitos de higiene potencializa a liberação dessas moléculas pelo corpo, como ocorre em animais que exalam estímulos no ambiente ao redor. Especialistas, porém, reforçam que isso não acontece em humanos.
O endocrinologista do Hospital Sírio-Libanês manifesta preocupação com a circulação de conteúdos como esse nas redes sociais.
“O nosso grande problema hoje é distinguir o que é informação de qualidade e o que não é. Infelizmente, as pessoas estão sendo prejudicadas por má informação e acabam pagando o preço com relação à saúde”
Guilherme Augusto, endocrinologista do Hospital Sírio-Libanês
A maximização acompanha outro conjunto de tendências nas redes voltado ao público masculino: o looksmaxxing, que consiste em técnicas extremas para homens alcançarem um padrão de beleza considerado ideal.
Os conteúdos misturam dicas importantes — como a prática de exercícios — com comportamentos arriscados, como incentivar jovens a esmagar os ossos do próprio rosto para adquirir uma fisionomia mais “masculina”.
Quais são os riscos da tendência?
Ao contrário do que afirmam os defensores da maximização de feromônios, a má higiene traz riscos à saúde. Deixar de tomar banho e repetir roupas sujas favorece a proliferação de bactérias e o acúmulo de sebo na pele, o que causa desequilíbrio na microbiota e mau odor.
Segundo especialistas, entre as consequências graves desse comportamento estão:
- Infecções de pele (como foliculite)
- Micoses (principalmente na virilha e nas dobras do corpo)
- Infecções urinárias recorrentes
- Balanopostite (inflamação da glande e do prepúcio do pênis)
Na prática, o efeito acaba sendo o oposto do desejado: em vez de atrair, afasta possíveis interesses amorosos. Para o endocrinologista Luiz Portari, a influência coletiva nas redes sociais perpetua esse fenômeno.
“Os jovens têm um raciocínio grupal e, se o grupo aceitar que isso é atrativo, não é possível ser diferente dele. Por isso as fakes news entre adultos jovens e adolescentes dão certo: a pessoa precisa ser igual aos outros”, afirma.
Tendência tem relação com a “machosfera”
A atração sexual é um processo complexo e não pode ser definida por apenas um fator, como o cheiro do corpo. Ela envolve outros aspectos comportamentais, além dos intelectuais e emocionais, para que haja identificação e interesse entre as pessoas.
Para a sexóloga e terapeuta sexual Mari Williams, a trend reflete padrões profundos sobre as formas de se relacionar romanticamente hoje. “Parece que os homens estão menos preocupados em perceber e descobrir o que as mulheres realmente querem, e mais preocupados em tentar achar uma garantia de desejo”, analisa.
A especialista identifica uma falta de profundidade nos vínculos afetivos por parte de quem pratica as técnicas do pheromone-maxxing. “Fórmulas” de como conquistar mulheres se tornaram comuns na internet, mas essa viralizou pela peculiaridade do comportamento a ser seguido.
Essa tendência é frequentemente associada a conteúdos da “machosfera”, rede digital que propaga discursos machistas e reforça padrões de masculinidade tóxica. Neles, os homens se baseiam em diferentes teorias pseudocientíficas na tentativa de conquistar mulheres.
Entretanto, apesar dos relatos de quem segue a trend, nem os feromônios nem o odor corporal trazem benefícios para a vida amorosa, reforçam os especialistas.







