Como saber quando uma preocupação merece atenção

Há dias em que a mente simplesmente não desacelera. Um pensamento puxa outro, a cabeça percorre múltiplos cenários e, quando se percebe, uma hora inteira passou sem que nenhuma decisão tenha sido tomada. O esforço parece intenso, mas o resultado não vem. Em vez de uma solução, permanece o cansaço e surge a dúvida sobre quando uma preocupação merece atenção.

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Preocupar-se é parte da experiência humana. O ponto central está em notar quando essa preocupação contribui para lidar com uma situação concreta e quando se transforma em uma tentativa repetida de controlar o que não está sob o alcance de ninguém.

Jorge Guedes, psicanalista e doutor em neuropsicologia e neurociência, explica que existe uma diferença relevante entre pensar para compreender e pensar para afastar a insegurança.

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“Existe uma diferença entre pensar para compreender e pensar para tentar suprimir uma sensação de insegurança. No segundo caso, a pessoa pode repetir mentalmente as mesmas possibilidades, imaginar cenários distintos e buscar uma resposta que talvez não exista naquele momento. Quanto mais importância se dá a determinado pensamento, mais facilmente ele volta a capturar a atenção. Isso não indica que o pensamento esteja correto ou que o problema seja necessariamente grave. Indica que ele passou a ocupar uma posição privilegiada dentro do sistema de atenção.”

O cérebro age dessa maneira porque tende a priorizar aquilo que interpreta como ameaça ou como algo que exige solução. O problema é que esse mecanismo não consegue distinguir sozinho uma situação que realmente requer resposta de um alarme disparado sem necessidade.

Quando a preocupação deixa de ajudar

Uma preocupação pode cumprir uma função importante. Ela identifica riscos, chama a atenção para questões concretas e é capaz de mobilizar uma atitude. O sinal de alerta surge quando o pensamento deixa de produzir movimento e começa a se alimentar de si mesmo.

Lívia Barreto, psicóloga especialista em terapia cognitivo-comportamental, descreve esse processo a partir de uma pergunta que costuma iniciar o ciclo: “E se acontecer alguma coisa?”.

“O problema aparece quando essa pergunta deixa de conduzir a uma ação e passa a gerar uma sequência interminável de outras perguntas. A pessoa revisa conversas, imagina o que poderia ocorrer, procura sinais, pede opiniões, pesquisa na internet e retorna ao mesmo assunto. Tudo isso pode transmitir uma sensação de movimento, mas nem sempre há avanço. É como caminhar em círculos dentro do mesmo problema. A mente permanece ocupada, mas não necessariamente encontra uma solução.”

Uma forma prática de notar a diferença é observar se o pensamento está gerando algo novo. O planejamento traz informação, uma decisão ou um próximo passo. Já a ruminação apenas reorganiza as mesmas possibilidades.

Jorge resume a diferença entre os dois processos: “Do ponto de vista cognitivo, existe uma diferença importante entre planejamento e ruminação. Planejar produz algum próximo passo. A ruminação repete a análise sem aumentar proporcionalmente a capacidade de decisão.” Por isso, uma pergunta simples pode ajudar: “Depois de todo esse tempo pensando, é possível saber qual é o próximo passo?” Se a resposta for não, talvez seja o momento de interromper a análise.

Preparação ou fuga?

A preocupação excessiva também pode se aproximar da procrastinação. Isso ocorre principalmente quando pensar, pesquisar e se preparar proporcionam uma sensação de segurança diante do desconforto de agir.

Lívia explica que esse movimento pode surgir em frases como “vou fazer depois que organizar melhor” ou “preciso me preparar mais”. “Na prática clínica, é importante diferenciar a preparação suficiente da preparação usada como fuga. Se a pessoa já tem informações suficientes para dar o primeiro passo, continuar pesquisando pode estar apenas sustentando o adiamento.”

Pensar permite manter várias possibilidades em aberto. Agir, por outro lado, exige escolher um caminho e lidar com o que vier depois.

Para quem tem dificuldade de tolerar a incerteza, permanecer no campo das hipóteses pode proporcionar alívio imediato, ainda que mantenha o problema exatamente no mesmo lugar.

Por isso, a saída não exige uma grande mudança de comportamento. Lívia sugere reduzir a tarefa ao menor passo possível. Em vez de “preciso resolver minha vida profissional”, pode-se pensar em “vou me candidatar para essa vaga”. A proposta é começar sem esperar a sensação de segurança completa.

A busca por uma certeza que não existe

Por trás de muitas preocupações reside a tentativa de eliminar a dúvida antes de tomar uma decisão. O detalhe é que a vida não oferece garantias permanentes.

“O cérebro trabalha o tempo inteiro com previsões, mas a vida não oferece garantias permanentes”, explica Jorge. “Quando alguém tem uma necessidade elevada de certeza, pode tentar compensar essa ausência de controle pensando cada vez mais, buscando informações, pedindo confirmação ou antecipando possíveis problemas. O paradoxo é que a tentativa de alcançar uma certeza absoluta pode justamente aumentar a insegurança.”

A dificuldade está em reconhecer que nenhuma quantidade de preparo conseguirá eliminar por completo o risco de uma escolha. Sempre pode aparecer uma nova dúvida, uma informação diferente ou um cenário que não havia sido considerado.

Na terapia cognitivo-comportamental, Lívia propõe substituir a busca por uma garantia por uma pergunta que possa, de fato, ser respondida. “É possível ter dúvidas e, ainda assim, agir de acordo com os próprios valores e com as informações disponíveis. Com base no que se sabe hoje, qual é a decisão mais razoável a tomar? Essa é uma pergunta que a pessoa pode responder. A outra, não.”

A mudança não está em deixar de considerar as consequências, mas em reconhecer o limite entre preparar-se para uma decisão e tentar eliminar toda possibilidade de erro.

Nem tudo precisa ser resolvido agora

Quando uma preocupação surge, pode ser útil identificar o que exatamente ela está pedindo. Em vez de tentar resolver tudo mentalmente, Jorge sugere dividir a questão em três perguntas: existe algo que pode ser feito agora? Existe uma decisão que depende da própria pessoa? Ou há uma tentativa de encontrar resposta para algo que ainda não pode ser resolvido?

Colocar a preocupação no papel também pode ajudar a retirá-la do fluxo contínuo de pensamentos e permitir que seja observada com mais distanciamento. Não é preciso transformar isso em um exercício elaborado de organização. Uma única frase pode ser suficiente: trata-se de um problema para resolver hoje ou de uma questão que precisa ser tolerada por enquanto?

Lívia acrescenta outra distinção: preocupações solucionáveis e preocupações hipotéticas. Uma conta que vence amanhã, por exemplo, permite uma ação concreta. Já a possibilidade de perder o emprego daqui a seis meses não oferece necessariamente uma resposta no presente. Tentar obter garantias para esse segundo cenário pode alimentar ainda mais a apreensão.

Também vale distinguir fatos de possibilidades. Uma preocupação pode misturar algo que realmente aconteceu, uma hipótese possível e uma previsão catastrófica como se todas essas informações tivessem o mesmo peso. Identificar essa diferença não elimina o problema, mas ajuda a dimensioná-lo.

Nem toda preocupação precisa de uma resposta

Quando o pensamento já entrou em um ciclo, é comum tentar encontrar a resposta definitiva que faria a preocupação desaparecer. Mas essa estratégia pode manter exatamente o comportamento que alimenta o problema.

Lívia explica que, na TCC, um dos pontos trabalhados é identificar o que sustenta esse ciclo. “A pessoa pode perceber que começa com uma preocupação, depois procura uma garantia, sente um alívio breve e, pouco tempo depois, a dúvida retorna. Esse alívio acaba ensinando o cérebro a repetir o comportamento.” Checagens, pesquisas e pedidos constantes de confirmação podem operar dessa maneira: aliviam a tensão por alguns instantes, mas reforçam a necessidade de repetir o processo.

Interromper esse movimento não significa deixar de se importar com tudo. “Não é preciso esperar a ansiedade desaparecer para voltar à vida. É possível sentir alguma preocupação e, ainda assim, continuar fazendo aquilo que é importante”, afirma Lívia.

Jorge também chama atenção para a possibilidade de retornar ao corpo e ao ambiente quando a mente está presa a cenários futuros. Perceber a respiração, os sons ao redor e aquilo que está acontecendo naquele instante pode ajudar a atenção a sair da situação imaginada e voltar ao presente. Mas ele faz uma ressalva importante: “Interromper uma preocupação não significa obrigatoriamente encontrar uma resposta para ela. Às vezes, significa reconhecer que já se pensou o suficiente naquele momento e escolher continuar a vida mesmo sem resolver completamente a questão.”

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Redação representa o esforço colaborativo de toda a equipe de jornalistas e editores dO Capixaba. Por meio de um trabalho integrado e multidisciplinar, contextualizando as informações e acompanhando as novidades do momento com agilidade e rigor.

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