Burnout de personagem: o cansaço de manter sua versão que deu certo

Há alguns dias, fui a um jantar que tinha como propósito a apresentação de um estudo conduzido por um importante instituto de pesquisa a pedido de um laboratório de humanidades. Uma pesquisa liderada por uma especialista da área, em parceria com uma grande plataforma de streaming, que ouviu adolescentes brasileiros de 13 a 17 anos para mapear suas pressões, angústias e comportamentos.
O levantamento revela um profundo desencontro geracional e uma crise de saúde mental entre esses jovens, que padecem com a falta de escuta dos adultos e procuram acolhimento no ambiente digital. Do total, 61% afirmam que a pressão por sucesso os deixa ansiosos, enquanto 58% já atravessaram crises de ansiedade ou pânico. E, em meio a tantas incertezas, essa geração tem encontrado dificuldade para sonhar.

Uma geração que perdeu o direito de inventar mundos

Sonhar. Foi essa palavra que ficou ecoando na minha cabeça. Como assim uma geração inteira está perdendo a capacidade de desejar muito algo na vida real? Logo eles? Se fossem os quarentões da minha turma, engolidos pelo desgaste do mundo corporativo, até seria compreensível. Mas jovens de 15 anos? Para onde foi o direito de inventar mundos antes mesmo de precisar encará-los?
Quando eu era adolescente, tinha certeza absoluta de que os integrantes daquela banda de sucesso mundial estavam olhando para mim naquele show lotado, repleto de fãs gritando. E ainda imaginava que participaria da turnê.
Fora os sonhos ilusórios, eu sonhava que poderia ser jornalista, advogada, ser tantas coisas. Sonhava a torto e a direito, mesmo sabendo que nem tudo seria fácil e que, talvez, algumas coisas não acontecessem de fato. Mas eu gostava de considerar as possibilidades.
E, no fim, eu fui mesmo muitas coisas. Atuei como advogada, empreendedora e executiva, tornei-me investidora, professora e escritora. Me reinventei algumas vezes na carreira e, em cada uma dessas reinvenções, aprendi um pouco mais sobre mim. Essas viradas foram tão marcantes que acabaram virando um livro, que lancei recentemente.

Entretempos: quando a carreira que deu certo já não basta

No meu livro recente, me debruço justamente sobre essa fase estranha em que sabemos que algo não nos serve mais, mas ainda não temos certeza do que está por vir.
A premissa fundante de um entretempo é que somos capazes de acessar nossos desejos, compreender a vida que queremos levar e ir experimentando até chegar perto dela. O entretempo é esse vácuo fértil no qual incubamos uma nova versão de nós mesmos a partir daquilo que estamos nos tornando.
É claro que não sou alienada: todo mundo tem boleto para pagar, a inflação está em alta, o poder de compra encolhe, e não dá para simplesmente pedir demissão, tirar um ano de autodescoberta e, pronto, chegar do outro lado. Nem todos podem ser a protagonista daquele clássico filme de autodescoberta em que a personagem se reinventa na Itália ou em Bali (se ainda não viu esse filme, veja, é uma delícia; eu bem que gostaria de fazer o mesmo).
O fato é que ninguém precisa de Bali. O que a reinvenção exige é anterior à mudança em si: é a capacidade de imaginarmos que a vida pode ser diferente. A possibilidade de virar a página e se reinventar é, antes de tudo, uma questão de saúde mental.

Burnout de personagem: o peso de sustentar um papel

No livro, chamo de burnout de personagem o cansaço de manter em cena uma versão de si que deu certo. A boa aluna. A executiva que resolve. O gestor que nunca demonstra dúvida.
Papéis reais de adultos performando em suas carreiras, porém inflados e editados para caber nesse palco da vida que criamos. Com o tempo, esse personagem começa a cobrar seu preço: some o sono, some a curiosidade, some o prazer nas coisas pequenas, some a presença junto de quem amamos. Por fora, a pessoa segue em cartaz, entregando e recebendo elogios. Por dentro, alguma coisa vai murchando.
Quem continua vivendo um personagem único que já não serve, sem conseguir se despir dessa ideia de si mesmo, ainda que exausto dela, passa a enxergar a vida com mais apatia e menos possibilidade. Como óculos em preto e branco. Fica o alerta necessário: quando o cinza deixa de ser fase e se torna o tom definitivo dos seus dias, procure ajuda profissional. Psicoterapia e psiquiatria salvam vidas, sem vergonha e sem demora.

Imaginar outros papéis devolve cor ao futuro

Já a possibilidade de imaginar outros papéis, outras formas de estar no mundo, outros jeitos de viver, nutre. Traz esperança. E o desejo, quando retorna, vira força para seguir, para testar, para experimentar as possibilidades. Sonhar devolve cor ao futuro. Tudo o que a humanidade construiu começou com alguém imaginando que o que existia poderia ser diferente. Com a nossa vida funciona igual.
Volto aos adolescentes do estudo, e a nós. Uma legião de paralisados pelas incertezas, anestesiados digitalmente e performando um papel social que talvez já não nos sirva. Poder imaginar novas versões de nós mesmos, sonhar e arriscar não é luxo e muito menos ingenuidade: é o melhor antídoto contra a apatia.
Sonhar. Essa palavra segue ecoando aqui e me faz lembrar de uma frase de um célebre poeta: “Sonhar é acordar-se para dentro”. E quando a gente desperta por dentro e se enche de vontade de viver, aí basta começar.
O caminho está debaixo do pé. Ele começa onde a gente está, com o que a gente tem, no tamanho que dá. Só quem anda sabe que é possível chegar. E só quem imagina onde quer chegar é que começa a andar.
O que você anda imaginando e qual o primeiro passo que quer dar?
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