O impacto da guerra com o Irã já não se limita às fronteiras do Oriente Médio nem à segurança dos países do Golfo. Ao longo dos últimos meses, os efeitos do confronto saíram dos campos de batalha e alcançaram os mercados de energia, o transporte marítimo e o setor de seguros, pressionando a inflação, as taxas de juros e o custo de vida em regiões distantes, como Europa, Ásia, América Latina e Austrália.
Os desdobramentos de setembro revelam um novo patamar de risco, pois duas das mais importantes rotas marítimas do planeta estão agora, ao mesmo tempo, expostas à influência do Irã e de seus aliados: o Estreito de Ormuz, no Golfo, e Bab el-Mandeb, na entrada sul do Mar Vermelho.
Enquanto o tráfego marítimo por Ormuz segue severamente interrompido pela guerra, os Houthis, apoiados por Teerã, conseguiram avançar de maneira significativa na costa oeste do Iêmen, alcançando áreas estratégicas e ilhas nas proximidades de Bab el-Mandeb.
A agência Reuters informou que esse avanço recente dos Houthis alterou o equilíbrio regional e concedeu ao Irã e a seus aliados maior capacidade de influenciar os fluxos globais de comércio e energia, em um momento em que o Estreito de Ormuz já sofre graves perturbações.
Uma artéria global
A relevância do Estreito de Ormuz ultrapassa em muito os países da região. Conforme a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA), no primeiro semestre de 2025 cerca de 20,9 milhões de barris por dia de petróleo e líquidos derivados transitaram pelo estreito. O volume equivale a aproximadamente um quinto do consumo mundial de petróleo e a mais de um quarto do comércio marítimo da commodity. Quase um quinto do comércio global de Gás Natural Liquefeito (GNL) também passou por ali.
A Reuters aponta que cerca de 125 navios cruzavam o estreito diariamente antes do início da guerra, em 28 de fevereiro de 2026.
O cenário, no entanto, mudou de forma drástica. Segundo dados de rastreamento de embarcações publicados pela Reuters em 14 de setembro, durante parte do fim de semana apenas quatro navios comerciais deixaram o Golfo via Ormuz, enquanto dez entraram. Esse nível está bem abaixo da média dos dez dias anteriores e criticamente distante do volume pré-guerra. Em 11 de setembro, a agência relatou que o tráfego caiu para somente sete navios em um único dia, contra uma média de 15 embarcações no decêndio anterior.
Esse declínio não representa apenas atrasos na entrega de petróleo. Quando uma rota marítima dessa magnitude se torna perigosa, os custos de frete, os prêmios de seguro e as despesas de financiamento disparam. As empresas de transporte hesitam em enviar suas frotas à região, o que força os navios a optar por rotas mais longas e dispendiosas.
Milhões de dólares para o trânsito de uma única carga
Paul Bradshaw, executivo da Companhia Nacional de Petróleo dos Emirados (ENOC), afirmou em declarações à Reuters em 9 de setembro que o custo de transporte de uma única carga de petróleo pelo Estreito de Ormuz aumentou exponencialmente desde o início da guerra. Ele explicou que os custos de seguro podem chegar a quase 6% do valor da carga, enquanto os prêmios de risco de guerra atingiram, em alguns casos, 10%, elevando o custo adicional total do trânsito de uma única remessa a um patamar entre 10 e 20 milhões de dólares.
Esses milhões não permanecem apenas nas contas das transportadoras. O custo é repassado gradualmente a refinarias, companhias aéreas, transporte rodoviário, indústria e agricultura, chegando por fim ao consumidor na forma de combustíveis e mercadorias mais caros. É exatamente isso que torna a crise relevante para um cidadão que vive em Madri, Paris, Milão, São Paulo ou Buenos Aires, mesmo estando a milhares de quilômetros do Golfo.
Um aumento no preço do diesel, por exemplo, eleva o custo do transporte de alimentos e mercadorias, enquanto a alta do combustível de aviação encarece as viagens e o frete aéreo. Além disso, o salto nos preços da energia reaviva as pressões inflacionárias que as economias ocidentais têm tentado conter ao longo dos últimos anos.
Ataque à rota de fuga de Ormuz
Por décadas, os países do Golfo investiram bilhões de dólares na construção de rotas alternativas para exportar petróleo sem passar pelo Estreito de Ormuz. Entre essas rotas destaca-se o oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita, que transporta petróleo dos campos orientais do Reino para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Esse sistema, porém, também sofreu um ataque direto. O oleoduto foi temporariamente fechado após um bombardeio de drones que, segundo a Reuters, partiram do Iraque, em um momento em que grupos armados apoiados pelo Irã estão ativos em território iraquiano.
O oleoduto não é uma instalação local secundária: ele pode transportar cerca de quatro milhões de barris de petróleo por dia para o Mar Vermelho e serve como uma das alternativas globais mais críticas em caso de interrupção em Ormuz. A Reuters observou em 13 de setembro que a interrupção contínua poderia privar os mercados de até 4% da oferta global de petróleo, ressaltando que os estoques disponíveis para exportação em Yanbu podem ser suficientes apenas para um período limitado caso o fechamento se prolongue.
Assim, o problema tornou-se ainda mais complexo: o corredor construído especificamente para escapar da ameaça de Ormuz foi ele próprio atacado.
A ameaça em Bab el-Mandeb
A situação se agrava quando se olha para o outro lado da Península Arábica. Bab el-Mandeb é a porta de entrada que liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico, por onde os navios viajam entre a Ásia e a Europa através do Canal de Suez. Segundo a EIA, os fluxos de petróleo por Bab el-Mandeb atingiram cerca de 8,1 milhões de barris por dia durante o segundo trimestre de 2026, ante 5,6 milhões de barris no primeiro trimestre, o que reflete o retorno da importância dessa rota no comércio internacional de energia.
A interrupção de Bab el-Mandeb não significa apenas a parada do petróleo. Navios que evitam o Mar Vermelho são frequentemente forçados a contornar o Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, adicionando milhares de quilômetros à viagem e aumentando o consumo de combustível, as taxas de afretamento e os prazos de entrega de mercadorias.
Dados anteriores da EIA mostraram que, durante períodos de turbulência no Mar Vermelho, os fluxos de petróleo contornando o Cabo da Boa Esperança saltaram de 5,9 milhões de barris por dia em 2023 para 8,7 milhões de barris por dia nos primeiros cinco meses de 2024. Isso significa que a ameaça em Bab el-Mandeb tem impacto direto na rota comercial que liga a Ásia à Europa.
Uma nova carta iraniana
A Reuters relata que o recente avanço Houthi na costa do Iêmen voltada para o Mar Vermelho deu ao Irã e aos seus aliados uma ferramenta estratégica adicional de pressão sobre o comércio global de energia.
Ainda mais crucial, a agência citou fontes iemenitas, iranianas e regionais afirmando que o apoio do Irã, incluindo armas e consultoria militar, desempenhou um papel significativo na recente ofensiva Houthi na costa oeste.
De acordo com uma investigação publicada pela Reuters em 10 de setembro, conselheiros da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã ajudaram a apoiar as operações. Fontes indicaram que Teerã viu a frente iemenita como um meio de exercer pressão adicional dentro de seu conflito mais amplo com os Estados Unidos. O Irã normalmente nega que dirija as operações Houthi diretamente.
Como resultado, a estratégia iraniana hoje parece muito mais ampla do que a mera defesa de seu território. O país possui capacidade direta de exercer pressão em Ormuz, ao mesmo tempo em que conta com grupos armados afiliados no Iraque. Na outra extremidade, os Houthis detêm um arsenal de mísseis e drones e estão posicionados estrategicamente em uma costa com domínio sobre Bab el-Mandeb.







