Às vezes, seguimos como se o horizonte se encerrasse na próxima atividade da agenda. O dia começa antes mesmo de sairmos da cama e, ao terminar, já mentalmente estamos no seguinte. Cumprimos horários, respondemos mensagens, traçamos planos, resolvemos pendências. Aos poucos, a obsessão por eficiência ocupa o espaço que seria da experiência.
A civilização nos orienta a produzir, competir, planejar e controlar. Nesse movimento, perdemos a proximidade com o silêncio, a contemplação e até com a fragilidade. Envelhecer, sofrer, fracassar ou simplesmente não saber passaram a ser vistos como desvios de uma existência que deveria operar sem falhas, como se fosse possível viver sem perdas, sem intervalos e sem enigmas.
Para a filósofa, psicóloga, psicanalista e poeta Viviane Mosé, essa lógica nos distancia daquilo que há de mais fundamental: a vida em si. Em sua trajetória, ela contesta a divisão entre razão e sensibilidade e sugere um pensamento que emerge do encontro entre corpo, afeto e consciência. No espetáculo “Um Sim à Vida”, que combina filosofia, poesia, teatro e dança, Viviane transporta essa reflexão para o palco e converte conceitos em vivência. Em vez de esclarecer o mundo, ela convida o público a ocupá-lo sob outra perspectiva.
Na conversa com a Vida Simples, a autora de 13 livros aborda sofrimento, educação, inteligência artificial, tecnologia, envelhecimento e arte. Ainda assim, atravessando todos esses assuntos, ela retorna à mesma percepção: pensar, por si só, não basta. É preciso sentir. Talvez seja ao reconhecer nossa finitude que encontremos uma maneira mais completa de aceitar e responder à vida.
A escola do futuro precisará formar pessoas capazes de pensar a partir de um corpo que sente, e não de uma razão separada dos afetos.
Você costuma dizer que a vida é muito maior do que a civilização. O que muda quando percebemos isso?
Existe algo chamado vida, e ela é muito maior do que a nossa civilização. Estamos envolvidos em trabalhar, consumir, pagar contas, construir uma família, encontrar um lugar no mundo. Tudo isso tem valor, mas acontece dentro de uma organização criada por nós. Enquanto discutimos nossos problemas, habitamos um planeta que gira em torno do Sol, em uma galáxia que é apenas uma entre bilhões. Quando percebemos essa dimensão, nos damos conta de que somos mínimos. Somos uma poeira dentro de outra poeira. Ao mesmo tempo, somos imensos porque conseguimos pensar, sentir e perceber o infinito. O ser humano vive nesse encontro entre o infinitamente pequeno e o infinitamente grande. Quando compreendemos isso, colocamos a civilização em perspectiva. E essa mudança de olhar faz muito bem ao nosso espaço psíquico e à nossa saúde mental.
Você afirma que aprendemos a conhecer, mas pouco a sentir. O que estamos desaprendendo?
Estamos entrando em uma época em que a inteligência artificial será capaz de realizar tarefas cognitivas cada vez mais sofisticadas. Isso significa que aquilo que permanecerá propriamente humano será nossa capacidade de sentir. Nosso pensamento nasce dos afetos. É isso que nos diferencia. Quanto mais a tecnologia avança, mais precisaremos desenvolver sensibilidade, experiência estética, arte e qualidade nas relações. Hoje nossa sensibilidade está embotada. A escola do futuro precisará formar pessoas capazes de pensar a partir de um corpo que sente, e não de uma razão separada dos afetos.
Por que a arte ocupa um lugar tão importante no seu trabalho?
Porque a arte desenvolve aquilo que chamo de pensamento-corpo. Durante muito tempo aprendemos que pensar significava afastar as emoções. Eu proponho exatamente o contrário: pensar sentindo e sentir pensando. Quando filosofia, teatro, poesia e dança ocupam o mesmo espaço, não estamos apenas transmitindo ideias. Estamos produzindo presença. Estamos desenvolvendo uma inteligência dos afetos. Talvez o maior problema da nossa civilização tenha sido construir um pensamento tão poderoso que foi capaz de produzir tecnologias extraordinárias, mas também destruir a natureza. Precisamos de um pensamento atravessado pela sensibilidade.
Como compreender o sofrimento sem transformá-lo em um erro da existência?
Todo sofrimento nasce de uma perda. Perdemos pessoas, relações, fases da vida. A infância termina, a juventude termina, os amores acabam. Sofrer faz parte da experiência humana. Mas existe uma dor ainda mais profunda: a humilhação. É quando alguém perde também a própria dignidade. Quando uma pessoa vive na rua, por exemplo, ela não sofre apenas pela falta de uma casa, mas pela experiência de não ter um lugar no mundo. O cuidado clínico se torna necessário quando o sofrimento impede a vida de acontecer. Nesse momento, é preciso cuidar da subjetividade. O ser humano não pode ser reduzido ao cérebro ou aos processos bioquímicos. Somos consciência, história, afeto.
Vivemos sob uma lógica de desempenho. Como resistir diante desse cenário?
Aprendemos na civilização os limites, o respeito e a convivência. No entanto, a civilização nos faz acreditar que não envelhecemos, que não perdemos, que precisamos vencer sempre. Mas viver também é perder. Quando aceitamos nossa fragilidade, desenvolvemos ética. Descobrimos que, mesmo sendo ricos, famosos ou poderosos, continuamos dependendo uns dos outros. Também passamos a compreender que a Terra não é apenas um recurso econômico. Ela é um organismo vivo do qual fazemos parte. Se não aprendermos isso, colocaremos em risco nossa própria permanência como espécie.
As telas nos afastam da experiência sensível?
Acho um erro demonizar a tecnologia. A tela aproxima pessoas, reduz deslocamentos, amplia possibilidades de trabalho e de encontro. O problema nunca foi a tecnologia. O problema é quando ela encontra pessoas que têm medo de sentir. e estou presente enquanto converso por uma tela, continuo vivendo uma experiência corporal. A vida continua acontecendo. A vida sempre transborda. Como fomos educados para controlar tudo, qualquer excesso passa a ser interpretado como problema. Quem aceita ser atravessado pela existência transforma a tecnologia em ferramenta, e não em obstáculo.
O que significa, afinal, dizer “sim à vida”?
Hoje já temos perguntas demais. A principal resposta é que a sensibilidade melhora a vida. Que viver pode ser profundamente prazeroso quando o corpo participa da experiência. Que a resposta está na convivência, nas trocas e nas coisas simples. Dizer “sim à vida” é dizer “sim” à própria história. Cada pessoa carrega uma trajetória única. Ela pode ter sido difícil, marcada por perdas ou sofrimento. Ainda assim, é essa história que nos constitui. Meu desejo é as pessoas afirmem a própria existência com mais alegria, mais intensidade e mais coragem.







