Visualize carregar uma mala imensa sem conseguir deixá-la de lado, nem que seja por um instante. Talvez não se trate apenas de uma, mas de várias. Essas malas ocupam espaço na cama, sentam-se à mesa e acompanham cada passo da rotina. O detalhe é que essas bagagens são invisíveis: elas simbolizam as histórias de vida, as cicatrizes do passado e as marcas da infância que cada indivíduo traz consigo para os relacionamentos. O foco não está apenas na existência dessa bagagem, mas na medida em que cada um reconhece o que carrega e assume a responsabilidade pelo próprio peso.
Contudo, para muitos homens, esse processo ainda enfrenta um obstáculo significativo. Dados divulgados em 2025 pelo Research Center da Conexa, o maior ecossistema digital de saúde física e mental da América Latina, indicam que apenas 29,6% dos atendimentos psicológicos foram realizados por homens, um número 58% inferior ao verificado entre as mulheres.
Além disso, os jovens na faixa etária de 21 a 30 anos representam a maior parte do público masculino. Após os 50 anos, essa presença diminui de forma notável, com apenas 22,2% dos atendimentos. A baixa demanda contrasta com dados que sinalizam a ansiedade como a quinta principal razão para que homens busquem atendimento médico emergencial.
“Os homens costumam chegar ao consultório quando o sofrimento atinge um nível crítico ou quando os relacionamentos enfrentam crises”, observa a psicóloga Cláudia Mello, tanto com base em pesquisas sobre saúde mental quanto em sua experiência profissional. Surge, então, a indagação: o que está por trás dessa resistência e como abordá-la?
Por que eles evitam a terapia
A especialista explica que muitos homens são orientados a enfrentar as dificuldades da vida sozinhos. “Eles valorizam o autocontrole e acreditam que pedir ajuda pode indicar fragilidade. No entanto, isso não significa que eles sofram menos”, ressalta.
A resistência à psicoterapia muitas vezes atua como um mecanismo de proteção — afinal, imagine a necessidade de confrontar sentimentos e vulnerabilidades que foram reprimidos durante toda a vida. Há ainda aqueles que associam a consulta a um psicólogo a um sentimento de fracasso pessoal, enquanto outros temem ser julgados, culpados ou expostos.
Por isso, a especialista sugere uma mudança de perspectiva para entender essa resistência. Em vez de questionar por que ele não deseja fazer terapia, pode ser mais produtivo buscar compreender o que essa defesa interna está tentando proteger. “Essa alteração de visão reduz a culpabilização e amplia a compreensão sobre o funcionamento do casal.”
A dinâmica construída pelo casal
Encarar as bagagens emocionais do parceiro pode se tornar um grande desafio. Feridas não resolvidas tendem a manifestar-se em forma de irritação, distanciamento, dificuldade de comunicação ou reações desproporcionais. Em alguns casos, ele pode repetir com os filhos padrões emocionais que assimilou ao longo da vida, muitas vezes sem perceber. Tudo isso impacta não apenas o relacionamento, mas também a rotina familiar.
Esse impacto se torna ainda mais evidente quando apenas um dos parceiros inicia ou já participa de um processo terapêutico. Quem vivencia essa experiência frequentemente desenvolve novas formas de se comunicar, expande a consciência sobre suas próprias emoções e aprimora as ferramentas de autoconhecimento. Contudo, se o outro continua agindo da mesma maneira, a sensação de caminhar sozinho pode surgir, explica a psicóloga.
Ainda assim, esse movimento individual também pode gerar transformações na relação. A boa nova é que, quando um dos integrantes da família se compromete com o autoconhecimento e aprende novas formas de comunicação, isso tende a provocar mudanças na dinâmica construída pelas ações de ambos.
Quando uma das partes passa a se expressar de forma mais clara, estabelece limites de maneira saudável ou reage diferentemente aos conflitos, a interação do casal também se transforma. Isso não implica que o parceiro mudará automaticamente, mas que os padrões entre eles tendem a se reorganizar, conforme afirma Cláudia.
Como conversar sobre isso?
O primeiro passo pode ser lembrar que não é viável forçar o outro a reconhecer a relevância da terapia ou a querer iniciar esse processo. Nesse contexto, pode ser mais útil voltar a atenção para si mesmo, cuidar de suas próprias emoções, fortalecer seus alicerces e perceber, com mais tranquilidade, como você se posiciona nessa relação.
Durante a conversa, Cláudia recomenda adotar uma postura não crítica, pois isso pode evocar uma reação defensiva. A ideia é optar por palavras que transmitam como você se sente em certos momentos: em vez de afirmar “você nunca me escuta” ou “você precisa fazer terapia”, por exemplo, considere dizer “sinto falta de me sentir ouvida” ou “percebo que estamos nos afastando ao evitarmos este assunto”.
Outro ponto relevante é compreender o que realmente impacta a relação e o que pertence ao processo individual do outro. Muitas vezes, observa-se o parceiro em sofrimento e surge o impulso de ajudá-lo a resolver a situação, mesmo quando isso não interfere diretamente na vida a dois. Esse é o caso de relações difíceis com familiares, por exemplo. Por mais doloroso que seja, cada um tem seu próprio tempo para processar sentimentos e decidir como lidar com eles.
No entanto, a situação se altera quando essa dor passa a sobrecarregar o relacionamento. Nessas circunstâncias, é fundamental deixar claro até onde você consegue ir, já que um vínculo saudável depende da responsabilidade emocional de ambos.
“É possível entender que a resistência esteja relacionada a medos, crenças e experiências anteriores, mas acolher não implica em concordar com tudo, nem em carregar sozinho o fardo de fazer a relação funcionar.”







