O infinito particular das coisas não ditas

“Não estamos apenas inseridos no universo; o universo também reside em nós.” O astrofísico Neil deGrasse Tyson recorre a essa frase para traduzir uma noção tão científica quanto poética: grande parte dos elementos que compõem o corpo e a mente humana — oxigênio, cálcio, ferro — foi forjada no núcleo de estrelas há bilhões de anos. Isso significa que não somos simples espectadores do cosmos. De certo modo, também somos feitos dele.

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Há algo de profundamente significativo nessa ideia. Afinal, a humanidade desenvolveu uma consciência e, com ela, a aptidão para admirar a imensidão do universo que nos originou, ao mesmo tempo em que criamos um universo próprio internamente. É como se cada indivíduo carregasse um mundo particular dentro de si, um infinito reservado, na expressão de Marisa Monte.

No entanto, nem sempre cultivamos esses espaços íntimos. De acordo com a psicóloga Adriana Santiago, especialista em saúde mental, o cérebro humano foi moldado para estabelecer vínculos com o outro, e dividir uma vivência pode ativar circuitos ligados à recompensa social. “Nós nos sentimos vistos, acolhidos e pertencentes”, afirma. E não há problema algum nisso. Afinal, o que é melhor do que colocar o papo em dia com os amigos?

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O problema aparece quando o compartilhamento deixa de ser um momento de encontro e se transforma em uma necessidade, um vício ou a única forma de validar que aquilo realmente aconteceu. É como se uma experiência só tivesse valor quando testemunhada, e o que sentimos por dentro precisasse ser legitimado pelo olhar alheio, explicou a psicóloga.

Guardar também é uma forma de elaborar

Ocultar uma ideia para si mesmo é fundamental para que ela amadureça por meio do diálogo interno. Quando expomos algo cedo demais, corremos o risco de permitir que opiniões, julgamentos e interpretações externas interfiram no que ainda está em processo de florescimento. Em vez de descobrir nosso próprio ponto de vista, passamos a aguardar que alguém nos diga o que pensar. “É como interromper um filme no meio para perguntar a todos qual deveria ser o desfecho”, compara a especialista.

Vale lembrar ainda que nem toda emoção precisa ser convertida imediatamente em palavras. O primeiro passo é sentir, observar e acolher. Depois, compreender o que aquele sentimento quer comunicar e decidir se vale a pena dividi-lo. “É como massa de pão: precisa de tempo para crescer antes de ir ao forno.”

Um espaço que pertence apenas a nós

Adriana ressalta que a maturidade emocional também passa pela percepção de que algumas das experiências mais belas da vida não exigem explicação para ninguém. Quando uma vivência deixa de ser performada para os outros, ela passa a existir de fato para nós mesmos.

Isso não precisa ser algo extraordinário. Pode ser caminhar e sentir uma gratidão imensa, ler algumas páginas de um livro que tocou em algum lugar da memória ou desenvolver um projeto cuja importância só você compreende. Manter algo no âmbito íntimo favorece o desenvolvimento da autonomia emocional e do autoconhecimento.

“Uma boa relação consigo mesmo depende da capacidade de estar na própria companhia sem precisar de plateia.”

Por isso, pare por alguns instantes e reflita sobre o quão especial é a beleza das coisas que permanecem intocadas, guardadas apenas no nosso universo interior. “Elas se tornam quase um segredo compartilhado entre quem somos e quem estamos nos tornando”, observa Adriana.

No entanto, aprender a preservar esse espaço nem sempre é tão simples quanto aparenta.

Antes de contar, faça uma pausa

Durante uma sessão de terapia, eu levei à minha psicóloga justamente essa dificuldade: ainda que parecesse uma tarefa fácil, eu não conseguia deixar de compartilhar tudo. Era o conhecido “oversharing”, termo em inglês usado para definir aqueles momentos em que revelamos algo pessoal sem pensar antes.

A orientação recebida foi imaginar uma pequena caixa dentro da mente e, sempre que surgisse o impulso de contar algo, eu deveria refletir: eu realmente quero dividir essa informação ou prefiro mantê-la apenas para mim? Se optasse por não compartilhar, bastaria visualizar a caixa se abrindo e aquela lembrança sendo colocada ali, intacta, preservada apenas na beleza da própria memória.

Aquela imagem ajudava a tornar a decisão mais concreta e também ressignificava o ato de guardar. Em vez de representar uma perda ou uma privação, o silêncio se convertia em zelo: a lembrança não era descartada, apenas mantida no espaço mais íntimo.

Adriana também recomenda fazer uma busca interna para entender esse critério. A pergunta não deve ser “o que pode ou não ser contado?”, mas “para que estou contando?”. É para criar vínculo, partilhar uma alegria ou pedir suporte? Ou seria para buscar validação?

O limite saudável reside justamente na liberdade de escolher nossas ações, enquanto a prisão nasce da necessidade de agir sem reflexão. Quando conseguimos contar algo sem obrigação e guardar sem culpa, certamente encontramos um bom equilíbrio, conclui a psicóloga.

“De qualquer forma, eu acho profundamente bonito saber que, mesmo quando compartilhamos muito de nós, sempre vai existir um universo inteiro que continua habitando silenciosamente dentro da gente.”

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Redação
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