Vício em apostas acende alerta de saúde pública

O vício em apostas já é tratado por especialistas, profissionais de saúde e autoridades públicas como uma questão de saúde pública no Brasil. Por trás das promessas enganosas de dinheiro rápido, dos anúncios estrelados por celebridades e da facilidade de acesso aos jogos, cresce um problema de grandes proporções. Os impactos afetam diretamente a saúde mental, a estabilidade financeira das famílias e a vida social dos apostadores.

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As consequências vão muito além do prejuízo financeiro. O cenário inclui a destruição de patrimônios, a ruptura de famílias, casos de violência doméstica, tentativas de suicídio e até a prática de crimes motivados pelo desespero de continuar apostando ou de pagar dívidas acumuladas.

A verdadeira dimensão do problema começou a ser revelada por dados divulgados pelo UOL. Aproximadamente 250 mil trabalhadores deixaram as bets, ou se autoexcluíram, afastando-se das plataformas de apostas devido a problemas de saúde mental ligados ao vício em jogos. Um levantamento da Secretaria de Prêmios e Apostas, do Ministério da Fazenda, mostra que os brasileiros realizaram mais de 603 mil pedidos de autobloqueio nas bets. Esse balanço corresponde às remoções voluntárias dos CPFs dos ambientes de apostas regulamentados desde dezembro do ano passado. Esses números evidenciam a gravidade do fenômeno e sua capacidade de impactar não apenas os indivíduos, mas toda a sociedade.

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Os dados confirmam o alerta feito há anos por especialistas em dependência: a compulsão por jogos não é uma simples falta de controle financeiro. Trata-se de um transtorno reconhecido pela medicina, capaz de alterar comportamentos, comprometer a tomada de decisões e gerar mecanismos cerebrais semelhantes aos observados em dependências químicas.

Quando o entretenimento se transforma em doença

O vício em apostas, conhecido clinicamente como transtorno do jogo, é classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e por manuais internacionais de psiquiatria como um transtorno comportamental que afeta diretamente os circuitos de recompensa do cérebro. O processo geralmente segue um caminho previsível.

O apostador ganha uma quantia inicial, experimenta uma forte sensação de satisfação e acredita que pode repetir o resultado. Quando as perdas começam, em vez de parar, ele aumenta os valores apostados na tentativa de recuperar o dinheiro perdido. Esse é o chamado “comportamento de perseguição da perda”, um dos principais sinais da dependência.

Com o tempo, o jogo deixa de ser um lazer e passa a ocupar um lugar central na vida da pessoa. As contas deixam de ser pagas, os compromissos profissionais são negligenciados e as relações familiares entram em colapso. O dinheiro que era destinado à alimentação, aluguel, educação dos filhos ou financiamento da casa própria passa a ser direcionado para novas apostas. A lógica é semelhante à de outros tipos de dependência: mesmo diante de consequências evidentes e devastadoras, o indivíduo perde a capacidade de interromper o comportamento sozinho.

Uma bomba dentro das famílias

Os efeitos do vício em apostas não ficam restritos a quem joga. Em milhares de lares brasileiros, a compulsão tem gerado uma sequência de consequências econômicas e sociais que especialistas já classificam como um problema coletivo.

Os relatos de famílias afetadas incluem a perda de veículos, a venda de imóveis, a utilização de limites bancários, a contratação de empréstimos sucessivos e o comprometimento de toda a renda familiar. Muitas vezes, os parentes só descobrem a situação quando as dívidas atingem níveis insustentáveis.

Especialistas também apontam uma correlação preocupante entre o endividamento extremo provocado pelo jogo e o aumento de conflitos domésticos, violência familiar e práticas ilícitas usadas para obter recursos financeiros. Em alguns casos, a busca desesperada por dinheiro leva ao uso indevido de recursos de terceiros, fraudes, apropriações indébitas e outros crimes que têm origem direta no ciclo de perdas e tentativas de recuperação.

O impacto na saúde mental e no mercado de trabalho

A reportagem do UOL, ao revelar que cerca de 250 mil pessoas precisaram se afastar das bets por problemas de saúde mental relacionados às apostas, trouxe à tona um aspecto frequentemente ignorado no debate público.

O vício não afeta apenas o bolso. Ele produz ansiedade, insônia, irritabilidade, depressão, crises de pânico e, em situações mais graves, pensamentos suicidas. À medida que as dívidas crescem e o controle sobre a própria vida diminui, muitos apostadores entram em um estado permanente de sofrimento emocional. O ambiente de trabalho também sente os efeitos: a queda de produtividade, o absenteísmo, as dificuldades de concentração e os afastamentos médicos tornaram-se realidade em empresas que convivem com trabalhadores afetados pela compulsão em jogos. O fenômeno gera custos econômicos relevantes para empregadores, para a Previdência Social e para o sistema público de saúde.

Governo Lula implementa medidas voltadas à proteção dos apostadores

Diante da rápida expansão das apostas online e do aumento dos relatos de dependência, cresce o entendimento de que o enfrentamento do problema não pode ficar restrito à responsabilidade individual dos usuários.

Nesse contexto, o governo do presidente Lula implementou mecanismos voltados à proteção dos apostadores. Entre eles está a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, uma ferramenta que permite ao cidadão solicitar voluntariamente o bloqueio de seu acesso aos sites de apostas regulamentados. A medida funciona como uma barreira de proteção para pessoas que reconhecem estar perdendo o controle e desejam interromper o ciclo compulsivo.

Outra medida adotada pelo governo federal foi impedir que beneficiários do Bolsa Família utilizem o cartão para jogar. Um levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que a transferência dos beneficiários para as bets chegou a R$ 3,7 bilhões em janeiro de 2025 – um montante que corresponde a 27% dos R$ 13,7 bilhões distribuídos pelo programa naquele mês.

Sociedade civil se mobiliza para divulgar a autoexclusão

Paralelamente às ações do governo federal, movimentos da sociedade civil vêm ampliando a conscientização sobre os riscos associados às apostas. Uma das iniciativas de maior repercussão é a campanha “Block no Tigrinho”, que utiliza a Plataforma Centralizada de Autoexclusão como instrumento de combate ao vício em jogos.

A campanha ganhou visibilidade nacional com a adesão de diversos artistas, influenciadores e personalidades públicas, que passaram a divulgar mensagens de alerta sobre os riscos da compulsão e a importância de buscar ajuda. O foco da iniciativa não está em um jogo específico, mas na conscientização sobre um fenômeno que afeta milhares de brasileiros e suas famílias. Ao estimular o uso da autoexclusão, a campanha contribui para tornar mais conhecida uma ferramenta que pode representar o primeiro passo para a recuperação de pessoas que já não conseguem interromper sozinhas o hábito de apostar.

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