A cultura popular, presente em filmes, canções e bordões, insiste em propagar a ideia de que o amor é suficiente para tudo. Bastaria sentir, entregar-se e acreditar que o restante se resolveria naturalmente. No entanto, a realidade prática das relações demonstra o oposto. Muitos relacionamentos chegam ao fim mesmo quando o amor ainda está presente, não por falta de sentimento, e sim porque, isoladamente, o amor é incapaz de manter uma união.
O psiquiatra Oswaldo Petermann Neto não usa rodeios: “O amor é fundamental, mas não é suficiente. Diversas relações se encerram mesmo existindo amor. Isso acontece porque uma relação saudável também exige respeito, comunicação, confiança, habilidade para lidar com conflitos, maturidade afetiva e alinhamento de valores. O amor aproxima, mas são as atitudes do dia a dia que sustentam o vínculo ao longo do tempo.”
O psicólogo Marcos Lacerda recorre a uma imagem que desafia o ideal romântico tradicional. Para ele, uma relação bem-sucedida precisa de, no mínimo, três pessoas. “Tem que haver um tripé. Pelo menos três pessoas são necessárias: eu, tu e nós. O ‘nós’ não pode anular nem o ‘eu’, nem o ‘tu’.”
Marcos explica que muitas pessoas caem na cilada da fusão.
“Quando as pessoas decidem viver uma relação, acreditam que se transformam em uma única massa, como uma bola de ferro soldada. Pensam que são um só. Não são, de fato. O ‘nós’ é uma terceira entidade, mas que não deve ocupar o espaço do ‘eu’ ou do ‘tu’.”
Preservar o eu para existir junto
Oswaldo destaca a importância de manter a própria individualidade dentro da relação. “Preservar o ‘eu’ significa conservar seus próprios valores, interesses, amizades e metas pessoais, mesmo estando em um relacionamento. Amar alguém não requer o abandono de quem somos. Ao contrário, relações saudáveis permitem que cada indivíduo continue seu desenvolvimento pessoal, sem renunciar à sua essência apenas para agradar o parceiro.”
Quando isso não ocorre, as consequências são severas. “Quando uma pessoa abre mão de seus desejos, opiniões e necessidades para manter o relacionamento, pode desenvolver baixa autoestima, sensação de vazio, ansiedade, ressentimento e até sintomas depressivos”, detalha o psiquiatra.
“Com o passar do tempo, a pessoa perde a conexão consigo mesma e percebe que está vivendo a vida que o outro espera, e não a que realmente deseja.”
Parceria ou dependência?
Uma das maiores confusões emocionais da contemporaneidade é diferenciar o amor saudável da dependência.
Oswaldo esclarece essa distinção: “Na parceria, duas pessoas escolhem estar juntas porque isso agrega felicidade e crescimento às suas vidas. Na dependência emocional, o indivíduo sente que não consegue ser feliz ou funcionar sem o outro. Enquanto a parceria se fundamenta na liberdade e na reciprocidade, a dependência geralmente é caracterizada pelo medo do abandono, necessidade constante de validação e dificuldade de tomar decisões de forma autônoma.”
Marcos ainda observa que a noção da “metade da laranja” é uma narrativa bonita, porém ilusória.
“Amar é suportar o desconforto que a diferença do outro provoca em mim. Hoje, as pessoas buscam parceiros que sejam seus espelhos. Não será assim. O outro é diferente de mim.”
O que sustenta, afinal?
Se o amor não é tudo, o que mais é necessário? Oswaldo lista os elementos: “Comunicação aberta, confiança, respeito mútuo, empatia, capacidade de resolver conflitos, inteligência emocional, alinhamento de valores e objetivos de vida.”
Ele acrescenta: “É essencial que ambos os parceiros tenham maturidade para lidar com as diferenças e entendam que uma relação saudável não elimina os problemas, mas fornece as ferramentas para enfrentá-los juntos.”
Marcos deixa uma mensagem final que pode servir como guia: “O que é amar? Amar é suportar o desconforto que a diferença do outro causa em mim. E a segunda questão é compreender que uma relação precisa de, pelo menos, três pessoas: eu, tu e nós. Reflita sobre isso.”
O amor não é uma barreira mágica contra os conflitos. É a força motriz. O que realmente sustenta são as escolhas diárias, os diálogos difíceis, o respeito pelas diferenças e a coragem de continuar sendo quem se é, mesmo após muito tempo juntos. Amar não significa se anular. É, como ensina Marcos, aprender a conviver com o eu, o você e o nós. E permitir que o nós cresça sem jamais apagar o eu ou o você.






