Permita-me fazer uma pergunta simples, daquelas que evitamos porque a resposta causa desconforto: quando foi a última vez que você se observou no espelho e pensou “que pessoa interessante”? Não “que abdômen”, não “precisava me exercitar mais”, não “essa iluminação é implacável” — mas apenas: que pessoa interessante.
Se você hesitou para responder, seja bem-vindo ao grupo. Somos muitos. E esse grupo conta com academia, regime alimentar, suplementos, intervenções estéticas, coach de emagrecimento e uma extensa fila para a aplicação de botox.
O mercado que criou um problema (e a solução)
Existe uma engenharia precisa no núcleo da indústria da beleza: primeiro, ela te persuade de que você possui uma imperfeição. Depois, ela comercializa a cura. É o capitalismo em sua apresentação mais refinada — ele gera a lesão e surge com o tratamento antes mesmo de você sentir dor.
US$ 532 bilhões — este é o montante estimado da indústria global de beleza e cuidados pessoais em 2023. Um valor que se expande enquanto a autoestima mundial… nem tanto (Statista, 2024).
Naomi Wolf, lá em 1990, em sua obra perturbadora O Mito da Beleza, já denunciava isso com uma nitidez que hoje soa como uma profecia: a beleza não é um padrão natural, mas uma instituição política. “A beleza é um sistema monetário semelhante ao padrão-ouro”, escreveu ela, “como qualquer economia, é determinada pela política e, na era moderna do mundo ocidental, é a última e melhor crença capaz de manter intacta a dominação masculina.”
Três décadas depois, Wolf está correta — mas a dominação se refinou. Hoje, ela não é apenas masculina. Ela é algorítmica. O feed do Instagram não precisa de um chefe machista para te informar que você está fora do padrão. Ele simplesmente te mostra, de forma compulsiva, aquilo que você “poderia ser”.
“O que o espelho não te revela é que o problema nunca foi o seu corpo. O problema é o sistema que precisa que você odeie o seu corpo para continuar lucrando.” — Jean Baudrillard, A Sociedade de Consumo
— Mas espere… isso não se aplica a mim. Eu faço regime por saúde, não por vaidade.
Claro. E eu utilizo redes sociais apenas para me informar. Olhe, não se trata de julgamento — é uma arqueologia. Precisamos escavar um pouco a motivação antes de aceitar a embalagem.
O corpo como projeto (ou: você se transformou em sua própria startup)
Byung-Chul Han, o filósofo coreano-alemão que aparenta ter uma ira sagrada contra o século XXI, diagnosticou algo que incomoda pela precisão: vivemos na sociedade do desempenho. Não somos mais oprimidos externamente — somos nossos próprios algozes. “O sujeito do desempenho”, escreve Han em A Sociedade do Cansaço, “acredita ser livre, mas na verdade é um escravo. É um escravo absoluto, na medida em que, sem um senhor, explora a si mesmo voluntariamente.”
Você já notou que as pessoas hoje falam do próprio corpo como se fosse um projeto de gestão? “Estou otimizando meu metabolismo.” “Preciso escalar meus resultados na academia.” “Meu percentual de gordura não está performando adequadamente.” Falta apenas o pitch deck para os investidores.
O corpo se tornou uma empresa. E como toda empresa, ele precisa apresentar resultados. A cada trimestre, de preferência. Na praia, na festa, no Instagram — resultados visíveis, mensuráveis, fotografáveis.
“Nunca na história da humanidade as pessoas sofreram tanto por não terem o corpo que a televisão ainda não existia para mostrar.”
O paradoxo é irresistível: em uma época em que nunca tivemos tantos recursos para cuidar da saúde, também nunca tivemos tantos distúrbios alimentares, dismorfias corporais, ansiedade relacionada à aparência. A American Psychological Association registrou que os transtornos alimentares possuem a maior taxa de mortalidade entre todos os transtornos mentais. E a indústria que alimenta isso — com perdão pelo trocadilho — continua crescendo. +70% de aumento nos casos de distúrbios alimentares entre jovens após o crescimento do uso de redes sociais com filtros de imagem (The Lancet, 2022).
A felicidade que vem depois (e nunca chega)
Existe uma promessa implícita no cerne de toda dieta, de toda cirurgia, de todo treino obsessivo: depois que eu alcançar aquele objetivo, vou ser feliz. Depois que eu eliminar os dez quilos. Depois que o abdômen definido aparecer. Depois que o nariz ficar como eu desejo.
É uma das mentiras mais bem-articuladas da modernidade. Porque “depois” nunca chega. Quando os dez quilos desaparecem, surgem mais cinco para perder. Quando o nariz muda, a bochecha passa a incomodar. O horizonte recua na mesma velocidade em que você avança. É a corrida de Aquiles e a tartaruga — só que a tartaruga é a sua autoestima, e ela está mancando.
“Felicidade não é uma estação de chegada. É uma forma de viajar.” — Margaret Lee Runbeck — e não, ela não disse isso na academia
O psicólogo Martin Seligman demonstrou que mudanças circunstanciais — incluindo as estéticas — têm um impacto surpreendentemente pequeno e breve sobre o bem-estar. Possuímos um “ponto de ajuste hedônico”: como um termostato emocional, retornamos ao mesmo nível de felicidade independentemente das conquistas externas. Mas ninguém coloca isso no rótulo do suplemento proteico.
— Mas espere… então devo abandonar os cuidados com o corpo? Virar uma república independente da higiene?
Que pergunta dramática. Claro que não. Existe uma diferença abissal entre cuidar do corpo por amor a ele e torturá-lo por ódio ao que ele é. A primeira nasce da abundância; a segunda, da escassez. Uma faz bem; a outra, mesmo quando “dá resultado”, deixa uma conta emocional enorme para pagar.
O que o espelho não revela
Foucault nos ensinou que o poder não funciona apenas pela repressão — ele funciona pela produção de desejos, pela criação de subjetividades. O “corpo perfeito” não é um ideal que existe fora da história: ele é fabricado, datado, localizado. Na Renascença, Rubens pintava mulheres que hoje seriam instruídas a procurar um endocrinologista. No século XIX, a cintura de 45 centímetros do espartilho matava mulheres — literalmente. Na virada do século XX, ser “pálido e magro” era sinal de tuberculose, não de beleza.
O padrão se altera. Mas a angústia de não alcançá-lo… essa permanece notavelmente estável.
Zygmunt Bauman chamaria isso de sintoma da modernidade líquida: num mundo em que as identidades são fluidas e instáveis, o corpo se torna o último território onde tentamos exercer controle. Se o emprego pode desaparecer, se o amor pode acabar, se o mundo muda antes do café da manhã — ao menos o meu corpo eu controlo. Ou assim acreditamos.
E aqui está a crueldade sutil do sistema: ele nos oferece um bode expiatório conveniente. Você está infeliz? Não é o trabalho precarizado, não é o isolamento estrutural, não é o vazio de sentido — é sua barriga. Resolva a barriga, resolverá a vida. É uma mentira amável que serve a muitos interesses — menos ao seu.
E agora, José? (e Joana, e todos nós)
Não vou encerrar este texto com uma lista de “cinco passos para amar seu corpo” — isso seria transformar numa dieta o que é, na verdade, uma questão filosófica e política. Mas posso deixar algumas perguntas que valem mais do que respostas prontas.
Por que você deseja mudar o que deseja mudar? Não a resposta automática — a resposta real, aquela que habita um andar abaixo da primeira. O desejo nasce de dentro ou foi instalado de fora? Você está cuidando de si ou punindo a si mesmo por não ser o que alguém decidiu que você deveria ser?
Neil Postman alertou para como as culturas criam narrativas que organizam o que sentimos sobre nós mesmos. A narrativa do “corpo perfeito” é uma delas — e como toda narrativa, ela pode ser questionada, reescrita, recusada. Recusar não significa descuido. Significa discernimento. Significa perguntar: isso me faz viver melhor, ou me faz apenas parecer melhor para quem me faz sentir pior?
“O cuidado de si não é o narcisismo do espelho. É a prática da liberdade.” — Michel Foucault, A Hermenêutica do Sujeito
No fim, a ditadura da beleza só sobrevive porque aceitamos pagar o imposto da insatisfação. Cada produto comprado por insegurança, cada procedimento movido por vergonha, cada dieta iniciada com ódio é uma contribuição voluntária para um sistema que precisa da sua infelicidade para funcionar.
A subversão mais radical, portanto, não está no corpo que você possui, está na paz que você decide, contra tudo e todos, habitar.
Isso, convenhamos, é muito mais difícil do que trinta dias de abdômen.







