As emoções precisam fluir

Somos, antes de tudo, seres relacionais, mamíferos de sangue quente que só se reconhecem na presença do outro. Em um período de 24 horas, diversas emoções podem dominar o nosso corpo. É possível que ele trema de raiva e indignação por um instante ou que as pernas bambeiem após um elogio ou um toque sutil. Assim como as curvas de um rio que deságua na imensidão do mar, nossas emoções também seguem seu curso livre, imprevisível e, por vezes, ficam à deriva. Podemos até tentar prever, mas não sabemos o que nos aguarda no momento seguinte.

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No entanto, algumas palavras ganham popularidade e, muitas vezes, tornam-se banais e perdem a profundidade. Um exemplo é “equilíbrio emocional”. Como malabaristas, seguimos uma cartilha: tentamos sustentar nossas emoções diante dos desafios e das belezas da vida, como se nada pudesse cair. Mas, e se cair? Qual é, afinal, o problema da queda? Idealiza-se uma existência sem oscilações, como se fosse possível sintonizar perfeitamente uma rádio interna, sem ruídos ou desvios. Mas são justamente as nuances que tornam a vida menos tediosa – e muito mais humana.

Em vez de tanto equilíbrio, que tal sermos um pouco mais coerentes com nossos sentimentos e relações, sem uma camada de moralismo? Na vida adulta, a travessia emocional é complexa. Nos trilhos da existência, existem entraves nos relacionamentos, felicidades nos encontros e mágoas nas despedidas. Às vezes, tudo em apenas um dia. O tal equilíbrio retoma o controle, mas, em questão de segundos, um passo sai da linha reta. A reação é natural: voltamos ao eixo com o olhar focado no horizonte.

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Porém, negar esse desequilíbrio natural é evitar o que a alma clama e que o cérebro precisa elaborar, mesmo que doa. Enfrentar os tropeços, chorar e, adiante, se levantar pode ser mais saudável do que chegar em casa, enxugar as lágrimas às pressas e vestir, no dia seguinte, a máscara de um equilíbrio forçado. Nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Há tristezas legítimas às quais temos direito, com suas lágrimas que correm devagar e trazem o gosto da dor profunda.

As emoções são como um rio: precisam fluir. Quando as reprimimos, elas se transformam em sintomas. Quando podemos falar, reconhecer e assumi-las, abrimos espaço para a experiência real. A ideia de um equilíbrio emocional rígido pode ser vista como uma tentativa de desumanizar o ser humano, funcionando como um estado físico de repouso, o que seria o oposto de viver. Em vez de uma busca idealizada por uma estabilidade estática, propõe-se o “autossuporte”, que é se apossar dos próprios recursos, dificuldades e incapacidades para administrar qualquer situação de forma realista. Sofrimentos não são para serem ultrapassados, são para serem atravessados, pois ensinam quando damos conta deles.

A saúde pode ser entendida não apenas como ausência de doença, mas como a expressão de um processo interior de desenvolvimento. Enquanto o pensar busca analisar dados e objetividade, o sentir é o que confere valor e sentido à vida. Sem esse sentir, o ser humano torna-se quase automático. A coerência emocional ocorre quando a individualidade cognitiva assume e se relaciona de forma viva com as próprias emoções. Tentar reprimir sentimentos em nome de um suposto equilíbrio é prejudicial; a alma reprimida, quando não encontra espaço para se expressar no encontro com o outro, acaba se manifestando no corpo por meio de sintomas psicossomáticos. A repressão emocional é, muitas vezes, uma tentativa da mente de dominar o coração, que, por sua natureza, precisa pulsar e circular.

Uma resposta emocional coerente é aquela compatível com a intensidade da experiência vivida. Diante de uma perda, a tristeza é coerência. Diante de uma injustiça, a indignação pode ser coerência. No entanto, ser coerente não significa reagir sem limites, mas reconhecer que existe uma lógica interna entre o que acontece fora e o que acontece dentro. Quando a emoção é compreendida como parte natural da vivência, ela deixa de ser tratada como um erro.

Existe também um componente social relevante: a forma como sistemas econômicos e culturais transformam o sofrimento em um problema individual, ignorando pressões estruturais e tratando o bem-estar como um produto. A autenticidade, baseada na abertura coerente dos sentimentos, é o que constrói vínculos e intimidade, ao contrário da performance de estar sempre bem. A racionalização excessiva pode atuar como uma defesa para não sentir, mas o ideal é que o pensamento seja um aliado da emoção, e não um bloqueio.

Atualmente, a máscara social de um equilíbrio forçado parece estar se tornando permanente devido à pressão por desempenho constante. O que regenera o corpo e a alma é a possibilidade de viver sem metas, sem métricas e sem a necessidade de exibir resultados. É o convite para sair do “universo do parecer” e permitir-se ser. Afinal, poder ficar em silêncio com alguém é poder existir sem ter que fazer nada.

Para integrar mente e emoção, a expressão artística – seja na pintura, na escrita ou na dança – revela-se uma ferramenta fundamental. A arte permite reconhecer sentimentos de forma autêntica e equilibrar a lógica. Ela é um alimento para o sentir e para o encontro humano, ajudando a despertar a sensibilidade necessária para que o coração flua. A arte e a troca humana são tão necessárias quanto a ciência para nos tornar coerentes e libertar o que pede vazão.

Como você interpreta a distinção entre “equilíbrio” e “autossuporte” na sua própria rotina?

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