Uma partida de futebol não se resume ao tempo em que a bola está em jogo. Cada atleta dedicou anos de treinamento para aquele instante, acorda e adormece com esse objetivo. Ao pisar no campo, carregam consigo todo o histórico construído, mas nenhum deles tem certeza de como os próximos noventa minutos vão se desenrolar.
O futebol também é conhecido por ser um esporte onde nem sempre a melhor equipe vence. A imprevisibilidade e o dinamismo podem alterar tudo em questão de minutos. Às vezes, tudo indica que a derrota é certa e, no fim, por algo que parece um milagre, a vitória acontece. Mas a verdade é que o oposto também ocorre com frequência, e é preciso estar preparado. Afinal, sempre haverá um próximo jogo, um próximo campeonato e até um próximo “eu” que estará mais preparado.
Essa é uma das grandes semelhanças entre o futebol e a vida. Passamos muito tempo nos preparando para momentos que realmente importam. Estudamos, trabalhamos, traçamos planos e investimos energia em projetos que carregam significado para nós. Mesmo assim, após todo o esforço, o resultado nunca depende exclusivamente da nossa vontade.
O jogo envolve outras variáveis em campo. Existem circunstâncias inesperadas, decisões de terceiros, mudanças de cenário e acontecimentos que não estavam nos planos.
Para além do resultado
A dificuldade está em aceitar essa característica da existência em uma época que costuma transformar desempenho em medida de valor. Vivemos cercados por metas, indicadores e comparações. Há uma expectativa constante de que todo investimento de tempo e energia deveria gerar uma recompensa proporcional, como se a vida fosse uma equação onde esforço sempre resulta em vitória.
Quando essa conta não fecha, a frustração vai além do acontecimento em si. Um projeto que não deu certo ou uma relação que termina podem ser interpretados como uma prova de que algo em nós falhou.
A psicóloga Lívia Barreto, mestre em psicologia social e do desenvolvimento, explica que essa associação entre resultado e identidade começa bem antes da vida adulta. Aprendemos a receber avaliações baseadas em resultados e, com o tempo, essa lógica pode ocupar um espaço maior do que deveria.
“Essa associação entre valor pessoal e resultado é muito comum porque, desde a infância, aprendemos a sermos avaliados por desempenho. Notas, produtividade, reconhecimento externo acabam virando uma régua para medir quem somos. Na terapia cognitivo-comportamental, entendemos que isso está ligado a crenças centrais, como ‘eu só sou bom o suficiente quando tenho sucesso’. O problema é que isso cria uma identidade frágil, que oscila conforme os resultados. Construir uma identidade mais saudável passa por diferenciar quem você é do que você faz. Isso envolve reconhecer qualidades estáveis, como esforço, valores, formas de se relacionar, e não apenas conquistas.”
No futebol, não se deve avaliar um jogador apenas pelo resultado de uma única partida. Uma equipe pode perder mesmo tendo jogado bem. Pode vencer sem apresentar seu melhor desempenho. Pode passar por uma sequência difícil e, ainda assim, estar construindo uma evolução que só poderá ser percebida mais adiante.
Com a própria trajetória acontece algo parecido. O resultado é uma parte importante da experiência, mas ele não revela sozinho tudo que aconteceu até chegar ali. Existe uma diferença entre aceitar uma derrota para reconhecer erros e evoluir, e acreditar que essa derrota te define.
Essa distinção é importante porque muitas pessoas vivem como se cada tentativa fosse uma final. Cada escolha parece carregar a necessidade de provar alguma coisa. Cada obstáculo ganha o peso de uma sentença. O espaço para aprender com o percurso diminui quando tudo precisa ser interpretado como vitória ou fracasso.
Preparação e dedicação aumentam as chances, mas não eliminam a incerteza.
“Desenvolver uma relação mais saudável com a incerteza não significa gostar dela, mas aprender a tolerá-la. Muitas pessoas tentam controlar tudo como forma de reduzir ansiedade, mas isso é uma ilusão que gera mais tensão. Um caminho mais funcional é separar o que está sob seu controle do que não está. Você pode agir sobre suas escolhas, preparo, comportamento. Já o resultado final envolve variáveis externas. Aceitar isso não é passividade, é direcionar energia de forma mais inteligente”, afirma Lívia.
Essa separação entre o que depende de nós e o que foge das nossas mãos muda a forma como avaliamos nosso potencial. Podemos nos responsabilizar pelas escolhas feitas, pelo empenho colocado, pela maneira como atravessamos as dificuldades, sem transformar todo desfecho inesperado em uma acusação contra nós mesmos.
Em vez de enxergar apenas o placar, é preciso observar o que foi desenvolvido durante o jogo.
“Valorizar o processo é um treino cognitivo. Quando focamos só no resultado final, ignoramos tudo que foi desenvolvido ao longo do caminho. Uma forma prática de mudar isso é fazer revisões intencionais do processo. Perguntar o que você aprendeu, quais habilidades desenvolveu, como lidou com desafios, o que faria diferente. Isso ajuda o cérebro a registrar progresso mesmo sem o resultado esperado”, explica a psicóloga.
Essa perspectiva não significa diminuir a importância das conquistas. Um gol continua sendo um gol. Uma vitória continua trazendo alegria. Realizações têm valor e fazem parte da construção de uma vida significativa.
Para Lívia, esse processo envolve permitir que a emoção exista antes de buscar uma explicação imediata ou uma solução rápida.
“A frustração após um fracasso ou perda precisa ser validada antes de ser resolvida. Muitas vezes a pessoa tenta ‘pensar positivo’ rápido demais e acaba ignorando o impacto emocional. Estratégias eficazes incluem nomear o que está sentindo, entender quais pensamentos surgem automaticamente e questioná-los. É importante viver o ‘luto’ também. Também é importante revisar o evento de forma mais analítica, identificando o que estava sob seu controle e o que não estava. Isso reduz a autocrítica excessiva e aumenta a capacidade de aprendizado.”
A próxima partida começa quando essa acaba
Quando se perde uma partida ou algo dá errado, o pensamento deve ser nos próximos passos. É importante entender o que aconteceu, mas com o olhar para o que não pode se repetir, e assim aos poucos se recuperar mais forte do que era antes.
“Recuperar a confiança depois de uma decepção não acontece de uma vez, acontece em pequenas experiências corretivas. Esperar ‘voltar a confiar’ para agir costuma travar a pessoa. O movimento mais eficaz é o contrário, agir em pequena escala mesmo com insegurança. Estabelecer metas menores, mais viáveis, ajuda a reconstruir a percepção de competência”, completa Lívia.







