O perfume de canela se espalhava por toda a casa, e eu já reconhecia: era o bolo de maçã com especiarias assando no forno. A canja de galinha borbulhava na panela e o milho cozido pedia uma generosa camada de manteiga. Lá fora, enquanto brincava no jardim, eu escutava o chamado da minha mãe, com a noite descendo sobre os telhados da vizinhança. Era hora de jantar. Em minha casa, o horário das refeições era sagrado. Mesa arrumada, comida servida, meu pai voltando do trabalho, e todos nos sentávamos juntos. Aquele era o nosso momento em família.
Se você também vivenciou o ritual de sentar-se à mesa com a família, certamente se recorda dos pratos que marcaram sua infância. No meu caso, o bolo, a canja, o milho, entre tantas outras receitas. Para você, pode ser o feijão, o ensopado, a macarronada, ou até mesmo o simples pão na chapa. No entanto, mais do que a comida, talvez o que tenha ficado mais forte na memória seja algo de outra natureza. As conversas, as risadas, as histórias contadas olho no olho. Acolhimento. Afeto.
Guardo tudo isso envolto no papel mais bonito das minhas lembranças, mas confesso: aqui em casa, nem sempre conseguimos repetir a mesma cena. Porém, nas refeições em que estamos todos juntos, eu já sei que virão as conversas mais inusitadas dos meus filhos adolescentes. “O que você prefere: dinheiro infinito que só pode ser gasto em tomates, sem poder revendê-los, ou uma coleção de patins que também não pode ser vendida?” Perguntas desse tipo, além do bate-papo cotidiano da semana, sempre rendem boas histórias e muitas gargalhadas, o que nos relaxa e nos une.
Na casa de Fernanda Shimada, mãe de uma menina de 11 anos e de gêmeos de oito, os momentos ao redor da mesa também são o cenário para as conversas diárias. “No almoço, sempre pergunto sobre a escola. Quando faço as perguntas certas, eles contam o que está acontecendo. No jantar, as conversas são mais soltas, falamos sobre tudo.” O almoço e o jantar são as refeições que Fernanda sempre faz com os filhos, mesmo que o marido nem sempre consiga por causa do trabalho. O café da manhã durante a semana, antes da escola, é o período mais agitado. “É um tal de ovo mexido para um, sem mexer para o outro.” Enquanto eles comem, ela prepara as lancheiras e o marido sai para o trabalho. “Aos finais de semana, sim, todos juntos. Asso um pão de queijo, corto frutas, adoro montar uma mesa bonita, e faço questão de que a gente se reúna para comer”, conta.
Trocas sinceras ao redor da mesa
Um gesto tão simples como esse pode parecer não fazer grande diferença, mas a realidade é que faz. Pesquisas recentes, como o Family Dinner Project, da Universidade de Harvard, e um estudo da Universidade de Helsinque, na Finlândia, apontam inúmeros benefícios quando se trata de refeições em família. As vantagens vão desde hábitos alimentares mais saudáveis e menores taxas de obesidade até a redução de riscos de problemas de saúde mental, além de um maior desenvolvimento social e comportamental.
O médico pediatra Daniel Becker explica que esses ganhos são gerados por todos os elementos que acompanham o convívio: o ritual, o espaço aberto para o diálogo, as histórias e as trocas sinceras, onde os pais conhecem melhor seus filhos e vice-versa. “Melhora até o desempenho escolar. Essa interação estimula o desenvolvimento da comunicação e a capacidade de resolver problemas. Crianças que crescem compartilhando refeições em família tendem a apresentar comportamentos pró-sociais na vida adulta, como generosidade, senso de justiça e respeito”.
Fernanda, que é analista comportamental e trabalha diretamente com famílias, confirma que as refeições são um momento excelente para educar. “Em famílias maiores, como a minha, é comum os irmãos se interromperem durante as conversas. Podemos ir orientando: ‘espere ele terminar de falar’, ‘agora deixe seu irmão contar a versão dele’. É assim que eles treinam a escuta e a paciência. E aprendem que podemos ter visões diferentes sobre uma mesma história”, tudo isso em um ambiente de afeto genuíno.
Ela também percebe que comer em família permite observar atentamente as particularidades de cada filho, começando pelas comidas preferidas, o que agrada a um e o que o outro não gosta. Dessa forma, é possível agradar um dos filhos em um dia, mas não a todos, e tudo bem. “Preparar a comida favorita de alguém é uma forma de fazê-lo se sentir especial. Também ensina que hoje é a vez de um, amanhã será a do outro de comer seu prato preferido. A vida é assim, em todos os aspectos”, reflete.
Comer alimentos que não são os favoritos é um exercício de perseverança, na visão de Fernanda, que incentiva todos a provarem um pouco de tudo que é servido à mesa, mesmo sem apreciar um sabor específico. “Na minha opinião, isso vai muito além dos benefícios nutricionais; faz com que eles desenvolvam o hábito de fazer aquilo que não é tão prazeroso.” Em um mundo com tantos apelos digitais e cheio de prazeres e recompensas sem esforço, essa parece ser uma lição indispensável.
A interação entre a família ajuda as crianças a aprimorarem sua comunicação
Aprendizado alimentar na prática
A nutricionista Clara Evangelista afirma que a refeição em família é uma das ferramentas mais importantes para estabelecer uma relação saudável da criança com a comida e para a formação do paladar. Segundo ela, esse contexto cria um ambiente emocional que influencia a aceitação dos alimentos. “Se a criança sente tranquilidade à mesa, sem pressão ou chantagem, ela associa o alimento à segurança. E o sistema nervoso infantil precisa estar em um estado seguro para experimentar novos alimentos.”
Comer sozinho ou em frente a telas, por outro lado, contribui para a desorganização alimentar, levando a uma alimentação distraída e impulsiva. “Comer rápido ou sob estresse está diretamente ligado a má digestão e inchaço, devido à ativação do sistema simpático, que aumenta o estado de alerta do corpo. Comer com calma favorece a leptina, hormônio relacionado à saciedade, além de outros hormônios de controle do apetite, que o corpo produz naturalmente quando a refeição é feita com calma e é nutricionalmente equilibrada”, esclarece Clara.
Hoje, esse costume tradicional e comunitário parece estar diminuindo. Para Daniel Becker, isso é um reflexo dos tempos atuais, que começou com a entrada da mulher no mercado de trabalho e se intensificou com o acesso às telas digitais. “Os pais chegam tarde em casa, não há tempo para cozinhar, e acabam recorrendo a alimentos processados. Tudo começa nas relações de trabalho, nas vidas estressantes das grandes cidades. A escala 6 por 1 impede as refeições em família porque essas mães e pais chegam tarde em casa, exaustos, seis dias por semana. E com o vício do celular, a convivência se perde completamente na maioria das famílias”, relata.
Clara ressalta que a alimentação vai muito além do aspecto nutricional: ela possui uma função social que envolve muitas dimensões da nossa vida. “No dia a dia, é comum vermos as pessoas reduzindo os alimentos a nutrientes e calorias. Um bife vira ‘proteína’, aquele bolo com cheiro de casa de avó vira ‘muito carboidrato’, as nozes viram ‘muita gordura, são calóricas e engordam’. Mas, para além do nutricionismo, a alimentação tem um papel agregador e um impacto social maior do que podemos imaginar.”
É nessa relação que se constrói em torno do alimento ou da simples presença, na troca de olhares, palavras e gestos, que a memória mais afetiva se consolida
O rito do dia a dia
Uma das funções básicas da alimentação é a organização e o gerenciamento do tempo e da vida. É a sequência das refeições que ajuda a estruturar o dia, com os horários do café da manhã, almoço e jantar. De acordo com a nutricionista, não é apenas a qualidade dos alimentos que importa, mas também o horário da ingestão. “O alinhamento das refeições com a luz natural do dia influencia o ritmo dos hormônios, e a verdade é que o corpo humano ama rotina, especialmente quando está alinhada com o ritmo da natureza.”
Se você ainda não consegue colocar essa rotina em prática com a família, o pediatra Daniel Becker traz um alento: “A partir de três refeições coletivas por semana, já se observam sinais de benefício”. Se não é possível almoçar, tente marcar alguns jantares semanais. E se nem isso está sendo viável, que tal encontrar outro momento do dia para conversas com presença? “A transmissão de valores exige tempo juntos, conversas agradáveis e difíceis. Quando não estamos à frente desse trabalho, alguém está. Hoje, talvez seja um youtuber com valores muito distantes dos nossos”, pondera Fernanda Shimada.
É nessa relação que se forma ao redor do alimento ou da simples presença, na troca de olhares, palavras e gestos, que a memória mais afetiva se consolida. Nas pausas onde o silêncio cúmplice também é convidado a sentar-se, enquanto os temperos nos amolecem por dentro. Clara Evangelista confirma: “Existem cheiros e sabores que ativam o sistema límbico, a parte do cérebro envolvida com emoções e memórias. Aquela comida da infância e aquele cheiro de receita de avó manifestam cuidado e amor”. Como o aroma do bolo de maçã com canela, que preenchia toda a casa.







