Como a fé pode se integrar ao tratamento da saúde mental é o tema central de debates em Harvard. Por muito tempo, a religião e a saúde mental foram encaradas como campos opostos. No entanto, o que acontece quando estudiosos de Harvard e representantes das maiores associações mundiais de psiquiatria e psicologia passam a defender o oposto dessa visão?
Essa indagação me acompanhou durante o 6º Fórum Global sobre Espiritualidade, Religião e Saúde Mental, promovido nos dias 14 e 15 de maio na Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard. O evento, organizado pela Associação Mundial de Psiquiatria e pela Associação Americana de Psicologia, teve como foco discutir de que modo as crenças, a procura por significado e as vivências espirituais atravessam o sofrimento humano e a prática clínica.
Uma declaração feita no painel de abertura resumiu o propósito do encontro: se antes era visto como antiético e anticientífico integrar religião e espiritualidade no tratamento da saúde mental, atualmente é antiético e anticientífico desconsiderá-las. A frase foi proferida por Alexander Moreira-Almeida, psiquiatra, coordenador do Nupes (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde) da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), e ganhador do Oskar Pfister Award em 2025, a mais relevante honraria internacional na intersecção entre psiquiatria, espiritualidade e religião.
Não pude deixar de recordar meus tempos de faculdade de psicologia, no começo dos anos 2000, quando me declarar religioso já era motivo de chacota. Em uma ocasião, uma professora, ciente da minha fé, tentou me convencer em sala de aula de que a profissão que eu havia escolhido era incompatível com minha crença. Embora buscasse demonstrar erudição, sua motivação era, na verdade, puro preconceito.
Duas décadas depois, 180 psiquiatras, psicólogos, teólogos e capelães de 20 países se reuniram, indo na direção contrária ao que vivi. Conforme os organizadores, o evento recebeu mais de 170 propostas de apresentação e contou com 71 palestras e painéis. Entre os palestrantes estavam nomes como David H. Rosmarin, professor da Faculdade de Medicina de Harvard, e Alan Fung, presidente da seção de Religião, Espiritualidade e Psiquiatria da Associação Mundial de Psiquiatria.
Comemoro esse avanço, mas acredito que o tema ainda não está consolidado entre os profissionais de saúde. Embora, no meio acadêmico, a discussão já não gire em torno de “se” a espiritualidade afeta a saúde mental, mas sim “como” ela a influencia, na prática clínica a maioria dos profissionais não recebeu treinamento para incorporar religiosidade e espiritualidade ao cuidado de maneira ética e baseada em evidências.
De acordo com Fung, um estudo divulgado em 2003 no Joint Commission Journal on Quality and Safety indicou que, entre 1,7 milhão de pacientes internados nos Estados Unidos, as necessidades emocionais e espirituais eram a segunda maior prioridade. Para aqueles que têm fé, a crença está associada a melhores indicadores de saúde mental, especialmente em áreas como depressão, abuso de substâncias, prevenção do suicídio e resiliência. A pesquisa também revelou uma forte correlação entre o atendimento a essas necessidades e a satisfação geral com o tratamento.
Desafios éticos e a busca por equilíbrio no cuidado
Ouço relatos de pessoas que mudaram de médicos e psicólogos por terem sua fé desrespeitada. Tenho pacientes que já receberam conselhos de profissionais para fazerem coisas que contrariam sua moral, como iniciar um relacionamento extraconjugal para superar uma crise.
Qual é a diferença entre o profissional de saúde mental que ultrapassa os limites éticos ao tentar catequizar o paciente com sua própria religião e aquele que faz o mesmo ao tentar desconstruir a crença de quem está sob seus cuidados?
Houve um período em que a religião se colocou como guardiã da ciência. Depois, veio a era em que ciência e religião passaram a ser tratadas como adversárias naturais. O que o 6º fórum de religião, espiritualidade e saúde mental sugeriu é que, no cuidado humano, elas podem deixar de disputar autoridade para colaborar na promoção da saúde.







