Benefícios de desapegar do que não tem mais uso

Ao abrir o armário, a sensação é de que não cabe mais nada. No entanto, ao observar com atenção, surgem itens que há tanto tempo não são usados que se tornaram praticamente invisíveis: aquela calça jeans que já não serve, caixas vazias que um dia teriam utilidade, documentos antigos e até o tapete de yoga ou o kit de pintura adquiridos na expectativa de um novo hobby que nunca se concretizou.

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Que esses objetos ocupam espaço físico, é algo que todos notam. Mas e se eles também estiverem tomando um lugar na mente, prejudicando a sensação de ordem interna? Conforme explica a psicóloga Adriana Santiago, não armazenamos apenas coisas materiais; eles trazem consigo histórias, versões passadas de nós mesmos e esperanças de um futuro que não se realizou.

“Aquela blusa pode não servir mais no corpo, mas ainda se encaixa perfeitamente na lembrança de quem eu fui um dia”, observa. Para ela, é comum que certos itens fiquem ocultos em gavetas ou armários por anos, pois o que está “fora do campo de visão” torna-se, de forma conveniente, “fora do campo emocional”.

“Então o cérebro faz o que sabe de melhor: adiar. E o objeto entra numa espécie de ‘limbo psicológico’. Não o utilizamos, mas também não abrimos mão dele.”

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Mesmo atrás das portas, esses itens ressoam como uma “desordem” interna. O excesso de objetos sem utilidade eleva a carga mental e os níveis de estresse, pois obriga o cérebro a processar estímulos visuais desnecessários. “São muitas informações espalhadas, sem clareza sobre o que deve ser priorizado”.

Quando o ambiente se organiza, o peso diminui porque a mente ganha clareza. Deixamos de gastar energia tentando decidir o que ignorar e onde focar. “É como se o cérebro dissesse: ‘agora consigo respirar’. Com menos ruído externo, há, finalmente, mais silêncio interior.”

Os ganhos desse desapego vão além da estética. Incluem o aumento da sensação de controle, a redução da ansiedade e uma confiança renovada para tomar decisões. “O ato de escolher o que permanece e o que vai embora fortalece nossa percepção de agência. Ou seja, a pessoa se sente mais autora da própria história. E isso, na clínica, tem um valor imenso.”

A casa como espelho da vida

“Tudo que existe carrega uma centelha de energia”, afirma Sandra Strauss, autora do livro “A Cabala da Casa” (Editora Hanoi). Sob a ótica dessa filosofia, inspirada em leituras contemporâneas da Cabala, a casa deixa de ser apenas um espaço físico e passa a ser compreendida como um espelho das emoções, dos hábitos e das escolhas de quem a habita.

Itens guardados sem função ou esquecidos passam a ser vistos como sinais de vínculos com o passado, decisões não finalizadas ou fases que ainda não foram completamente elaboradas. Nessa lógica, escolher o que fica é também uma maneira de reafirmar o presente, enquanto o que sai ajuda a encerrar vínculos simbólicos e reorganizar prioridades internas.

“O que acontece em casa, acontece na vida, e o ambiente influencia diretamente a consciência e a realidade. Quando você solta o que não serve mais, libera energia estagnada”, afirma Sandra.

Abrir espaço para o novo

Durante o processo de desapego, é comum surgir o clássico pensamento: “e se eu precisar disso um dia?”. Segundo Adriana, esse “e se” funciona como um roteirista da ansiedade humana, revelando a dificuldade do cérebro em lidar com a incerteza. Para enfrentar esse impasse, ela propõe perguntas que funcionam como um teste de realidade:

  • Qual a probabilidade real de eu precisar disso?
  • E se eu precisar, qual seria o custo de resolver isso depois?
  • Isso ainda tem função na minha vida atual ou só no meu passado?
  • Se eu não tivesse isso hoje, eu compraria novamente?
  • Esse objeto me aproxima ou me afasta de quem eu quero ser?
  • Estou guardando por utilidade, culpa, medo ou saudade?

“Na maioria das vezes, a resposta revela algo libertador: é mais fácil lidar com um problema futuro improvável do que continuar acumulando um desconforto presente. Curiosamente, cada objeto que vai embora abre espaço não só no armário, mas na mente. Porque às vezes o que pesa não é o que usamos, é o que insistimos em não soltar.”

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