Autossabotagem: entenda o medo da própria felicidade

13Adiar compromissos relevantes, corrigir o mesmo trabalho repetidamente sem finalizá-lo ou até mesmo gerar conflitos em instantes de contentamento. A autossabotagem normalmente opera de modo discreto e, sem que se perceba, estabelece um ciclo de repetição que prejudica exatamente aquilo que tem valor.

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Conforme a psicóloga Camila Ribeiro, essa conduta surge da tensão entre o anseio de progredir e, na realidade, atitudes que se distanciam dessa trajetória. Trata-se de uma dualidade entre a vontade de evoluir e a tentativa inconsciente de evitar o sofrimento. “Sem se dar conta, a pessoa acaba se restringindo antes mesmo de tentar”, afirma.

A especialista ressalta que é frequente observar indivíduos se esforçando bastante, porém sem avançar na direção correta. Também existe uma autocrítica incessante associada à procrastinação e à sobrecarga de afazeres.

“É comum ver pessoas fazendo muito, mas sem se mover na direção certa.”

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Embora se assemelhe à procrastinação comum, que decorre do cansaço ou de uma atividade que não é prioritária no momento, a autossabotagem se manifesta como um padrão. “Ela deseja, mas trava sempre no mesmo ponto. E, geralmente, isso vem acompanhado de justificativa e forte autocrítica. Não se trata apenas de falta de ação. É um conflito interno não solucionado.”

Raiz da insegurança

Frequentemente, esse comportamento aflora em adultos que cresceram em ambientes familiares ou profissionais marcados por críticas excessivas, o que influencia diretamente a maneira como se enxergam. “Quando alguém é criado acreditando que precisa ser perfeito para ser aceito, ou que nunca é suficiente, isso pode gerar insegurança e receio de se expor.”

Dessa forma, passam a repetir condutas que reafirmam essa crença, mesmo que isso as mantenha presas em ciclos desgastantes. “É uma forma de proteção que foi aprendida.”

Respostas ao desconforto emocional

Na obra “A coragem de ser imperfeito” (Editora Sextante), Brené Brown descreve que, quando alguém está prestes a vivenciar algo significativo, como um projeto, um novo relacionamento ou uma entrevista de emprego, emerge a sensação de vulnerabilidade. Como mecanismo de defesa, o cérebro tende a recusar esse estado e, ao tentar retomar o controle, a autossabotagem surge como uma tentativa de prejudicar algo para não ser surpreendido depois. Brené demonstra como isso ocorre na prática:

  • Perfeccionismo: a convicção de que “se tudo for executado de forma impecável, é possível evitar julgamento e vergonha”, e assim, algo não é concluído por não estar perfeito;
  • Entorpecimento: quando as emoções se tornam excessivamente intensas, elas acabam sendo silenciadas com excesso de trabalho, redes sociais, comida ou álcool. Essa fuga impacta diretamente a produtividade e a presença;
  • Isolamento: surge como uma postura excessivamente crítica ou cínica, utilizada para manter os outros distantes e evitar envolvimento.

O medo da felicidade

A autora também afirma que a alegria pode ser uma das emoções mais vulneráveis que existem. Isso acontece porque, quando é plena, pode ser acompanhada por uma sensação de perda de controle e de exposição.

Sabe aquele instante em que tudo vai bem, você olha para quem ama e sente um afeto profundo, ou percebe uma cena corriqueira e se sente completamente feliz e, de repente, surge um pensamento negativo, como uma traição, um acidente ou algo dando errado?

A obra descreve isso como joy foreboding, ou seja, o medo do pior quando tudo está bem. Nesse processo, o cérebro passa a antecipar o sofrimento para se preparar, como se imaginar o pior agora pudesse evitar ser pego de surpresa depois. O equívoco dessa lógica é que ensaiar a tragédia não diminui a dor se ela realmente ocorrer, apenas prejudica a alegria do presente.

Tanto no âmbito profissional quanto no pessoal, essa conduta pode se manifestar ao criar conflitos, procrastinar ou se distanciar, como uma forma de escapar desse estado “perigoso” de alegria. Em muitos casos, parece mais fácil “desistir de tudo” por conta própria do que lidar com a possibilidade de que algo dê errado depois.

Quebrar o ciclo

A psicóloga explica que, para interromper a autossabotagem, é necessário se tratar com mais compaixão e diminuir a autocrítica. Nesse processo, o primeiro passo é tomar consciência dos próprios padrões e identificar o que está por trás de certos comportamentos, substituindo a punição por uma responsabilização mais madura. Camila sugere algumas perguntas que podem auxiliar nesse processo:

  • Em que áreas da minha vida eu sempre travo, mesmo querendo ir?
  • O que eu venho adiando e por quê?
  • O que eu estou pensando sobre mim nesse momento?
  • Eu acredito que não sou capaz, ou que preciso estar perfeita para começar?
  • O que eu estou esperando sentir para começar? E se eu nunca me sentir pronto?
  • Qual é o menor passo que eu consigo dar hoje?
  • O que eu posso fazer, mesmo sem estar no meu melhor momento?
  • Eu estou me tratando como alguém que precisa melhorar, ou como alguém que precisa ser punido?
  • Eu estou sendo justa comigo ou apenas exigente?
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