O Espírito Santo virou a página. Pela primeira vez em 24 anos, o Palácio Anchieta será ocupado por um nome novo, distante da geração de políticos que surgiu logo após a redemocratização brasileira e que comanda o Estado desde 2003. Lorenzo Pazolini (Republicanos) derrotou Ricardo Ferraço (MDB) no segundo turno, com 52,17% dos votos válidos, e leva consigo um novo grupo político para a direção do Estado.
Desde o pleito de 2002, somente dois nomes chegaram ao governo pelas urnas: Paulo Hartung e Renato Casagrande, cada um com três mandatos. Ferraço, que já havia ocupado a vice tanto na gestão de Casagrande quanto na de Hartung, assumiu o cargo em abril, quando o titular deixou o posto para disputar o Senado. Era a aposta na continuidade. Não funcionou.
Um Estado em ordem nas mãos de um novo grupo
Essa geração de políticos capixabas é lembrada como um período de êxitos, considerando o caos institucional em que o Espírito Santo estava mergulhado nos anos 90 e no começo dos anos 2000. Pazolini herda um Estado bem posicionado e com as contas equilibradas.
Hoje o Espírito Santo é o Estado menos endividado do Brasil: conforme o Tesouro Nacional, a relação entre a dívida consolidada líquida e a receita corrente líquida está em -52,48%, isto é, há mais dinheiro em caixa do que débitos a quitar. No Ranking de Competitividade dos Estados 2026, do Centro de Liderança Pública (CLP), o ES ocupa o 5º lugar no país e o 2º no Sudeste, atrás somente de São Paulo. Além disso, apresenta a 5ª menor desigualdade de renda do Brasil e a menor da região.
O Estado vem avançando pelo litoral norte com logística portuária e um processo acelerado de industrialização. Na porção sul, o retorno da Samarco é um fato consolidado, somado à pujante economia do petróleo, que continua crescendo com investimentos da Petrobras. No interior, o agronegócio capixaba tem mostrado bons números. A Grande Vitória mantém um ritmo constante de crescimento, inclusive com expectativas de grandes aportes, como a expansão da ArcelorMittal com o Laminador de Tiras a Frio. Olhando o Espírito Santo em perspectiva histórica, Pazolini tem o melhor ponto de partida possível.
Contudo, uma das incógnitas está na política. Pazolini esteve no campo bolsonarista ao longo da campanha, e sua vice, Bispa Eliane Leal, é filiada ao PL e tem ligação direta com o senador Magno Malta. Ao mesmo tempo, o Palácio do Planalto segue com Lula, reeleito no mesmo domingo. Ainda não se sabe como será a relação institucional entre o governo capixaba e o governo federal.
O ES não é tão dependente da União assim, até porque boa parte dos repasses é obrigatória, mas, para viabilizar grandes projetos, é indiscutível a importância de recursos que vão além dos cofres estaduais.
E a Serra nessa história?
Na Serra, a dúvida se repete em escala local. Pazolini é aliado do deputado Pablo Muribeca, que faz oposição dura ao prefeito Weverson Meireles. De que forma o novo governador vai tratar a prefeitura do maior colégio eleitoral do Estado é uma pergunta que continua no ar. Isso porque estavam previstos muitos investimentos em parceria com o Estado.
As urnas da cidade também deixaram um recado. Pazolini venceu na Serra com 51,44% dos votos válidos, mas a vantagem de mais de 65 mil votos no primeiro turno encolheu para 7.568. A Serra entregou a vitória, mas não passou cheque em branco.
A grande vencedora foi a polarização
Se houve um vencedor evidente neste pleito, esse foi a polarização. A disputa nacional tomou conta da agenda local, e a Serra foi às urnas sem saber o que o governador eleito pensa sobre problemas concretos da cidade. Qual é o plano para abrir o Pronto-Socorro do Jayme? O que será feito com a podridão das praias da Serra? Essas e outras tantas respostas se perderam no barulho.
A partir de janeiro, essas questões passam a ser responsabilidade de Pazolini. Até lá, tem início a transição, período em que um grupo entrega o poder e outro se prepara para assumir. É agora que a Serra precisa colocar suas demandas na mesa.







