O Brasil enfrenta uma contradição que não pode ser ignorada. Enquanto milhões de jovens ainda encontram obstáculos para acessar oportunidades de estudo e trabalho, áreas estratégicas da economia apontam falta de profissionais qualificados. No setor de tecnologia, por exemplo, a procura por talentos cresce há anos em ritmo superior à formação de novos especialistas. Segundo dados da Brasscom, entre 2019 e 2024 o país acumulou um déficit superior a 200 mil profissionais de Tecnologia da Informação e Comunicação. A demanda por talentos nesse segmento excedeu a oferta de formação em mais de 30%: 665 mil vagas abertas diante de aproximadamente 465 mil profissionais formados. Assegurar que mais jovens desenvolvam as competências necessárias para ocupar essas posições tornou-se um desafio cada vez mais urgente.
A chegada da inteligência artificial acrescentou mais um elemento a esse cenário. Se muitas das atividades tradicionalmente ligadas ao início da carreira podem ser automatizadas, como os jovens construirão experiência profissional? A preocupação é legítima. Por muito tempo, o ingresso no mercado de trabalho se dava por meio de funções mais operacionais. Era nesse espaço que os jovens aprendiam na prática, desenvolviam repertório e ganhavam autonomia para assumir responsabilidades maiores. Atualmente, parte dessas tarefas já pode ser executada por ferramentas de inteligência artificial. Uma pesquisa inicial, um texto simples, uma análise básica de dados e até partes da programação podem ser feitos em poucos segundos.
Nesse contexto, assegurar que mais jovens desenvolvam as habilidades exigidas pelo mercado tornou-se um dos principais desafios para transformar oportunidades em inserção profissional. Enquanto 8,2 milhões de jovens com idade entre 15 e 29 anos estão fora da escola e do trabalho, o setor de tecnologia enfrenta carência de profissionais qualificados. Esses números mostram que o desafio vai além da existência ou ausência de vagas: trata-se de conectar os jovens às oportunidades que vêm sendo criadas.
Ao mesmo tempo, a inteligência artificial está modificando o perfil profissional valorizado pelo mercado. Nota técnica recente da Fundação Telefônica Vivo sobre inteligência artificial e futuro do trabalho aponta que pensamento crítico, criatividade, resolução de problemas complexos, capacidade de verificar respostas produzidas por IA e competências socioemocionais estão entre as habilidades mais importantes para os próximos anos. Em outras palavras, o valor do profissional passa a depender menos da execução mecânica de tarefas e mais da capacidade de analisar informações, interpretar contextos, tomar decisões e trabalhar em colaboração com outras pessoas e com a própria tecnologia.
Apesar das transformações trazidas pela inteligência artificial, as portas de entrada não desapareceram. Pesquisa da Brasscom revela que 82% das empresas de TIC pretendem ampliar suas equipes nos próximos dois anos e que quase metade das vagas previstas será destinada a posições de entrada. Ao mesmo tempo, formação técnica, competências socioemocionais e capacidade de aprendizado contínuo estão entre os fatores mais valorizados pelas empresas na contratação de jovens.
É justamente nesse contexto que a Educação Profissional e Tecnológica pode fazer a diferença. Se a experiência profissional está se tornando mais difícil de ser adquirida por meio das funções tradicionais de entrada, a escola precisa assumir papel maior no desenvolvimento dessas habilidades. A EPT possibilita que os estudantes tenham contato com projetos reais, tecnologia, resolução de problemas e situações próximas às que encontrarão no mundo do trabalho, mesmo antes do primeiro emprego. Ao aproximar a educação da prática e das demandas concretas do mercado, ela pode contribuir para transformar oportunidades potenciais em trajetórias profissionais reais.
Essa mudança também exige rever a forma como ensinamos e avaliamos. Se uma ferramenta já é capaz de produzir muitas respostas, a escola precisa valorizar mais a investigação, o raciocínio, a resolução de problemas, o trabalho colaborativo e a capacidade de aplicar o conhecimento em situações reais. Formar para o mercado de trabalho na era da IA significa preparar os estudantes para pensar, criar, analisar e aprender de forma contínua.
Há ainda uma questão que não pode ser ignorada. Os impactos da transformação tecnológica tendem a ser mais difíceis para quem já enfrenta barreiras educacionais e sociais. Entre os jovens fora da escola e do trabalho, a proporção é significativamente maior entre mulheres e também entre jovens pretos e pardos. Além disso, as mulheres representam apenas cerca de 23% dos matriculados e concluintes em cursos de Computação e TIC. Por isso, a ampliação das desigualdades merece tanta atenção quanto os impactos da IA sobre o emprego. Jovens que tiverem acesso às novas competências demandadas pelo mercado estarão mais preparados para aproveitar as oportunidades que surgem; os demais correm o risco de ficar à margem dessa transição.
No debate sobre Educação Profissional e Tecnológica, a discussão é como preparar os jovens para um mercado de trabalho cada vez mais influenciado pela inteligência artificial. Isso exige ampliar o acesso à EPT, fortalecer percursos formativos conectados às transformações do mercado e garantir que estudantes de diferentes realidades tenham oportunidades de desenvolver competências digitais, técnicas e socioemocionais. Se a porta de entrada do mercado de trabalho está mudando, precisamos construir novos caminhos para que os jovens cheguem até ela. E a Educação Profissional e Tecnológica é uma das ferramentas mais importantes que temos para fazer isso.







