O treinador do Palmeiras, Abel Ferreira, ganhou os holofotes ao compartilhar presentes feitos por alunos da ONG mineira Sementes do Vale, entidade que promove a educação de jovens no sertão mineiro. A atitude do português, conhecido por defender a educação fora dos gramados, foi o motivo que levou a instituição a escolhê-lo para uma homenagem que emocionou milhares de torcedores nas redes sociais.
No mês passado, Abel exibiu uma carta e dois presentes produzidos pelas crianças e adolescentes atendidos pela organização: um campinho tático de papelão e um carrinho de Fórmula 1 de controle remoto. A grande repercussão da postagem acabou servindo como vitrine para o trabalho realizado há uma década no Norte de Minas Gerais.
Thiago Otero, fundador e presidente da ONG, explicou que o treinador foi escolhido por sua defesa da educação e da leitura: “Um treinador que traz sobre livros, traz sobre a educação, a gente vê que é algo diferente, e precisamos passar isso para as nossas crianças”.
“A gente quis mostrar para ele que o futebol e o esporte podem caminhar com a educação”, acrescentou. Otero contou que os presentes foram confeccionados pelos alunos do projeto de robótica da ONG, com o campinho tático e o carro de Fórmula 1 carregando elementos pedagógicos para as crianças.
“Vimos nisso uma oportunidade de levar um presente para o Abel e falar: ‘Olha o esporte que você tanto ama andando de mãos dadas com a educação, que você tanto defende também’, e aí deu certo”, complementou. Ainda conforme Otero, o contato com o treinador aconteceu por meio da assessoria do Palmeiras, que também viabilizou a entrega dos mimos.
“Foi um momento muito marcante para nossa história, mesmo não tendo o conhecido pessoalmente”, disse ainda. Torcedor do Palmeiras, Otero revelou que a publicação do treinador português também o tocou pessoalmente: “Quando vi, não acreditei. É muito incrível porque o futebol é a paixão de todo mundo. E quando a gente consegue chegar até um cara que trouxe tanta alegria para a gente, como palmeirense, é muito incrível. Então, assim, eu não consigo descrever o que foi a sensação de ver isso acontecer”.
Otero acrescentou que o registro ampliou a visibilidade do projeto, atraiu novos seguidores e despertou o interesse de potenciais parceiros. Embora o objetivo não fosse arrecadação imediata, o reconhecimento fortaleceu a credibilidade da iniciativa e ampliou seu alcance junto a empresas e apoiadores.

Uma década de trabalho social no Norte de Minas Gerais
Criada há 10 anos, a Sementes do Vale surgiu a partir da percepção de Otero de que a baixa qualidade do ensino contribui para a perpetuação do ciclo da pobreza nos municípios do sertão mineiro. Atualmente, a entidade conta com quatro polos de atendimento e três extensões, abrangendo sete cidades.
Além da robótica, a ONG oferece informática, modalidades esportivas, musicais, balé, aulas de idiomas e qualificação profissional, bem como acompanhamento familiar e iniciativas de geração de renda. Mais de 10 mil pessoas já foram beneficiadas pelas ações da Sementes do Vale.
Uma delas é Cristiane Xavier, de 22 anos. Ela chegou ao projeto como aluna de informática e robótica em 2023. Lá dentro, tornou-se monitora, professora e hoje coordena o principal polo da instituição. Mãe desde os 16 anos, ela afirma que a ONG ampliou as perspectivas profissionais para jovens mulheres da comunidade.
“A realidade das mulheres daqui é cuidar de criança ou trabalhar no café, que é um período curto, e quando terminou, terminou. Então a ONG traz muitas oportunidades de trabalho. Vários meninos que eram da comunidade conseguiram estudar fora, e tenho certeza que foi através da educação aqui da ONG”, explicou Cristiane.

Mesmo diante da consolidação no sertão mineiro, a ONG ainda enfrenta desafios para manter as atividades. Segundo Otero, a principal dificuldade é a logística e o acesso às principais regiões de Minas Gerais e do País.
“Como estamos no interior de Minas, numa cidade com difícil acesso a aeroportos e rodovias, a gente tem muita dificuldade em estourar a bolha, chegar a outros lugares. E aí a gente acaba com a dificuldade de conseguir boas parcerias, que dêem mais tranquilidade para continuarmos ampliando”, afirma.
Ainda assim, para Otero, o maior legado da publicação de Abel Ferreira foi evidenciar um projeto desenvolvido longe dos grandes centros, além de reforçar que o esporte pode ser uma porta de entrada para a educação.
“A gente sabe que o Semente do Vale um dia vai acabar. A gente sabe que eu vou passar, que as pessoas vão passar, mas aquilo que a gente consegue contribuir para as políticas públicas é o que vai permanecer para as pessoas que mais precisam”, finaliza.








