Em diferentes oportunidades, venho destacando o fenômeno da redução relativa do peso do setor industrial capixaba no PIB, especialmente ao longo dos últimos 15 anos. Esse segmento, que foi crucial para elevar o Espírito Santo à posição de estado mais industrializado do Brasil e proporcionar taxas médias anuais de crescimento econômico acima da média nacional por aproximadamente quatro décadas, parece agora evidenciar um desgaste estrutural, ou até mesmo uma perda de capacidade de impulsionar a economia.
Não se trata de uma situação exclusiva do estado, já que a economia brasileira e, de certo modo, outras economias, inclusive as consideradas desenvolvidas, enfrentam o mesmo problema. Esse fenômeno vem sendo chamado de desindustrialização. As explicações para essas evidências são variadas, assim como as estratégias para contorná-las. Algumas delas, no entanto, não são recomendáveis. É o caso do tarifaço imposto por Donald Trump, na tentativa de repatriar para o território americano elos de cadeias produtivas que migraram para outros países, com destaque para a China.
O caso do Espírito Santo possui especificidades bastante particulares. A primeira delas é a forte presença de commodities industriais, especialmente petróleo e minério de ferro.
Por serem commodities e funcionarem como bases de grandes e longas cadeias de valor, nas quais predominam relações internacionais transfronteiriças, essas atividades estão sujeitas a decisões externas que limitam sua autonomia, sobretudo em relação a preços e quantidades produzidas.
O setor industrial é composto por quatro subsetores: extrativa mineral, indústria de transformação, Serviços Industriais de Utilidade Pública (SIUP) e construção civil. Em 2023, a participação do setor industrial como um todo na economia capixaba foi de 28%, superando a média nacional, que ficou em 25%. Internamente, a indústria de transformação representou 11,2% — ante 14% nacional —, a extrativa mineral respondeu por 10,2%, a construção civil por 4,2% e os SIUP por 2,8%.
Em um outro recorte temporal, no ano de 2002, o cenário era distinto: 36,3% para a indústria como um todo, com a transformação em 17,8%, extrativa em 7,1%, SIUP em 4,3% e construção civil em 7,2%.
A menor participação do setor industrial ocorreu em 2017, com apenas 22,3%. Além da crise geral da economia brasileira, possivelmente a maior da história, o estado enfrentou a paralisação das operações da Samarco. A indústria extrativa registrou apenas 6,1%, enquanto a de transformação ficou em 9%.
O ano de 2011 foi o melhor para a indústria capixaba, com a participação no PIB atingindo 43,2%. Esse movimento foi liderado pelas atividades extrativas minerais, que alcançaram o ponto máximo de sua participação: 26,1%. Por outro lado, a indústria de transformação encolheu para 9,5%.
Nenhum outro estado apresenta oscilações tão acentuadas, e a principal relação causal está nas commodities. Para efeitos demonstrativos, tomemos apenas aquelas que compõem o subsetor extrativa mineral: petróleo e pelotas de minério de ferro.
No caso do minério de ferro, considerando como base o ano de 2015, último ano antes da crise, e 2025, a quantidade produzida caiu 42% nesse período — efeito da tragédia de Mariana —, enquanto em valor, em dólares, a redução foi de 14,4%. Por outro lado, o preço em dólares subiu 47,9% e o câmbio se valorizou 59,1%. Ou seja, em termos monetários, em reais, o crescimento foi de 36,2%.
No caso do petróleo, a quantidade produzida caiu 44%, o valor em dólares cresceu 10% e o valor monetário em reais chegou a 75%. Dessa forma, o efeito preço e câmbio superou amplamente a queda na produção.
A questão é que, para efeito do cálculo do crescimento real — e aqui falamos em PIB, que representa a riqueza nova produzida —, retira-se o efeito dos preços, incluindo o câmbio. Ou seja, o PIB real é resultado do deflacionamento do PIB nominal.
Para exemplificar melhor esse problema, tomemos a variação do PIB capixaba entre 2020 e 2021. O PIB real cresceu 5,7%, enquanto o PIB nominal registrou alta de 34%. Nesse caso, foi aplicado um deflator, que extrai o efeito preço, de aproximadamente 27%.
Essa profusão de números, no entanto, não invalida a avaliação de que o Espírito Santo sofre, e em maior intensidade que o restante do país, o processo de perda de tração e competitividade industrial.
O Espírito Santo precisa passar por um choque de competitividade.






