Mercado vê efeito “mínimo” do bloqueio no problema das contas públicas

O bloqueio suplementar de R$ 22,1 bilhões anunciado pelo governo para o Orçamento de 2026 foi interpretado pelo mercado como uma demonstração de esforço para controlar as finanças, porém com impacto restrito sobre os desafios estruturais das contas públicas.

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Economistas consultados pelo CNN Money consideram que a iniciativa contribui para reduzir o déficit em um horizonte imediato, mas não modifica a tendência de expansão das despesas obrigatórias, que seguem exercendo pressão sobre o orçamento.

O governo federal ampliou o bloqueio total para R$ 23,7 bilhões depois de uma revisão das estimativas de gastos. As maiores pressões vieram da Previdência, com um aumento projetado de R$ 11,8 bilhões, e do BPC (Benefício de Prestação Continuada), com um acréscimo de R$ 14,1 bilhões.

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A contenção foi indispensável para compensar a piora das despesas obrigatórias e assegurar o cumprimento do limite de gastos definido pelo arcabouço fiscal.

A Warren Investimentos indicou um “impacto mínimo sobre o resultado primário”.

A professora de Economia do Insper, Juliana Inhasz, destaca que a ação visa sinalizar compromisso com a meta fiscal.

“Fica muito claro na fala do ministro Dario Durigan que o governo está tomando essa medida de forma preventiva, para mostrar que a situação não está tão ruim e que não querem que ela piore”, declara.

Ela pondera, contudo, que o bloqueio não soluciona o desequilíbrio estrutural das finanças públicas. Isso porque a maior parte da pressão surge justamente de despesas obrigatórias, que não podem ser reduzidas.

“O ajuste acaba recaindo em investimentos, custeio e outras despesas discricionárias. Isso cria a percepção de que o espaço fiscal está muito apertado e que o governo pode precisar fazer novos bloqueios ou até contingenciamentos ao longo do ano”, explica a economista.

Para Inhasz, a própria natureza preventiva da iniciativa pode revelar uma preocupação mais intensa do governo com a trajetória das contas públicas.

O congelamento anunciado pode sinalizar uma dificuldade do governo em acomodar as despesas obrigatórias, e “é possível que a administração já esteja se antecipando a uma piora fiscal considerável”.

Na visão da economista, a movimentação também revela uma contradição na condução da política econômica. Ao mesmo tempo em que o governo busca transmitir responsabilidade fiscal com a contenção de gastos, sustenta estímulos e subsídios considerados expansionistas.

“Parece uma compensação, o governo corta alguns gastos para conseguir manter despesas mais visíveis em um ano eleitoral”, afirma Inhasz.

A economista-chefe da Lifetime Investimentos, Marcela Kawauti, ressalta que o montante do bloqueio surpreendeu o mercado. A previsão era de aproximadamente R$ 11 bilhões. Entretanto, ela pondera que o efeito líquido sobre a trajetória fiscal é pequeno, pois a revisão veio acompanhada de um aumento nas projeções de despesas.

Ela recorda ainda que o governo segue promovendo estímulos fiscais e parafiscais expressivos. Conforme um levantamento feito pelo CNN Money, mencionado pela economista, o chamado “pacote de bondades” soma quase R$ 230 bilhões, o que equivale a cerca de 2% do PIB (Produto Interno Bruto).

“O impulso fiscal ainda é muito grande. O bloqueio é bem-vindo, mas não resolve a perspectiva fiscal ruim para frente”, explica Kawauti.

Kawauti também observa que a composição dos gastos reforça o debate sobre a necessidade de reformas estruturais. Segundo ela, o avanço das despesas previdenciárias e do BPC diminui a capacidade do governo de direcionar recursos para áreas consideradas mais produtivas.

“Se não houvesse tanta pressão dos gastos obrigatórios, talvez a qualidade do gasto público pudesse ser mais eficiente”, afirma.

Apesar da deterioração das despesas, a Warren avalia, em caráter preliminar, que a meta fiscal de 2026 ainda deve ser atingida.

O relatório cita possíveis superestimativas em gastos com pessoal, BPC e transferências constitucionais, além da expectativa de receitas extras vinculadas à alta do petróleo ainda não totalmente incorporadas às projeções.

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