Uma alteração na legislação dos Estados Unidos pode contribuir para redefinir o cenário global do etanol e criar uma oportunidade estratégica de exportações para o Brasil, conforme aponta um relatório da StoneX. A proposta de lei que autoriza a venda de gasolina com 15% de etanol (E15) durante todo o ano no território americano já recebeu aprovação da Câmara dos Representantes e atualmente está em análise pelo Senado.
Caso o projeto avance também no Senado e receba a sanção do presidente Donald Trump, a mistura de 15% deixará de ser uma exceção sazonal para se tornar uma realidade permanente no maior mercado mundial de etanol.
Atualmente, a comercialização do E15 é vetada no verão americano devido a questões ambientais associadas à formação de névoa de poluição atmosférica, conhecida como “smog”. Dessa forma, o uso do biocombustível fica restrito durante parte do período de maior demanda.
O estudo enfatiza o momento de análise da proposta sobre o E15, em meio a tensões geopolíticas no Oriente Médio que pressionam os preços do petróleo, e um cenário de milho desvalorizado nos EUA após duas safras recordes. O documento observa que a alta nos preços dos combustíveis fósseis torna o etanol relativamente mais competitivo, enquanto os produtores americanos de milho procuram uma solução para o excesso de oferta.
“Nesse contexto, uma mistura mais elevada de etanol na gasolina atende simultaneamente à agenda de segurança energética, à demanda agrícola interna e às metas de descarbonização.”
Excedente para exportação
Em 2024, os Estados Unidos produziram 16,2 bilhões de galões de etanol, o equivalente a 52% da oferta global, estimada em 31,3 bilhões de galões. Cerca de 98% desse volume é originado do milho, e aproximadamente 90% é consumido internamente no país.
As estimativas indicam que a produção americana cresceu 149% entre 2007 e 2024, mas a demanda doméstica se aproximou de um ponto de saturação, o que tem direcionado o excedente para o mercado internacional.
Na última década e meia, esse excedente tornou os EUA também o maior exportador global de etanol. Em 2025, as vendas externas atingiram cerca de 2,1 bilhões de galões, com destaque para Canadá (38% das exportações), Países Baixos (17%), Índia (9%) e outros destinos como Reino Unido, Colômbia e Filipinas.
O Brasil aparece atualmente com participação modesta, em torno de 2% das importações de etanol americano. Contudo, ressalta-se que essa configuração pode se alterar de forma significativa caso o E15 seja liberado em caráter permanente.
O texto destaca uma estimativa da National Corn Growers Association, que projeta que um aumento de 1 ponto percentual no blend médio nacional de etanol nos EUA gere uma demanda adicional de 1,36 bilhão de galões de etanol e 13,2 milhões de toneladas de milho.
O relatório indica que, já em 2026, com captura parcial do efeito, de apenas metade do incremento esperado, o potencial exportável americano cairia 16,6% em relação a 2025. Em 2027, com o impacto pleno do E15 incorporado à demanda doméstica, o efeito é ainda mais acentuado: as exportações potenciais recuariam 76,7%, voltando a patamares próximos aos de 2010.
Benefícios para o Brasil
A StoneX afirma que é precisamente nesse ponto que a mudança regulatória nos EUA se conecta diretamente ao mercado brasileiro. “A contração do excedente exportador americano, em um cenário de demanda global em expansão e de novos mandatos de mistura surgindo em vários países, abre espaço para que outros players, em especial o Brasil, ampliem sua fatia no comércio internacional de etanol”, diz o estudo.
De acordo com a empresa de serviços financeiros, mercados como a União Europeia e a Índia despontam como destinos naturais para esse redirecionamento, uma vez que já importam volumes relevantes dos EUA e possuem agendas claras de transição energética.
Sobre preços, a StoneX aponta que a perspectiva é de que a redução da oferta americana no mercado internacional exerça pressão altista sobre os valores globais do etanol a partir do fim de 2026 e ao longo de 2027.
“Para o Brasil, maior produtor mundial de etanol de cana-de-açúcar e detentor de um dos programas de mistura mais consolidados (com mandatos baseados em percentual, ao contrário do modelo volumétrico dos EUA) isso cria um ambiente de maior remuneração potencial às exportações, além de reforçar a atratividade de investimentos na expansão da capacidade produtiva e logística”, estimam.
Em paralelo, o milho também tende a ser beneficiado do lado da demanda global, ainda que os efeitos de maior fôlego só devam se materializar no longo prazo, à medida que novas plantas de etanol entrem em operação.
O estudo pondera que a adoção plena do E15 não é automática nem garantida. A aprovação final do projeto depende do crivo do Senado americano e da sanção presidencial, e o texto enfrenta resistência de segmentos do setor de refino, especialmente pequenas refinarias. “Mesmo que a lei seja aprovada, sua efetividade dependerá ainda da expansão da infraestrutura de revendas, do engajamento dos distribuidores e da manutenção de um diferencial de preço favorável ao E15 em relação ao E10.”







