O Dia da África deveria ser o Dia das Áfricas!

Todo dia 25 de maio, o mundo celebra o Dia da África. Mas será que esse nome faz justiça à realidade do continente? Para muitos de nós, que vivemos nas favelas e periferias do Brasil, essa data carrega um peso importante. É o dia em que lembramos nossas raízes, nossa ancestralidade e a força que vem de longe. Porém, é preciso ter coragem para dizer: chegou a hora de renomear essa data para Dia das Áfricas.

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Por que plural? Porque a África não é uma só. Ela nunca foi. Quando falamos “África”, estamos falando de um continente imenso, com mais de 50 países, mais de 2 mil línguas e uma infinidade de povos, histórias, religiões, formas de viver e resistir. Homogeneizar tudo isso é cair na mesma cilada que o colonialismo deixou: apagar as diferenças para facilitar o domínio.

A colonização europeia inventou a ideia de uma “África” única, selvagem e atrasada. Essa imagem ainda circula hoje na televisão, nas redes sociais e até nas conversas do dia a dia. É a mesma lógica que tenta reduzir a favela a um lugar só de violência e pobreza, ignorando nossa diversidade, nossa criatividade, nossa luta e nossa cultura.

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Quem mora em favela sabe bem o que é ser colocado numa caixinha. Sabemos como dói quando nos veem como “todos iguais”. A mesma coisa acontece com o continente africano. Por trás da imagem simplificada, existem as histórias dos povos iorubás, zulus, hauçás, amharas, mandingas, tuaregues, dos reinos de Mali, do Congo, de Axum, de Zimbabwe. Existem as lutas anticoloniais de Amílcar Cabral, de Samora Machel, de Thomas Sankara, de Nelson Mandela. Existem as mulheres que lideram cooperativas, os jovens que criam tecnologia com o que têm, os artistas que reinventam o mundo.

Aqui no Brasil, especialmente nas favelas, vivemos essa pluralidade no corpo. Somos herdeiros dessa África múltipla. O samba, o maracatu, o congado, o candomblé, a capoeira, o acarajé, as comidas, as rezas, os jeitos de cuidar, de rezar e de resistir carregam as marcas de diferentes povos africanos. Nossa diáspora é também uma África espalhada, reinventada na luta cotidiana.

Por isso, defender o Dia das Áfricas não é apenas uma correção de nome. É uma política da imagem. É dizer que o outro não é um monólito a ser resumido, mas uma profusão de temporalidades, espacialidades, culturas, famílias e poderes. É romper com o preconceito que ainda habita a imprensa e a sociedade brasileira.

Quando olhamos para as Áfricas com respeito à sua diversidade, estamos também olhando para nós mesmos com mais dignidade. Estamos afirmando que a favela também é plural. Que preto também é plural. Que nossa resistência é plural.

Que o 25 de maio seja, então, o dia em que celebramos todas as Áfricas: as do continente, as da diáspora, as que resistem, as que criam, as que sonham e as que lutam. Porque só reconhecendo a diferença, a diversidade e a pluralidade é que podemos construir um mundo mais justo.

África não é uma. São muitas.

E cada uma delas merece ser vista, respeitada e celebrada em sua grandeza.

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Igor Vitorino da Silva
Igor Vitorino da Silva
Professor, historiador e mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal do Paraná (/PPHIS/UFPR). Pesquisador Associado Externo do LHIPI – UFES e do LHIPU – IFES/Campus Vitória-ES

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