Crítica: Presa Fácil

Quando o teatro agride a zona de conforto: “Presa Fácil” e o Cativeiro Social
29 de Maio de 2026 | Coletivo Guaçuí em Cena | Aldeia SESC Ilha do Mel

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“Presa Fácil” foi longe de ser apenas um passatempo para a noite, a montagem se revela um soco no estômago da passividade. A peça coloca o espectador diante de um acerto de contas que ultrapassa o limite do crime individual para alcançar a dimensão do trauma coletivo. Ao adentrar o espaço cênico, o público é imediatamente confrontado com uma atmosfera de desolação. O cenário é a própria tradução visual da decadência: papéis rasgados e jornais velhos cobrem o chão de forma caótica. Há uma sujeira física que espelha as angústias internas das personagens, presas em seus próprios cativeiros existenciais. A opção estética da direção de Luiz Carlos Cardozo nos coloca num cenário em que me senti num corredor claustrofóbico, onde a sujeira e a imparcialidade nos colocam em um ambiente caótico, e que de certa forma, dá uma boa introdução sobre a mente dos personagens.

A peça começa sem pressa, apostando no que podemos chamar de tempo estendido. Um dos atores já está em cena, fumando um cigarro, medindo o espaço com passos lentos. Instala-se na sala um silêncio ensurdecedor. Na gramática teatral, o silêncio bem sustentado vale mais que mil monólogos gritados. Quando o segundo ator retorna correndo, a dinâmica de palco se estabelece por meio de uma ligação quase simbiótica com o espaço. Eles pisam nos jornais, destroem o que já estava quebrado, sujando ainda mais o cenário. Essa ação performática mostra que as personagens são incapazes de transitar pelo mundo sem deixar marcas de sua própria degradação, cada um de uma forma diferente (se tratando socialmente de uma pessoa “rica” e outra “pobre”).

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Há, contudo, uma escolha de direção que provoca um ruído incômodo na verossimilhança naturalista: o jogo com um copo de café vazio. Quando a cena exige que uma personagem ofereça café e o recipiente está visivelmente sem conteúdo, quebra-se a ilusão da realidade. A crença na materialidade das coisas é fundamental para o pacto realista; um copo vazio no teatro de vivência crônica gera um vácuo desnecessário. Se a proposta é o mergulho honesto na carne viva da realidade, o café precisa queimar a língua. Se, por um acaso, alguém esqueceu de colocar o café, os atores deveriam estar ligados para improvisar algo ali e “mudar” a cena de alguma forma.

 

Presa Facil | Foto: Daniel Bones

O espetáculo se sustenta no duelo interpretativo entre Igor Nunes e Matheus Soares. O ator que dá vida ao sequestrador (Matheus) demonstra um domínio de cena avassalador. Ele carrega na voz, no tônus corporal e no olhar felino um ressentimento ancestral por estar empurrado para a margem da vida. Suas falas não saem da boca; brotam de uma dor histórica. A última vez que tinha visto o Matheus em cena foi dias atrás no espetáculo “O Santo e Porca” conde ele demonstrou uma vertente de mesma qualidade, mas, com um personagem completamente diferente. Mostrando que o ator tem a versatilidade de demonstrar qualidade na atuação em diferentes papéis.

É uma balança técnica (da atuação) que pende perigosamente, porque, em contrapartida, o intérprete do jovem sequestrado, de classe média alta, constrói sua atuação pautada no medo do ato e na fragilidade. Isso não é tão bom, porque, o sequestrador é tão preciso e orgânico que acaba por expor certas fragilidades técnicas de seu companheiro de cena. Em diversos momentos, o segundo ator transmite a nítida impressão de estar entregando um texto decorado, carente daquela verdade visceral, e sem emoções. Essa disparidade técnica quebra o magnetismo do embate em alguns diálogos.

Felizmente, a direção consegue contornar parte desse abismo interpretativo por meio do uso inteligente dos silêncios dramáticos e das movimentações físicas. Mesmo quando a palavra falha na boca de um, o corpo de ambos continua a contar a história de um sequestro que falhou no passado, mas que insiste em se perpetuar no presente.

A trama se adensa quando descobrimos que o jovem rico retornou voluntariamente ao cativeiro anos após o crime. Surge a inevitável provocação: ele gosta do perigo ou sofre da Síndrome de Estocolmo? O apego ao agressor surge como um escudo de sobrevivência: diante da ameaça real e do isolamento absoluto, pequenos atos de “bondade” do captor são interpretados pela vítima como afeto genuíno. E nesse caso em questão, tratando-se de um personagem “rico” financeiramente, mas, “pobre” de atenção, qualquer ato do sequestrador era “bondoso” para ele.

Presa Facil | Foto: Daniel Bones

No cativeiro reconstruído, os dois jovens dividem um baseado (maconha, para quem não sabe) e se deixam levar pela brisa. É sob o efeito da substância que as barreiras sociais começam a ruir, permitindo que eles se conheçam além das aparências. O sequestrado confessa que seu pai se recusou repetidas vezes a pagar o resgate, demonstrando total indiferença pela sua vida. Descobre-se, assim, que a única emoção real que aquele jovem de elite sentiu na vida foi o próprio sequestro. Para ele, a violência do cativeiro era mais calorosa do que o gelo de sua casa luxuosa. Ele implora para que o outro lhe bata. Lacan explicaria isso por meio do conceito do “Desejo do Outro”: o jovem busca no castigo físico o reconhecimento de sua própria existência, preferindo ser o objeto da fúria de alguém a ser a invisibilidade completa no seio de sua família.

Para além do divã psicanalítico citado brevemente acima, “Presa Fácil” ganha sua verdadeira força política quando analisada sob a ótica do teatro engajado, aquele que mostra o drama e ainda questiona as causas sociais de suas misérias. A peça faz exatamente isso ao lançar uma pergunta desconfortável no meio do caos: “Você trepa com seus amigos?”. Esse questionamento, aparentemente vulgar, quebra o tom solene do drama e força a plateia a encarar a intimidade e a hipocrisia das relações modernas. Mas, essa pergunta, a meu ver, traz o sentido de que a história quer a todo momento nos enganar sobre o que realmente estamos pensando. A pergunta vem para nos dar um paradigma e nos insinuar de que a “tensão” que estava rolando era uma tensão sexual, e tentar te enganar sobre o que realmente o plot da história vai te levar. É algo difícil de se fazer, pode dar muito errado tentar “enganar” o público, mas, eles levaram bem… E conseguiram colocar algumas pessoas nesse caminho, e, para que a partir desse ponto, achou que eles seriam um tipo de “casal”, a expectativa foi realmente quebrada no final.

A discussão cênica encena possibilidades de vida que afetam os atores e o público em igual medida. Quando o sequestrador revela que sua mãe era a empregada doméstica que cuidava da filha rica daquela família, abnegando-se de criar o próprio filho legítimo para servir aos patrões, o texto rasga o véu da cordialidade brasileira. A mãe limpou a casa grande até a morte, deixando seu menino largado às traças. O cativeiro foi o único lugar onde esses dois mundos opostos puderam se olhar nos olhos e descobrir uma carência mútua de atenção.

O grande ápice da narrativa se dá com a revelação bombástica: o pai ausente da elite é o mesmo homem que gerou e abandonou o filho da empregada. Eles são irmãos. A herança genética se manifesta na sintonia, nos trejeitos e no magnetismo inexplicável que os uniu naquele cativeiro. O pai burguês descartou o filho pobre na periferia e o filho rico dentro do próprio condomínio fechado.

Presa Facil | Foto: Daniel Bones

A ironia geográfica, para mim, é de uma poesia cortante. O irmão pobre mora no alto do morro e sonha em descer para alcançar o dinheiro e o conforto. O irmão rico mora na baixada e sonha em subir em busca de aventura e liberdade. O morro e o asfalto são feitos da mesma terra, mas a vista de quem está no topo é linda apenas para quem não precisa carregar a lata d’água na cabeça. O “alto” e o “baixo” do desejo humano nunca batem com o mapa da exclusão. Eles passam a vida tentando ocupar o lugar um do outro, sem perceber que a engrenagem social os programou para se odiarem.

A força dessa história está justamente porque ela desmonta a ideia confortável de heróis e vilões puros. À primeira vista, a sociedade costuma enxergar o sequestrador como o agressor e a vítima do sequestro como a vítima absoluta.

Mas quando a narrativa revela que eles são irmãos, e que um cresceu dentro da casa como herdeiro enquanto o outro cresceu à margem, filho da empregada, ignorado e menosprezado pela mesma família, a história deixa de ser somente sobre um crime e passa a ser sobre uma estrutura social.

O sequestrador não deixa de ser responsável por seus atos. Porém, surge uma pergunta desconfortável: quem “produziu” aquele homem? É a mesma coisa entre perguntar “quem apertou o gatilho?” e “quem fabricou a arma?”. O irmão rico foi vítima do sequestro. O irmão pobre foi vítima de uma vida inteira de exclusão. Um sofreu uma violência aguda e o outro uma violência crônica. A sociedade costuma se mobilizar mais diante da violência aguda, porque ela é visível. Tem sirene, manchete, polícia, sangue. Já a violência crônica é silenciosa. Ela acontece durante anos, dentro de cozinhas, quartos de empregada, escolas precárias e oportunidades negadas. A ironia é que ambos são vítimas da mesma mentira: a ideia de que nascer em lugares diferentes os torna pessoas diferentes.

Aí me vem à mente que “Quanto da tragédia teria sido evitada se eles tivessem sido reconhecidos como irmãos desde o começo?” Talvez o verdadeiro antagonista não seja nenhum dos dois. Talvez seja uma sociedade capaz de colocar dois irmãos em mundos opostos e convencê-los de que pertencem a espécies diferentes.

Ao deixar o desfecho em aberto, o texto se recusa a entregar uma resposta mastigada para o espectador, que busca resoluções fáceis de três parágrafos. O final inconclusivo é um ponto positivo crucial: obriga o público a processar o espetáculo muito depois que as luzes se apagam.

A força de “Presa Fácil” reside na sua capacidade de implodir o maniqueísmo barato de heróis e vilões puros. O direito penal enxerga ali um sequestrador criminoso e uma vítima agredida. Mas a arte nos obriga a pensar diferente. Quando finalmente se encontram no mesmo nível do chão sujo daquele cativeiro, descobrem que passaram a vida inteira procurando um ao outro no escuro da própria rejeição. O verdadeiro antagonista não está em cena; está sentado na plateia e na estrutura que financia a desigualdade.

A tragédia social não reside na violência que aparta os homens, mas na estrutura que os impede de se reconhecerem como irmãos antes que o primeiro gatilho seja puxado.

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Daniel Bones
Daniel Bones
Sou o "Severino do Audiovisual Capixaba", já atuei em diversas áreas como fotografia, edição, sou ator, compositor, produtor e diretor de filmes e TV. Gosto de contar histórias. Ponto Final. (...) Aqui, minha coluna é cultural, mas vive com uma dor postural. Eventos, Arte, Cultura, Cinema e Teatro são comigo aqui! Se quiser, siga essa doideira ai!

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Sidnei Vicente

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