Por muito tempo, o café foi visto com reservas pela comunidade médica. A cafeína já foi considerada uma potencial ameaça ao sistema cardiovascular, especialmente por sua ligação com o aumento da pressão arterial e episódios de palpitação. Uma revisão de estudos científicos conduzida pela Associação Americana do Coração, no entanto, contribui para redefinir esse entendimento: para a maior parte dos adultos saudáveis, o consumo moderado da bebida não parece elevar o risco cardiovascular e pode, inclusive, estar associado a efeitos benéficos para o coração.
A quantidade, contudo, continua sendo um fator determinante. A análise indica que a ingestão diária de até 400 mg de cafeína — montante que pode corresponder, a depender do preparo e do tamanho da xícara, a cerca de três ou quatro cafés — é considerada segura para a maioria dos adultos saudáveis. Em algumas pesquisas, o consumo moderado mostrou-se relacionado a uma menor incidência de doenças cardiovasculares, insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral (AVC).
A conclusão não faz do café um medicamento nem autoriza o consumo irrestrito. O que os estudos sugerem é uma associação entre a bebida, quando ingerida com moderação, e certos indicadores favoráveis de saúde. Essa relação também depende da forma como o café é preparado e, sobretudo, do que é adicionado a ele.
O café filtrado e o solúvel, consumidos sem excessos de açúcar, cremes e xaropes, aparecem entre as opções mais recomendáveis. Já as bebidas energéticas exigem precaução. Em pequeno volume, elas podem conter doses elevadas de cafeína e outros estimulantes, aumentando a probabilidade de efeitos adversos sobre a pressão arterial e o ritmo cardíaco.
A diferença também reside na composição do café. A cafeína é apenas uma das substâncias presentes na bebida. O grão contém compostos bioativos, como os ácidos clorogênicos, que pertencem ao grupo dos polifenóis e são reconhecidos por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Outros componentes igualmente podem contribuir para os efeitos observados em estudos sobre metabolismo e funcionamento dos vasos sanguíneos.
É justamente essa combinação que impede uma interpretação simplificada sobre a bebida. O café não deve ser encarado apenas como uma fonte de cafeína. Seus efeitos dependem de um conjunto de substâncias presentes na bebida e da maneira como ela é preparada e consumida.
O problema pode estar no que vai para a xícara
O hábito brasileiro de adoçar o café também entra nessa equação. Uma bebida originalmente com baixa carga calórica pode se transformar em uma preparação rica em açúcar e gordura quando recebe grandes porções de xaropes, cremes, chantilly ou outros ingredientes.
Nesse cenário, o benefício potencial associado ao café pode ser atenuado por hábitos alimentares menos saudáveis. O problema, portanto, não está necessariamente na bebida em si, mas na conversão do café em uma espécie de sobremesa líquida, consumida repetidamente ao longo do dia.
A relação com o diabetes tipo 2 também aparece nas evidências revisadas. O consumo regular de café sem excesso de açúcar foi associado, em algumas pesquisas, a um menor risco de desenvolvimento da doença. Os estudiosos, no entanto, ressaltam que ainda há questões a serem esclarecidas e que parte das evidências disponíveis se baseia em estudos observacionais.
A forma de preparo é outro elemento que pode alterar os efeitos metabólicos do café. Métodos que não utilizam filtros de papel, como a prensa francesa, o café turco e algumas variações de expresso, preservam substâncias como cafestol e kahweol.
Esses compostos estão relacionados ao aumento do colesterol LDL, conhecido como colesterol ruim, principalmente quando o consumo é frequente e elevado. O filtro de papel, por outro lado, retém grande parte dessas substâncias.
Para pessoas que já apresentam colesterol alto, a escolha pelo café filtrado pode ser uma medida simples para reduzir a exposição a esses compostos. Isso não significa que outros métodos precisem ser completamente descartados, mas o modo de preparo adquire maior relevância dentro de uma estratégia de controle cardiovascular.
A relação entre café e coração também não é uniforme para todos. A velocidade de metabolização da cafeína varia conforme fatores genéticos, idade, metabolismo, medicamentos em uso e condições de saúde.
Enquanto algumas pessoas conseguem consumir várias xícaras sem efeitos perceptíveis, outras podem apresentar ansiedade, tremores, palpitações ou dificuldade para dormir após pequenas quantidades.
As evidências disponíveis também não indicam que o consumo moderado aumente, de modo geral, o risco de fibrilação atrial. Em alguns estudos, o consumo habitual chegou a ser associado a uma menor ocorrência desse tipo de alteração do ritmo cardíaco. Doses elevadas de cafeína, contudo, podem favorecer palpitações e outras alterações em pessoas mais sensíveis.
A recomendação, portanto, precisa ser individualizada. Pessoas com hipertensão não controlada, arritmias sintomáticas, distúrbios do sono ou maior sensibilidade à cafeína podem precisar limitar o consumo mesmo dentro dos níveis considerados seguros para a população em geral.
No fim das contas, a mensagem da revisão é menos uma autorização para beber café sem limites e mais uma mudança na forma de enxergar a bebida. Para a maioria dos adultos saudáveis, o café moderado pode integrar uma rotina de hábitos favoráveis à saúde cardiovascular. Mas não substitui exercício físico, alimentação equilibrada, controle da pressão arterial, acompanhamento do colesterol ou tratamento médico.
Entre o excesso e a restrição desnecessária, a ciência parece apontar para um terceiro caminho: o café pode permanecer na rotina, desde que a quantidade, o preparo e a resposta individual sejam levados em consideração.







