Cafetina, a mais nova cafeteria de Santa Cecília, chega como um espaço onde o “café” é tratado com letra maiúscula. Diferente de tantos brunches que surgem em São Paulo, Julia e Nadia Nasr querem que os clientes venham atraídos pela bebida e permaneçam por causa do ambiente acolhedor, despojado e impregnado pela essência do Café Por Elas.
Esse projeto é um sonho que germinou e foi cultivado há oito anos. Em 2016, as duas irmãs, ambas advogadas construindo carreiras em escritórios, decidiram abrir um negócio ligado ao ofício da mãe, que é cafeicultora. Sempre guiadas por um propósito: dar visibilidade a pequenas produtoras mulheres, donas de cafés excepcionais que mereciam chegar às xícaras dos brasileiros.
No Brasil, existem 40 mil estabelecimentos produtores de café liderados por mulheres (IBGE, Censo Agropecuário 2017), cerca de 13% do total de 304 mil registrados. Quase todas essas propriedades estão concentradas entre Minas Gerais e Espírito Santo, com presença também na Bahia. São 1,7 milhão de mulheres dirigindo ou codirigindo propriedades rurais no país. É justamente nessas regiões que o Café Por Elas mais estabelece parcerias, com destaque para São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia; ao longo dos anos, já trabalhou com 30 produtoras parceiras.
Até recentemente, esses grãos vindos de tantas origens eram torrados, ensacados e vendidos para restaurantes, cafeterias e hotéis pela Café Por Elas. Agora, há uma vitrine diária dessas produções para quem quiser pedir – seja para consumir no local, seja para levar para casa. “No último ano, já estávamos nos aproximando do consumidor final e acreditamos que esse contato presencial faz toda a diferença, é construir um relacionamento mais próximo da nossa comunidade”, afirma Nadia.
Em meio a isso, lembraram do antigo desejo de abrir uma cafeteria, que disponibilizasse seus produtos e lhes permitisse soltar a criatividade em algo totalmente próprio, com a cara delas. Quando tudo começou, a ideia inicial era fazer uma cafeteria que servisse os grãos colhidos por sua mãe, mas a logística, que exigia torra, fez com que as duas recuassem e decidissem não pular etapas. Primeiro, mestras de torra; depois, o que viesse.
E o depois chegou, na forma de Cafetina.
O que comer e beber no Cafetina?
Por lá, os seis tipos de café da Café Por Elas estarão disponíveis todos os dias no método coado (a partir de R$ 18) – é possível tomá-lo com dois tipos de extração, a Kalita (percolação pura e simples) e a Gina (mistura de percolação com infusão, por meio de um mecanismo com válvula). O grão para o espresso (R$ 10) varia conforme o dia. Mas nem só de café puro se vive na Cafetina: os amantes de bebidas com nomes complicados, sabores diferentes e xaropes (naturais, claro) também estão bem servidos.
As muitas combinações de leite e café vêm em forma de flat white, macchiato, lattes e um cappuccino à moda, que na verdade é caputina, com “t” e “a”. Um xarope de zaatar mostra as origens libanesas das sócias na xícara, misturando dulçor, cremosidade e um toque herbáceo que dá vontade de pedir mais de um (R$ 23, o zaatar latte). O latte com xarope de cumaru (R$ 24) também promete causar o mesmo efeito em quem bebe.
“A gente está sempre experimentando para saber quais cafés casam melhor com cada tipo de bebida, inclusive com microlotes que vão chegando. É um laboratório, de fato, vamos brincando com nossas bebidas autorais”, afirma Julia.
O “pingado” (R$ 16) no copo marrom-transparente que lembra casas antigas vem com nome, mas também sobrenome. “& torrado” está escrito ao lado no menu, indicando que vem com leite queimado como o de vó. A caputina (R$ 25)? Não entrarei em detalhes, porque, afinal, a graça está em pedir a bebida sem muitas explicações e, enquanto se espera receber “uma bebida trifásica, chega, na verdade, translúcida”. Palavras da dona.
Para comer, as receitas da padeira Marta Carvalho, dona da padaria artesanal Martoca. Tem croissant, pão de queijo, um sanduíche de picanha defumada, queijo padrão e cebola caramelizada, e um combo com pão de fermentação natural, chancliche, hommus da casa e tomatinho confit, honrando as heranças gastronômicas das sócias. Os muffins também são uma excelente pedida, com opções de mirtilo, maçã com noz pecã e com calda de café e cream cheese. Tudo a partir de R$ 14 e chegando a R$ 70, para dividir.
“Nas comidas, também tivemos o cuidado de manter essa relação com as pequenas produtoras rurais, como fazemos no café”, declara Nadia.
Cafetina: o nome
“As pessoas sempre chamavam a gente de rainhas do café, baronesas do café e muitos outros termos, e a gente não se sente nem um pouco assim. Um dia, alguém nos chamou de cafetinas, brincando, e nós gostamos”, contam as irmãs.
“Cafetina é o nosso lado mais brincalhão, experimental, ousado e divertido, pode ter, eventualmente, uma experiência com bebidas alcoólicas, por exemplo. É uma persona diferente, que conversa mais com o nosso lado mais espontâneo e alto astral, enquanto o Café Por Elas é mais sério, de negócios”, destaca Julia.
A casa ‘Por Elas’
Comprometidas com uma estética acolhedora e com a cara delas, as irmãs Nasr colocaram no salão desde louças clássicas de casas antigas, em tons terrosos, até cadeiras, poltronas, sofás e mesas que ornam cantinhos para todos os gostos. Tem espaço para grupos maiores, lugares intimistas para casais, banquetas no balcão perfeitas para quem quer conhecer melhor quem faz tudo que sai dali, e mesas colocadas perto umas das outras que convidam à conversa com o estranho que senta ao lado.
Duas mulheres foram convocadas para a missão de colorir e ilustrar o espaço: Yasmin Sanchez (Yez Yas) e Thereza Nardelli (zangadas tatu). Para a arquitetura e design interior, a inspiração veio das mulheres modernistas, seja em traçados mais surrealistas nos banheiros, um mural com uma mulher vestida de animais que, geralmente, são usados como forma de xingamento contra mulheres – vaca, galinha, etc. – e na mobília com curvas inspiradas no Copan. “A gente queria dialogar com a Santa Cecília [carinhosamente chamada de Santa Cê por Julia] de todas as formas, afinal, uma cafeteria é um negócio local, que faz parte do seu entorno”, Nadia revela.
Serviço
@cafetina___
R. Barão de Tatuí, 183 – Santa Cecília






