Em julho de 2022, o guarda municipal Marcelo Arruda comemorava o aniversário de 50 anos em Foz do Iguaçu, no Paraná, com uma festa decorada com imagens de Lula e do PT. Um policial penal apoiador de Jair Bolsonaro invadiu a celebração armado e matou Marcelo diante da família. Dois meses depois, em Mato Grosso, um trabalhador rural perdeu a vida a facadas pelas mãos de um colega de trabalho após uma discussão sobre política. As duas mortes viraram símbolos de um país que passou a enxergar o adversário como inimigo a ser eliminado.
Os números confirmam o que o noticiário mostrava. O Observatório da Violência Política e Eleitoral da Unirio contabilizou 1.209 casos de violência contra lideranças políticas entre 2019 e meados de 2022, período que coincide com o mandato de Bolsonaro. As organizações Terra de Direitos e Justiça Global registraram, no ano eleitoral de 2022, uma vítima de violência política a cada 26 horas. Militantes, candidatos e eleitores de partidos progressistas, como PT e PSOL, concentraram a maior parte dos ataques.
O discurso veio antes das agressões. Em 2018, em campanha no Acre, Bolsonaro empunhou um tripé como se fosse uma arma e prometeu fuzilar a “petralhada”. No governo, assinou decretos que facilitaram a compra de armas e munições. O número de pessoas com registro de caçador, atirador e colecionador saltou de 117 mil em 2018 para 783 mil em 2022, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública alertaram para o desvio de parte desse arsenal ao crime organizado enquanto o Exército reduzia a fiscalização.
O preconceito também saiu das sombras. A antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, mapeou o avanço de grupos neonazistas no país e encontrou cerca de 200 células em 2018 e 1.117 em 2022. O Conselho Nacional de Direitos Humanos levou o alerta à Organização das Nações Unidas. Mulheres, pessoas negras, indígenas e a população LGBTQIA+ passaram a ouvir em voz alta ofensas que antes muita gente escondia, porque o exemplo vinha do Palácio do Planalto.
A escalada atingiu o próprio Estado em 8 de janeiro de 2023. Milhares de golpistas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília para tentar reverter a vitória de Lula nas urnas. As investigações revelaram um plano de golpe que incluía o assassinato do presidente eleito, do vice Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes. Em 2025, o Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro e aliados a mais de 25 anos de prisão por tentativa de abolir o Estado Democrático de Direito.
O Brasil resistiu. A Justiça puniu quem atacou as instituições, o governo Lula restringiu o acesso a armas e as concessões de registros para CACs caíram quase 80% entre 2022 e 2024. Neste domingo (25), o povo brasileiro voltou às urnas e reelegeu Lula em uma virada inédita contra Flávio Bolsonaro, herdeiro político do pai. Trabalhadores, mães, jovens e famílias inteiras mostraram que nenhum projeto de ódio supera a força de quem luta pelo povo. A democracia sangrou, mas venceu de novo.







