Aproximadamente 3 bilhões de pessoas, o que equivale a quase 40% da população mundial, estão imersas em uma crise de moradia adequada. Esse cenário é marcado por preços inacessíveis, escassez de habitações, condições de baixa qualidade e falta de acesso a serviços urbanos essenciais, como água e saneamento, conforme aponta um novo relatório das Nações Unidas.
As cidades devem receber cerca de 2 bilhões de novos habitantes até 2050, o que aumentará a pressão sobre sistemas habitacionais já sobrecarregados pela urbanização acelerada, elevação dos preços dos terrenos, desigualdade e impactos das mudanças climáticas. A previsão é de que eventos climáticos extremos destruam 167 milhões de moradias até 2040. Em 2023, os danos causados por desastres climáticos somaram US$ 280 bilhões, a maior parte sem cobertura de seguros.
Até o fim de 2024, 123,2 milhões de pessoas estavam deslocadas à força, o dobro do número registrado uma década antes. Além disso, 64 milhões foram removidas de assentamentos informais nos últimos 20 anos. Grande parte dessas pessoas deslocadas se dirige para cidades como refugiados ou residentes de campos, frequentemente vivendo em moradias inadequadas ou inseguras, onde seguem expostas ao risco de novos deslocamentos. Nos países em desenvolvimento, a moradia informal representa até 80% das construções residenciais.
Os preços dos imóveis subiram mais rapidamente que a renda na maioria das regiões do mundo. Globalmente, a relação entre preço da moradia e renda passou de 9,3 em 2010 para 11,2 em 2023, atingindo 16,8 na Ásia Central e Meridional. Em 2023, apenas 25,5% dos solicitantes conseguiram obter financiamento habitacional em todo o mundo. Em algumas regiões da África Subsaariana, esse índice caiu para 1%, evidenciando mercados hipotecários ainda em estágio inicial.
As violações dos direitos humanos estão profundamente interligadas à crise global de moradia, já que muitos países falham em prevenir deslocamentos, despejos forçados, insegurança na posse da terra, situação de rua e condições inadequadas de habitação.
No planeta, 44% dos domicílios comprometem mais de 30% de sua renda com moradia. A falta de acessibilidade dos aluguéis é mais grave na África Subsaariana, onde 55% dos inquilinos e inquilinas enfrentam sobrecarga financeira. Os recursos financeiros internos, em todos os níveis de governo — nacional, regional e local — precisam ser canalizados de forma mais eficaz para subsídios que atendam tanto a demanda quanto a oferta, reduzindo essas lacunas de acessibilidade.
O Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), com mandato focado em habitação sustentável e desenvolvimento urbano, conclui no Relatório Mundial das Cidades 2026 – Crise global de moradia: caminhos para ação que a crise é multidimensional e impulsionada por fatores estruturais. O estudo demonstra que seus efeitos são intensificados por mudanças demográficas, pressões ambientais e transformações econômicas, ampliando desigualdades, pobreza e vulnerabilidade aos impactos climáticos.
“É necessário um novo contrato social para a moradia adequada e acessível — um senso de responsabilidade compartilhada entre governos, setor privado e comunidades para mobilizar investimentos e alinhar as funções sociais e econômicas da habitação”, destaca a subsecretária-geral das Nações Unidas e diretora-executiva do ONU-Habitat, Anacláudia Rossbach.
“Embora a crise da moradia tenha dimensões globais, suas soluções passam pelos territórios. No Brasil, é fundamental fortalecer políticas urbanas que reconheçam as diferentes realidades das cidades e promovam o acesso à moradia adequada como parte do direito à cidade – e temos muitos bons exemplos disso no país”, destaca a chefe do escritório do ONU-Habitat para o Brasil, Rayne Ferretti Moraes.
O relatório também conclui que a crise de moradia pode ser resolvida. Indica que é preciso parar de tratar favelas e assentamentos informais como um problema sem solução, reconhecendo que a informalidade tem sido a regra, e não a exceção, em muitas cidades. As políticas públicas devem, portanto, abandonar abordagens baseadas na erradicação e exclusão, passando a aproveitar o potencial da informalidade para melhorar meios de subsistência e enfrentar a crise habitacional.
O documento destaca ainda que os mecanismos de financiamento doméstico, em todos os níveis de governo, precisam ser ampliados e melhor direcionados, por meio de subsídios eficazes para a demanda e a oferta. Recomenda-se uma expansão substancial dos investimentos públicos em habitação social e acessível, ao mesmo tempo em que se criam incentivos para investimentos privados que ampliem a oferta habitacional, especialmente no segmento de moradias populares.
A participação comunitária e a coprodução, com atenção especial à inclusão de grupos historicamente excluídos, são apontadas como elementos centrais para garantir moradia adequada, tanto na formulação de políticas quanto na implementação de projetos. Esses projetos devem ser concebidos e executados em conjunto com moradores e moradoras, assegurando o envolvimento das comunidades antes e depois da ocupação das habitações.
O relatório foi lançado durante a 13ª sessão do Fórum Urbano Mundial (WUF), principal conferência global sobre desenvolvimento urbano sustentável, realizada em Baku, no Azerbaijão, entre 17 e 22 de maio.
Sobre o Fórum Urbano Mundial
Criado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2001 e organizado pelo ONU-Habitat, o Fórum Urbano Mundial (WUF) é a principal conferência global dedicada à urbanização sustentável. Realizado a cada dois anos, o evento analisa os impactos da rápida urbanização sobre cidades, comunidades, economias e as mudanças climáticas. Desde sua criação, o fórum já foi sediado por cidades de diversas regiões do mundo, com sua primeira edição em Nairóbi, em 2002.
Sobre o ONU-Habitat
O ONU-Habitat é a entidade das Nações Unidas responsável pela promoção da urbanização sustentável. Com programas em mais de 90 países, apoia formuladores de políticas públicas e comunidades na construção de cidades e assentamentos social e ambientalmente sustentáveis. A organização promove transformações urbanas por meio da produção de conhecimento, assessoria em políticas públicas, assistência técnica e ações colaborativas.







