As espinhas figuram entre as maiores queixas relacionadas à pele e podem estar presentes em diversas fases da vida, desde a adolescência até a fase adulta. Entre medicamentos e produtos de skincare, novas alternativas para tratar as lesões surgem o tempo todo. Nos últimos anos, os adesivos para espinhas, conhecidos como patches, conquistaram espaço e se tornaram febre no cuidado com a pele. Com tamanha popularidade, também aumentam as perguntas: será que eles funcionam de verdade?
Para esclarecer o que esses adesivos conseguem fazer, em que situações são recomendados e quais são suas limitações, o GPS|Brasília ouviu os dermatologistas Paula Portilho e Alessandro Alarcão.
Apesar da praticidade, os adesivos não devem ser encarados como um tratamento para a acne. Segundo a especialista, a maioria desses produtos é feita de hidrocoloide, material consagrado em curativos, que auxilia na absorção da secreção e na proteção da lesão. “Os adesivos podem ser úteis, mas é fundamental compreender o que eles realmente fazem. A maioria utiliza hidrocoloide, um material testado por décadas em curativos de feridas, com base no princípio da cicatrização em ambiente úmido. Eles absorvem a secreção da lesão, protegem a área e impedem que a pessoa fique tocando ou apertando a espinha”, detalha.
Alessandro Alarcão acrescenta que o produto pode favorecer a recuperação de certas lesões, porém age de forma pontual. “Eles ajudam, sim, especialmente em alguns tipos de espinha. O adesivo forma uma proteção sobre a lesão, absorve parte da secreção e evita o contato frequente com as mãos. Assim, a espinha tende a ficar menos inflamada, menos elevada e a cicatrizar de modo mais organizado”, diz.
Nem toda espinha responde aos patches
Os melhores resultados aparecem em espinhas superficiais, principalmente naquelas que já exibem uma pontinha branca ou amarelada. “O efeito é melhor em pústulas superficiais, prestes a drenar, em lesões papulopustulosas isoladas e em pessoas que costumam espremer ou mexer nas lesões. Nessa última situação, o ganho é mais comportamental do que farmacológico”, explica a médica.
Cravos e espinhas internas, profundas e doloridas, por outro lado, dificilmente reagem da mesma forma. “Nesses casos, a inflamação ocorre em uma camada mais profunda da pele, onde o adesivo aplicado na superfície praticamente não alcança”, afirma Alessandro. Portanto, quando as lesões são recorrentes, dolorosas ou deixam marcas, o produto não deve substituir uma consulta com o dermatologista.
Hidrocoloide ou com ativos?
Além das versões clássicas, há adesivos que incorporam substâncias como ácido salicílico e niacinamida. “O adesivo de hidrocoloide puro age basicamente como um curativo: absorve a secreção e forma uma barreira física sobre a lesão”, explica Paula. Já os modelos com ativos tentam agregar uma ação específica ao produto.
Ainda assim, uma lista maior de ingredientes não garante mais eficácia. “Ter mais componentes no adesivo não quer dizer que ele será melhor. Em peles sensíveis ou em quem já usa ácidos e outros tratamentos para acne, formulações muito carregadas podem irritar a pele”, alerta o dermatologista.
Paula ressalta que a presença de um ativo conhecido na composição não basta para comprovar a eficácia do adesivo. “Não dá para concluir que um adesivo funciona apenas porque contém um ingrediente com alguma evidência isolada para acne. Para saber se o produto realmente libera uma quantidade eficaz do ativo na pele, seria necessário avaliar a concentração, a formulação, a capacidade de penetração cutânea e, de preferência, contar com um estudo clínico específico daquele item”, explica.
Uma barreira contra o hábito de espremer
Ainda que não trate a acne de maneira global, o adesivo pode cumprir um papel bem relevante: atrapalhar a manipulação da espinha. Apertar ou cutucar a lesão tende a aumentar a inflamação e piorar o aspecto da pele.
“Evitar que a pessoa fique manipulando é provavelmente o maior benefício desses adesivos. Apertar, cutucar ou machucar repetidamente uma espinha intensifica a inflamação e agride ainda mais a pele. Uma barreira física sobre a lesão pode ser muito útil para quem tem esse costume”, afirma Paula.
Alessandro também chama a atenção para esse efeito comportamental. “Muita gente tem o costume de apertar a espinha várias vezes por dia. A cada vez, ocorre um novo trauma e a inflamação pode crescer. Com isso, aumenta também a chance de sobrar uma mancha depois”, explica.
Esse mecanismo pode ajudar a evitar o agravamento do quadro inflamatório, mas não quer dizer que o adesivo, sozinho, previna manchas ou cicatrizes. “Ainda não existem evidências robustas de que o adesivo de hidrocoloide, isoladamente, previna manchas ou cicatrizes de acne”, ressalta a dermatologista. Segundo o médico, lesões profundas podem deixar marcas mesmo sem qualquer manipulação.
E os riscos?
De modo geral, os adesivos de hidrocoloide são bem aceitos, mas podem provocar irritação, coceira ou vermelhidão. “Algumas pessoas podem desenvolver vermelhidão, coceira, irritação ou dermatite de contato, seja por causa do próprio adesivo, da oclusão prolongada ou de algum componente da fórmula”, orienta a especialista.
Nas versões que contêm ácidos ou outros ativos, a atenção precisa ser redobrada. “Não é recomendável aplicar diversos produtos para acne sobre a espinha e ainda tampar tudo com o adesivo. Essa combinação pode intensificar a irritação”, alerta Alessandro.
A orientação dos dermatologistas é usar o produto sobre a pele limpa e seca, direto na lesão, e seguir o tempo de uso indicado pelo fabricante. Se houver ardência, coceira ou irritação significativa, a aplicação deve ser suspensa.
No fim das contas, o adesivo pode ser um ótimo aliado para uma espinha pontual, sobretudo porque protege a área, absorve a secreção e atrapalha a manipulação. Porém, quando as lesões são frequentes, profundas ou dolorosas, o pequeno curativo não substitui o tratamento completo da acne. “Os adesivos funcionam bem como coadjuvantes e curativos. Só não podemos confundir isso com tratar a acne como doença”, resume a médica.







