Especialistas alertam que a possibilidade de um novo episódio de El Niño de forte intensidade em 2026 recoloca os eventos climáticos extremos no centro dos debates. Para além dos impactos ambientais e econômicos, um outro efeito começa a mobilizar profissionais de saúde: como as alterações climáticas podem afetar a pele.
Nos últimos anos, eventos climáticos extremos tornaram-se parte da rotina de muitos brasileiros, com ondas de calor mais frequentes, períodos de baixa umidade, episódios de fumaça de queimadas e piora da qualidade do ar em diversas regiões do país.
Esse contexto pode favorecer mudanças na pele, principalmente por interferir na chamada barreira cutânea, uma proteção natural que ajuda a manter a hidratação e defende o organismo contra agressões externas.
Segundo a médica Telma Giordani, especialista em saúde da pele e medicina estética, a exposição contínua a condições ambientais extremas pode comprometer essa proteção.
“Quando a pele é exposta continuamente ao calor excessivo, ao frio intenso, à baixa umidade ou aos poluentes, essa barreira pode perder eficiência, favorecendo desidratação, inflamações e maior sensibilidade”, explica.
A barreira da pele é a primeira proteção contra agressões externas
Composta por água, lipídios e outras substâncias presentes na superfície da pele, a barreira cutânea ajuda a evitar a perda excessiva de hidratação e dificulta a entrada de agentes externos.
Quando esse equilíbrio é afetado, podem surgir sinais como ressecamento, descamação, vermelhidão, coceira, ardência e sensação de repuxamento.
De acordo com a dermatologista Patrícia Dalboni, esses sintomas costumam se tornar mais evidentes em períodos de frio intenso e baixa umidade.
“Os sinais de alerta costumam ser claros: opacidade, falta de viço, vermelhidão, ardência, descamação, coceira e sensação de desconforto. Nos casos mais graves, especialmente em idosos e pessoas com dermatite, a pele pode apresentar rachaduras que favorecem até infecções”, afirma.
Um hábito comum que pode agravar o ressecamento é o banho muito quente e prolongado.
“É como quando lavamos a louça: a água quente remove a gordura com facilidade. Na pele acontece o mesmo. Quanto mais quente e prolongado o banho, maior tende a ser o ressecamento, porque essa camada natural de proteção também é removida”, explica a dermatologista.
Para preservar essa barreira, a recomendação é manter uma hidratação adequada, especialmente em períodos de clima seco ou frio. Produtos com ingredientes como ceramidas, glicerina, ácido hialurônico, pantenol e niacinamida podem ajudar, dependendo das necessidades de cada pele.
A pele também precisa acompanhar as mudanças do clima
Para Telma Giordani, um dos erros mais comuns é manter exatamente a mesma rotina de cuidados durante todo o ano, sem considerar as variações climáticas.
“Muitas pessoas escolhem os produtos de skincare uma única vez e seguem utilizando-os independentemente das mudanças do clima. Assim como adaptamos nossas roupas às estações, a pele também precisa de ajustes na rotina de cuidados conforme as condições ambientais”, afirma.
Segundo a médica, atualmente existem opções acessíveis para diferentes necessidades da pele, mas isso não elimina a importância da avaliação profissional quando surgem alterações persistentes.
“Não é preciso recorrer aos produtos mais caros para cuidar bem da pele. Hoje encontramos excelentes opções nas farmácias, com respaldo científico e preços acessíveis”, destaca.
“Mas isso não substitui a avaliação individual. Cada pele tem necessidades próprias e, quando surgem manchas, acne, rosácea ou outras alterações, a consulta médica é fundamental para indicar o tratamento mais adequado e evitar o uso de produtos que podem piorar o quadro”, completa a profissional.
Protetor solar continua importante mesmo no frio
Um dos equívocos mais comuns é acreditar que a pele precisa de menos proteção durante dias frios ou nublados. A radiação ultravioleta continua presente ao longo do ano e a exposição acumulada pode contribuir para danos celulares, manchas e envelhecimento precoce.
Além disso, fatores ambientais como poluição e estresse oxidativo também podem participar de processos inflamatórios na pele.
“O protetor solar continua sendo indispensável em qualquer estação. Além disso, em períodos de baixa umidade, é fundamental reforçar a hidratação, utilizar produtos que preservem a barreira cutânea e evitar banhos muito quentes, que removem a camada natural de proteção”, orienta Telma Giordani.
Queimadas e poluição também merecem atenção
A piora da qualidade do ar durante períodos de queimadas também merece atenção. A fumaça contém partículas que podem aumentar o contato da pele com agentes irritantes.
Estudos sobre poluição atmosférica indicam que essa exposição pode favorecer estresse oxidativo e processos inflamatórios, mecanismos relacionados ao envelhecimento da pele e à piora de algumas condições dermatológicas. Em pessoas mais sensíveis, esse cenário pode contribuir para crises de problemas como dermatites e rosácea.
Embora essa relação ainda seja estudada pela ciência, especialistas já consideram o ambiente um fator importante na avaliação dos cuidados com a pele.
“As mudanças climáticas nos mostram que o cuidado com a pele não pode ser estático. Hoje, precisamos olhar para além do tipo de pele e considerar fatores como o ambiente, a poluição, a umidade do ar, a exposição solar e os hábitos de vida. O cuidado personalizado nunca foi tão importante”, assegura Telma Giordani.
Pequenos cuidados podem ajudar a proteger a pele
Embora o clima seja apenas um dos fatores que influenciam a saúde da pele, alguns cuidados simples podem ajudar a preservar a barreira cutânea em períodos de maior exposição a calor, frio, baixa umidade ou poluição. Entre as principais medidas estão:
- Manter a hidratação adequada da pele;
- Evitar banhos muito quentes e demorados;
- Usar protetor solar diariamente;
- Adaptar os produtos conforme as necessidades da pele e as condições ambientais;
- Procurar avaliação médica diante de manchas, coceira persistente, feridas ou alterações que não melhoram.
A pele está em contato permanente com o ambiente. Por isso, especialistas reforçam que uma rotina de cuidados eficaz deve considerar não apenas os produtos utilizados, mas também fatores como clima, exposição solar, poluição e hábitos do dia a dia.







