Policial não se aposenta. Vai para a reserva. E isso diz muito sobre a profissão

No imaginário popular, é comum dizer que um policial “se aposentou”. Mas, tecnicamente, não é assim. O policial militar passa para a reserva remunerada, permanecendo vinculado à instituição e podendo, em situações excepcionais de grave crise na segurança pública, ser novamente convocado ao serviço. Somente mais tarde, ao ser reformado, geralmente por limite de idade, encerra definitivamente qualquer possibilidade de retorno à atividade.

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A diferença entre os termos parece apenas jurídica. Na prática, ela revela muito sobre uma profissão que nunca deixa completamente quem a exerceu.

Depois de mais de 30 anos enfrentando organizações criminosas, facções, ocorrências de alto risco e convivendo diariamente com a violência, será que um policial realmente consegue “descansar”? A experiência adquirida permanece. As marcas também.

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Muitos veteranos encerram a carreira recebendo uma placa de homenagem, uma medalha ou, em alguns casos, tendo seu nome eternizado em uma praça ou em um prédio público. O reconhecimento é importante, mas está longe de responder aos desafios enfrentados por quem dedicou a vida à proteção da sociedade.

A transição para a reserva exige mais do que uma mudança administrativa. Exige apoio psicológico para lidar com uma nova rotina, políticas de valorização do veterano, assistência à saúde e uma remuneração que permita viver com dignidade e segurança. Afinal, quem combateu o crime organizado por décadas, muitas vezes continua convivendo com riscos que não desaparecem no último dia de serviço.

A sociedade costuma reconhecer o policial pelo uniforme. Mas, quando ele o guarda, continua sendo o mesmo homem ou a mesma mulher que enfrentou situações extremas para proteger pessoas que sequer conhecia.

Valorizar os veteranos é reconhecer que a missão não termina quando acabam as escalas. É compreender que poucos chegam ao fim de uma carreira policial sem carregar cicatrizes físicas ou emocionais. E é entender que, em uma profissão onde tantos perderam a vida precocemente, sobreviver para contar a própria história já é, por si só, um feito que merece respeito, proteção e gratidão.

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Gabriela Pacheco Brandão
A Cabo Gabriela Pacheco Brandão é Bacharel em Direito, com pós-graduações em Ciências Criminais e Direito Aplicado. Possui prática forense reconhecida pelo TJES .Na PMES desde 2014, integrou o GAO e atua na Força Tática desde 2017. É formada em cursos como APH Brasil e CPAAR, com sólida experiência operacional e jurídica.
Bastidores da Farda
Bastidores da Farda
Bastidores da Farda é uma coluna especial que abre espaço para que militares compartilhem suas vivências dentro e fora do serviço. Aqui, o leitor encontra relatos, reflexões e bastidores do cotidiano de quem vive o dever de proteger, mas também carrega medos, sonhos e desafios. A proposta é humanizar a farda, aproximando a sociedade da realidade policial e dando voz a quem, todos os dias, está na linha de frente da segurança pública.

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