Levantamento do Banco de Exportação e Importação da Índia (Exim Bank) em parceria com a Federação das Câmaras de Comércio e Indústria da Índia (FICCI) situa o país como o segundo dos Brics em quantidade de produtos com potencial de exportação, atrás somente da China. Divulgado pela agência indiana ANI, o estudo detalha setor por setor o que a indústria indiana já pode vender aos parceiros do bloco e calcula a distância entre essa capacidade e a presença efetiva nos mercados do grupo.
O ponto central do levantamento é uma lacuna: a Índia surge bem colocada entre os produtos competitivos e, ao mesmo tempo, registra participação reduzida nas exportações para os demais membros, situação que o trabalho classifica como potencial ainda não concretizado.
Os Brics reúnem atualmente 11 membros plenos. A relação inclui Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, além de Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos, Indonésia e Arábia Saudita; o grupo também tem dez países parceiros, entre os quais Bolívia, Cuba, Nigéria, Tailândia e Vietnã.
Juntos, os membros plenos somam quase metade da população mundial e cerca de um terço do PIB global. A Índia é o país mais populoso do planeta, com aproximadamente 1,45 bilhão de habitantes, e a quinta maior economia, escala que dimensiona sua indústria, mas não assegura presença comercial automática entre os parceiros.
O levantamento considera os dez países parceiros como mercados adicionais para a mesma cesta de produtos, de Malásia, Tailândia e Vietnã a Nigéria, Cazaquistão e Uzbequistão. São economias que ampliam a lista de compradores possíveis sem modificar o desenho interno de poder do bloco.
A diferença aparece medida produto a produto. O trabalho compara a oferta de cada membro com a demanda estimada dos parceiros e identifica na Índia uma carteira extensa de linhas competitivas que hoje chegam aos mercados do bloco em volume pequeno.
Ranking e segmentos com potencial exportador
A liderança chinesa no ranking completa o cenário. A China ocupa o primeiro lugar em número de produtos com potencial, posição coerente com o peso de sua indústria de máquinas, eletrônicos e equipamentos, que domina boa parte das compras cruzadas dentro do grupo.
Na faixa definida pelo estudo como “estabelecido, alto potencial”, estão produtos farmacêuticos, derivados de petróleo, automóveis e componentes, além de bens de engenharia. São segmentos em que a indústria indiana já atua em escala internacional e busca compradores além dos mercados tradicionais dos Estados Unidos e da Europa.
A relação se estende a setores emergentes, como equipamentos aeroespaciais, componentes automotivos, máquinas especializadas, equipamentos elétricos, produtos médicos, produtos químicos e bens de engenharia avançada.
Em uma segunda frente, o levantamento aponta minerais críticos, armazenamento de energia, equipamentos para renováveis, hidrogênio verde, semicondutores e eletrônicos, fármacos e dispositivos médicos, veículos elétricos, mobilidade avançada e manufatura inteligente.
Boa parte dessa agenda tem programa federal por trás. A Índia lançou em 2023 uma missão nacional para o hidrogênio verde, aprovou em 2025 uma missão para minerais críticos e acumula incentivos à produção local de semicondutores, células de bateria e equipamentos de energia limpa dentro do programa Make in India, criado em 2014.
Fármacos, comércio com o Brasil e moedas locais
O setor farmacêutico mostra como a engrenagem funciona. A indústria indiana está entre as maiores fornecedoras mundiais de medicamentos genéricos e vende princípios ativos para laboratórios de vários países, inclusive o Brasil.
Para o Brasil, a lista interessa em duas direções. O país compra da Índia medicamentos, princípios ativos e componentes industriais e, do outro lado, tem pauta própria para oferecer aos parceiros do bloco em alimentos, minérios e energia.
A conversa sobre pagamento em moedas locais corre em paralelo a esse mapa comercial. O tema continua em discussão dentro do grupo e ainda não se transformou em mecanismo em funcionamento, o que mantém o dólar no centro da liquidação da maior parte das trocas.
Limites do potencial e cooperação no bloco
Potencial mapeado não significa venda fechada. A lista mede competitividade de oferta e demanda estimada nos países parceiros, e o comércio depende de tarifas, frete, financiamento e padrões sanitários que o próprio levantamento reconhece ao recomendar cooperação em cadeias transfronteiriças.
A entrada de novos membros ampliou o mapa de destinos e também o número de fornecedores disputando cada linha de produto, o que torna a lista indiana uma ferramenta de posicionamento, não um corredor livre.
O estudo pede cooperação em manufatura, desenvolvimento tecnológico e pesquisa e inovação para encurtar esse caminho. Propõe cadeias de suprimento regionais que reduzam a dependência de fornecedores de fora do bloco em áreas sensíveis, como semicondutores, minerais críticos e fármacos.
O Exim Bank é a agência que financia a exportação indiana, e o levantamento nasce dentro da instituição capaz de transformar a lista em crédito. O teste dos Brics é saber se essa planilha vira contrato nos próximos anos ou continua como retrato de um mercado que o bloco diz querer construir.







