Samuel Klein, imigrante polonês, abriu a primeira loja das Casas Bahia em 1957, em São Caetano do Sul, São Paulo, e escolheu o nome em homenagem aos clientes nordestinos, muitos deles baianos.
O nome Casas Bahia está gravado na memória de milhões de brasileiros, ligado a eletrodomésticos, móveis e crediário acessível. Pouca gente sabe, porém, que a marca nasceu com um imigrante polonês que vendia cobertores de porta em porta em São Caetano do Sul, no ABC paulista, e batizou o negócio em homenagem aos primeiros clientes: migrantes nordestinos que chegavam a São Paulo em busca de trabalho nas indústrias.
A chegada de Samuel Klein ao Brasil
Samuel Klein nasceu na Polônia em 1923 e sobreviveu ao Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial. Chegou ao Brasil com a esposa e apenas uma mala de roupas, ainda jovem. Sem falar português e sem dinheiro, começou como mascate, vendendo produtos têxteis de porta em porta no ABC paulista, uma região em forte expansão industrial que recebia trabalhadores de todo o país.
Os primeiros anos foram difíceis. Klein percorria as ruas com uma mala pesada, batia de casa em casa e enfrentava rejeições e barreiras de idioma. A persistência e a capacidade de compreender as necessidades dos clientes — muitos também imigrantes ou migrantes internos — foram decisivas para o sucesso que viria.
Por que o nome Casas Bahia
Em 1957, Samuel Klein abriu sua primeira loja física em São Caetano do Sul. O nome não foi escolhido por acaso: Casas Bahia foi uma homenagem aos primeiros grandes clientes do mascate — os migrantes nordestinos, muitos vindos da Bahia, que trabalhavam nas fábricas da região e formavam a base da clientela.
Esses trabalhadores tinham dificuldade para comprar móveis e eletrodomésticos porque não conseguiam crédito em bancos nem tinham comprovação de renda formal exigida pelas lojas tradicionais. Klein percebeu essa lacuna e criou um modelo de negócio baseado na confiança: vendia a prazo sem burocracia, aceitando apenas o nome, o endereço e a palavra do cliente.
A estratégia deu certo. A inadimplência permaneceu baixa porque Klein conhecia pessoalmente muitos clientes e porque o respeito mútuo sustentava a relação comercial. A loja cresceu rápido e conquistou a fidelidade de uma clientela que se sentia acolhida e respeitada.
A expansão e o modelo de crediário popular
A partir da década de 1960, a Casas Bahia expandiu-se para outras cidades de São Paulo e, depois, para outros estados. O modelo de vendas a prazo, sem consulta a órgãos de proteção ao crédito e com prestações acessíveis, tornou-se a marca registrada da empresa e ajudou a democratizar o acesso a bens duráveis no Brasil.
De acordo com dados históricos da própria empresa, na década de 1990 a rede já tinha centenas de lojas e atendia milhões de clientes por ano. O carnê de pagamento, preenchido à mão e guardado com cuidado pelos clientes, virou símbolo de conquista para famílias que compravam a primeira geladeira, o primeiro fogão ou a primeira televisão.
A Fundação Getulio Vargas realizou estudos sobre o varejo popular brasileiro que ressaltaram o papel de empresas como a Casas Bahia na inclusão de consumidores de baixa renda no mercado formal, especialmente em períodos de estabilização econômica como o Plano Real.
O legado de Samuel Klein e a transformação digital
Samuel Klein permaneceu à frente da empresa até idade avançada, mantendo uma gestão centralizada e familiar. Ele faleceu e deixou um império varejista com inúmeras lojas físicas e presença digital consolidada.
Depois de sua morte, a Casas Bahia passou por fusões e reestruturações. Havia se fundido ao Grupo Pão de Açúcar, formando a Via Varejo (atual Via), holding que também controla a marca Ponto Frio. A empresa enfrentou desafios com a aceleração do comércio eletrônico e a concorrência de varejistas digitais, mas continua entre as maiores redes de varejo do Brasil.
Conforme a Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE, o varejo de móveis e eletrodomésticos movimenta bilhões de reais por ano no Brasil, e a Casas Bahia segue como uma das principais players do setor, com forte presença em marketplaces e vendas online.
O nome que virou sinônimo de crediário e confiança
A força do nome Casas Bahia vai além da estratégia comercial. Ele representa uma história de superação, acolhimento e respeito mútuo entre um imigrante e migrantes internos — todos em busca de uma vida melhor. O carnê amarelo, as prestações semanais pagas em dinheiro nas lojas e o atendimento sem distinção de classe marcaram gerações de consumidores.
Hoje, o nome continua presente na rotina de milhões de brasileiros, seja nas lojas físicas espalhadas pelo país, seja no aplicativo ou no site. A transformação digital trouxe novos desafios, mas a essência do negócio — facilitar o acesso a produtos essenciais para quem tem renda limitada — permanece como parte da identidade da marca.
A trajetória da Casas Bahia também foi tema de estudos acadêmicos sobre varejo, inclusão financeira e empreendedorismo imigrante no Brasil, sendo citada como exemplo de adaptação cultural e compreensão profunda do mercado local.







