Mais da metade dos jovens se sente ansiosa, triste e impotente diante das mudanças no planeta. Esse quadro tem nome: ecoansiedade.
Você conseguirá o emprego? O que os exames médicos vão mostrar? E o que quer dizer aquele e-mail vago e ameaçador enviado pelo seu chefe?
Conviver com a incerteza e com a mudança sempre foi um desafio — para algumas pessoas mais do que para outras, afirma Michel Dugas, professor de psicologia da Universidade de Quebec em Outaouais. Há ainda as transformações aceleradas na política, na tecnologia e em outros campos.
Qualquer pessoa pode se beneficiar ao se sentir mais confortável com a incerteza, ensina ele.
“A incerteza é uma parte essencial da vida, seja nos relacionamentos, na saúde ou nas finanças”, diz Dugas. “Aprender a lidar com ela é uma habilidade fundamental para a qualidade de vida.”
Com esforço, a incerteza pode não apenas ser tolerada, mas também acolhida.
“Não seria um pouco entediante se você sempre soubesse o que vai acontecer?”, questiona ele.
Por que a incerteza nos incomoda
O desconforto diante da incerteza existe em um espectro contínuo e varia conforme as circunstâncias, afirma Nick Carleton, professor de psicologia da Universidade de Regina, em Saskatchewan, no Canadá. Uma caixa fechada pode parecer interessante quando está cercada de balões, amigos e cheiro de bolo. Mas, abandonada em uma estação de metrô, a sensação é bem diferente.
Um certo grau de cautela faz sentido do ponto de vista evolutivo.
“As pessoas que adoravam a incerteza provavelmente entraram em cavernas onde não deveriam e não conseguiram se reproduzir”, diz ele. “Por outro lado, também não se pode ter medo demais da incerteza, porque as pessoas que nunca saíram da zona de conforto provavelmente morreram de fome.”
Respostas imediatas na palma da mão
Jeroen van Baar, pesquisador de epidemiologia psiquiátrica da Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston, e seus colegas analisaram 137 estudos que usaram a mesma escala para medir a “intolerância à incerteza” entre estudantes universitários desde a década de 1990. O termo descreve pessoas cuja reação ao desconhecido é muito mais intensa do que a situação justificaria.
Eles verificaram que as pontuações médias aumentaram de forma substancial.
Uma teoria é que os smartphones agravaram o problema ao eliminar muitas oportunidades cotidianas de praticar o “não sei”. Você pode nunca mais se perder. Pode avisar alguém se estiver atrasado e resolver na hora qualquer discussão de bar sobre fatos triviais.
“O fato de as pessoas carregarem celulares nos bolsos permite saber quase tudo instantaneamente”, afirma van Baar. Isso pode ter “dado às pessoas menos oportunidades de se acostumar com a incerteza e de experimentar a sensação de que está tudo bem quando não se sabe o que vai acontecer”.
Pratique viver sem uma resposta
Quando o desconforto com a incerteza se transforma em ansiedade e interfere na vida diária, as pessoas devem buscar ajuda profissional, orienta Dugas. Os tratamentos podem incluir a exposição à incerteza de forma segura.
Uma das pacientes de Dugas, extremamente preocupada com as notas, foi orientada a esperar 48 horas antes de checar na internet o resultado de uma prova. O sofrimento dela foi intenso no começo, afirma o professor, mas diminuiu consideravelmente no segundo dia.
“A aprendizagem só acontece de verdade quando você vivencia aquilo que teme”, diz ele.
Experimentos menores podem incluir deixar o celular em casa por um breve período ou tomar uma decisão de baixo risco sem pedir a opinião de outras pessoas.
Quando surgir um problema real, diz Ryan Jane Jacoby, psicóloga clínica e pesquisadora do Hospital Geral de Massachusetts, resista à tentação de eliminar todas as incógnitas. Quando os planos de uma viagem forem interrompidos, por exemplo, pergunte-se se o problema está sob seu controle e se pode ser resolvido.
Se possível, reduza as possibilidades a três ou quatro opções razoáveis, avalie as vantagens e desvantagens de cada uma e tome uma decisão. Depois, resista à tentação de ficar reconsiderando.
“Provavelmente não existe uma escolha perfeita”, diz ela.
Quando nada mais pode ser feito, Ryan recomenda mudar o foco da resolução de problemas para a aceitação. A atenção plena ou uma atividade envolvente podem redirecionar o foco de pensamentos repetitivos para o presente.
Pense como uma criança e esteja aberto a surpresas
Aceitar a incerteza não significa ignorar o perigo, suprimir a decepção ou insistir que todo revés é positivo.
Em seu livro “Confortável com a Incerteza”, a proeminente budista americana Pema Chodron escreve que os praticantes são guerreiros da não agressão que aceitam que nunca podem saber o que acontecerá a seguir.
“Nunca se pode evitar a incerteza”, escreve ela. “Esse não saber faz parte da aventura.”
Carleton recomenda reconhecer as emoções negativas. Em seguida, pergunte-se se algo valioso pode surgir da preocupação, sem presumir que isso acontecerá.
Ryan sugere lembrar como era ser criança, quando as surpresas eram emocionantes.
“As crianças gostam de imprevistos, e, à medida que as pessoas envelhecem, tendem a se preocupar mais e a pensar em todas as possíveis incertezas”, diz ela.
Dugas acrescenta: “Se você não for capaz de lidar com o fato de que o universo é incerto, terá muita dificuldade em ser feliz e ter uma boa qualidade de vida.”







