Há alguns anos, o tema da censura retornou às rodas de conversa e ao debate político. Muitos artistas e celebridades passaram a se sentir tolhidos por causa de seu humor ou seus posicionamentos “politicamente incorretos”.
Há quem diga se sentir privado de sua liberdade de expressão e quem afirme que a liberdade de expressão tem seus limites. Nesta campanha eleitoral, essas visões se refletem nas campanhas políticas retiradas do ar e da “nuvem” por conterem elementos de desinformação, ou seja, são julgadas como “fake news”.
A censura, no entanto, não é novidade para a música e para as demais manifestações artísticas. Embora seja muito comum em regimes autoritários, o ato de impedir que artistas se expressem plenamente por suas obras pode ocorrer em outros momentos e de outras maneiras.
Um bom exemplo é a apresentação dos Rolling Stones no famoso Ed Sullivan Show no dia 15 de janeiro de 1967. Para não causar problemas com a audiência daquele programa, foi solicitado à banda britânica que a frase let’s spend the night together (vamos passar a noite juntos) fosse substituída por let’s spend some time together (vamos passar um tempo juntos). A sugestão foi dada para se evitar a conotação sexual implícita na versão original dessa canção.
The Rolling Stones -The Ed Sullivan show-Ruby Tuesday – Let’s Spend “some time” Together.
Esse fato aconteceu nos Estados Unidos, conhecidos como a maior democracia do mundo. Essa fama, no entanto, não impediu que o puritanismo de seu povo impusesse limites aos músicos da terra da rainha Elizabeth.
Décadas depois, quando o Brasil começava a viver uma democracia, um grupo brasileiro passaria por uma situação semelhante. O ano era 1988 e o Legião Urbana havia estourado nas rádios com seu clássico Faroeste Caboclo.
Como era muito comum na época, o grupo recebeu um convite para tocar a história de João do Santo Cristo no Globo de Ouro. Só havia uma única exigência. Substituir a frase com o cu na mão por um verso mais polido, isso eu não faço não. O argumento era que o horário em que o programa ia ao ar não permitiria o uso de um palavreado de baixo calão como o empregado pela canção.
Legião Urbana – Faroeste Caboclo | Globo de Ouro 1988
Pode-se argumentar que, nos dois casos, não houve uma censura, pois as duas músicas, em suas versões originais, já circulavam livremente sem qualquer barreira. Pode ser verdade, mas não se pode negar que, apesar disso, os dois grupos não puderam se expressar como queriam.
Como sabemos, as ditaduras nos fornecem exemplos muito mais chocantes do que esses dois. Alguns pouco conhecidos e que causam surpresa até os dias de hoje. Esse é o caso de Odair José, um dos músicos mais censurados pelo regime militar que vigorou de 1964 a 1985.
Ele teve cerca de 40 obras vetadas ou modificadas pelos censores daquele período. Dentre elas, destacam-se Eu vou tirar você desse lugar, que tratava do amor de um homem pela prostituta que o atendia, e Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula), considerada uma afronta à política oficial de incentivo ao crescimento populacional e de programas de controle de natalidade.
Odair José – Vou Tirar Você Desse Lugar (Pseudo Video)
Uma Vida Só (Pare De Tomar A Pílula)
Seja qual for a época, a expressão artística é sempre vista com cautela e desconfiança, principalmente pelos setores mais conservadores da população. Esse tipo de zelo, porém, serve também para nos alertar sobre o momento em que vivemos.
Uma era sombria e autoritária pode estar próxima quando esse cuidado começa a ficar excessivo e acompanhado por reações violentas a expressões contrárias à moral ou ao pensamento vigente. Por isso, é preciso prestar atenção ao trato que uma sociedade dedica aos seus artistas para que não retornemos àquele tempo de controle e vigilância de tudo, inclusive de nossas músicas.






