Poucos livros carregam com tanta força o título de grande romance americano quanto “Moby Dick”, de Herman Melville, que completa 175 anos em 2026. A trajetória da obra, no entanto, está longe de ter sido gloriosa desde o início. Lançado em 1851, primeiro em Londres e semanas depois em Nova York, o romance foi recebido com estranheza pela crítica e vendeu pouco. Quando Melville morreu, em 1891, estava praticamente esquecido como escritor.
A história é conhecida mesmo por quem nunca abriu o livro. O marinheiro Ismael embarca no baleeiro Pequod, comandado pelo capitão Ahab, que perdeu uma perna em um confronto com um enorme cachalote branco. A viagem, que deveria ser uma expedição comercial, se transforma na perseguição obsessiva do capitão à baleia. Melville conhecia bem esse universo. Em 1841, ele próprio embarcou em um baleeiro, e a experiência no mar alimentou boa parte de sua obra. O romance também se inspirou em episódios reais, como o naufrágio do navio Essex, afundado por um cachalote em 1820.
O que afastou os leitores do século 19 foi justamente a forma do livro. Ao longo de 135 capítulos e um epílogo, a narrativa de aventura se mistura a trechos que parecem ensaios, descrições técnicas da caça e do processamento das baleias, reflexões filosóficas e cenas escritas como peças de teatro. Para o público da época, acostumado a romances lineares, o resultado soou confuso e desequilibrado.
A redescoberta começou décadas depois. Por volta do centenário de nascimento de Melville, em 1919, críticos e professores passaram a reler sua obra, e a primeira biografia do autor saiu em 1921. Em 1923, o escritor britânico D. H. Lawrence dedicou ao romance um ensaio entusiasmado. O reconhecimento definitivo veio em 1941, com o estudo “American Renaissance”, do crítico F. O. Matthiessen, que colocou Melville no centro do cânone dos Estados Unidos. Nessa época, a fragmentação que antes incomodava passou a ser vista como ousadia, em sintonia com as experiências dos escritores modernistas.
A riqueza do livro está também na quantidade de leituras que ele permite. A baleia branca já foi interpretada como símbolo de Deus, do mal, da natureza indomável e do desconhecido. Ahab foi lido como retrato do autoritarismo, sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, e como encarnação de uma ambição que transforma tudo em recurso a ser explorado. Questões como o imperialismo, a escravidão, a convivência entre povos e a relação destrutiva entre a humanidade e o meio ambiente aparecem ao longo do romance e mantêm a obra atual.
Para quem quer encarar o livro, a principal recomendação é não esperar uma aventura convencional. Os capítulos que parecem se afastar da caçada fazem parte da proposta, e pular essas partes significa perder boa parte da experiência. Depois de “Moby Dick”, vale conhecer textos mais curtos de Melville, como o conto “Bartleby, o Escrivão”, de 1853, e as novelas “Benito Cereno”, de 1855, e “Billy Budd”, publicada só em 1924. Outra boa leitura é “A Letra Escarlate”, de Nathaniel Hawthorne, amigo de Melville e homenageado na dedicatória do romance.







