Há anos, levantamentos sobre o tema colocam o Brasil entre os países com os piores índices de violência nas escolas. Os números revelam uma rotina de agressões físicas e psicológicas que, nos casos mais graves, termina com a morte de crianças e adolescentes dentro do lugar que deveria protegê-los. A onda recente de ataques extremistas contra escolas não surgiu do nada. É a face mais trágica de um problema que vem sendo ignorado há muito tempo.
Os estudos sobre esses ataques apontam motivações recorrentes. Ódio, ressentimento, desejo de vingança e ideologias extremistas aparecem com frequência, muitas vezes associados à misoginia, ao racismo, à intolerância com a diversidade e ao preconceito contra pessoas com deficiência. Esse quadro mostra que o sofrimento calado de estudantes submetidos a humilhações diárias pode se transformar em perigo real quando a escola não consegue agir e acolher e quando a família não acompanha de perto a vida dos filhos.
Por trás dessa dor costumam estar traumas não tratados, isolamento, falta de afeto e a sensação de não pertencer a lugar nenhum, seja na escola, seja no círculo social, seja dentro de casa. Nesse vazio, a tecnologia ocupa um espaço perigoso. Pais e mães sobrecarregados acabam liberando o uso excessivo de telas, na crença de que ter o filho em casa já é garantia de segurança. Mas o mundo digital atravessa as paredes do quarto com aparência de diversão.
Sem uma presença atenta e afetuosa por perto, crianças e adolescentes passam a buscar atenção e reconhecimento na internet. É justamente aí que atuam redes organizadas de aliciamento, que se aproximam oferecendo escuta, acolhimento e companhia constante. O que começa como amizade virtual pode terminar em radicalização.
Os dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania confirmam que as agressões mais comuns no ambiente escolar são emocionais, como constrangimentos, ameaças, tortura psicológica, injúrias e bullying. Esse conjunto de violências, que vai do assédio moral à agressão física, exige uma resposta mais firme e coordenada no estado, onde episódios ocorridos dentro de escolas já deixaram feridas que não se fecham.
O país deu passos importantes na legislação. A Lei nº 13.663, de 2018, obriga as escolas a desenvolver ações de conscientização, prevenção e combate a todas as formas de violência, com atenção especial ao bullying, e a adotar medidas que promovam a cultura de paz. A lei, porém, não basta por si só. O tempo de apenas conscientizar e promover debates já passou.
O momento pede projetos, políticas públicas e ações institucionais capazes de oferecer apoio concreto às escolas. Isso inclui proteger diretores e equipes pedagógicas de cobranças injustas por situações que fogem ao controle deles. Inclui também investir na formação de pais e educadores, para que saibam reconhecer mudanças de comportamento que possam indicar aliciamento nas redes. A segurança e a saúde mental dos estudantes dependem de um pacto verdadeiro entre poder público, famílias e sociedade.







