O que o silêncio do voto do pequeno empresário tem a ensinar ao campo progressista brasileiro?

Sou um pequeno empresário e estou à frente de um negócio há mais de 7 anos. Apesar dos ataques, dos custos e de todo o peso e ódio que surgiram no caminho, sigo acreditando em justiça social e defendo garantias trabalhistas. No entanto, preciso alertar sobre a cegueira que vem afetando setores do campo progressista e contribuindo para empurrar centenas de milhares de pequenos empresários para a extrema-direita.

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É angustiante assistir a setores da esquerda desdenhando de donos de pequenos negócios. Pessoas que dedicam suas vidas a jornadas de trabalho exaustivas e desumanas para manterem seus negócios funcionando são tratadas, por alguns setores, como se estivessem no mesmo balaio de banqueiros herdeiros da Faria Lima.

Pequenos empresários sentem nos ombros, todos os dias, o peso desproporcional de sustentar o Estado brasileiro, as elites, os herdeiros, igrejas bilionárias e toda uma rede de super-ricos isentos de impostos e repletos de privilégios.

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O pequeno empregador, que adoece trabalhando para cumprir obrigações e regras cruéis, é o mesmo que ainda precisa ter saúde para lidar com o ódio e o achincalhamento de setores desinformados, e a gente precisa falar sobre isso!

Dados do Sebrae e do Caged comprovam que as micro e pequenas empresas sustentam cerca de 60% de todos os empregos formais com carteira assinada deste país e representam mais de 95% dos negócios ativos. Segundo o IBGE (Cempre), empresas com até 19 ou 20 empregados representam mais de 96% de todas as empresas com funcionários contratados no Brasil. Negócios com centenas ou milhares de funcionários são uma fração minúscula, inferior a 2% do total.

Se diante de uma semana ruim de vendas causada por fatores adversos como chuvas, altas temperaturas, El Niño, insegurança urbana ou qualquer externalidade o pequeno empresário tiver que adiar prazos para quitar dívidas, ele imediatamente é colocado no lugar de vilão e culpado.

Sem suporte do Estado, sem saúde física e mental, milhões de pequenos empresários fecham as portas todos os anos. Pessoas reais, que abriram mão da carteira de trabalho para viver a aventura de empreender em um país onde o Estado pune o trabalhador e o trabalhador, em vez de cobrar do Estado, pune outros trabalhadores.

A extrema-direita vende o discurso fácil da austeridade e ilude o pequeno empresário. Já a esquerda, que perdeu a capacidade de ler Marx e interpretá-lo, mede o pequeno com a mesma régua do grande, em vez de trazê-lo para perto e oferecer soluções reais, como isenção tributária condizente, crédito facilitado, renegociação acessível de dívidas e tantos recursos possíveis para garantir que estes empregadores sobrevivam no mercado.

A realidade dos números que o IBGE traz por meio da Pnad Contínua é que mais de 40% dos donos de micro e pequenas empresas tiram por mês menos dinheiro do que os próprios funcionários que ocupam cargos de chefia.

Uma pequena empresa do Simples Nacional que paga cerca de 5 a 6 mil reais brutos a um funcionário, na verdade está desembolsando entre 9.500 e 10.500 reais mensais, enquanto o trabalhador terá um valor líquido com descontos superiores a 1.000 reais. Ou seja: o empregador paga quase o dobro e o funcionário também deixa de receber. E quem fica como vilão? Dificilmente o Estado, pois este está muito bem protegido nas cortinas de fumaça criadas por canalhas metidos em escândalos bancários, orgias, rachadinhas e negociatas obscuras.

O dono do negócio muitas vezes não consegue tirar 2 ou 3 mil reais e trabalha sem folga, sem férias, exausto, sem garantias e sem nenhum suporte público.

É ótimo que o empregado tenha suas férias remuneradas, seu décimo terceiro, seu FGTS e sua proteção garantida por lei. É justo debater o fim da escala 6×1, mas é inaceitável ver a classe política em silêncio ignorando que cerca de 70% dos micro e pequenos empresários brasileiros enfrentam burnout, ansiedade crônica e sintomas graves de esgotamento ligados ao risco de inadimplência e à solidão decisória, segundo pesquisas da FGV e do Sebrae.

Segundo dados da FGV e de entidades do comércio, mais de 45% dos pequenos proprietários relatam trabalhar acima de 50 horas por semana, com cerca de 20% cumprindo jornadas superiores a 60 horas semanais, trabalhando de 10 a 12 horas por dia, de segunda a sábado ou domingo.

O isolamento do comando no pequeno negócio impede a criação de redes de apoio psicológico, transformando o estresse contínuo de conviver com a instabilidade do caixa, em adoecimento mental incapacitante. Em estudo internacional da Universidade de Oxford, ao cruzar dados de insolvência com mortalidade, constatou-se que indivíduos em processos de perda patrimonial grave chegam a apresentar uma razão de chances cerca de 5,5 vezes maior para tentativas de suicídio em relação à população com estabilidade financeira.

Além disso, relatórios da Organização Internacional do Trabalho colocam o Brasil na 94ª posição mundial em produtividade por hora trabalhada, o que amplia a sobrecarga operacional que só quem abre as portas de um negócio no Brasil compreende.

São milhares de empresas abertas com muito capital criativo e quase zero capital financeiro, que operam sem margem, sem capital de giro e ao sabor do destino. Para o pequeno, uma semana de tempestade, um transformador queimado na esquina, uma crise climática ou um dia fraco de movimento já colocam a operação no vermelho. Diante desse estrangulamento, é compreensível que mais de 60% dos pequenos negócios quebrem antes de completar cinco anos, segundo o IBGE. Caso o negócio feche, o dono não tem direito a seguro-desemprego e responde com o próprio patrimônio pessoal e CPF.

Qualquer tom arrogante que desumaniza quem vive em função de manter um pequeno negócio em pé e uma folha de pagamento em dia só fortalece a extrema-direita, os grandes especuladores, os monopólios e as multinacionais.

O discurso de ódio contra pequenos empreendedores não combate o grande capital: apenas destrói pontes e empurra a classe média produtiva e os pequenos comerciantes para os braços do extremismo.

Respeitar o trabalhador é obrigação, mas fingir que o pequeno empresário brasileiro é um monstro insensível, e não outro trabalhador operando no limite da sobrevivência, é de uma desonestidade que só ajuda a destruir o emprego no país.

​​Espero que estas eleições ensinem ao campo progressista que não se conquista separando, ridicularizando e julgando quem está fora de qualquer bolha ideológica, porque está ocupado demais trabalhando para sobreviver!

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Fabrício Costa
Fabrício Costa
Geógrafo e mestre pela UFES, Fabrício é o coração d'A Oca, no Centro de Vitória. Entre mapas e afetos, trocou o rigor técnico pela potência da arte e gastronomia. Bruxo, poeta e múltiplo, faz do seu território um espaço de acolhida, resistência e evolução constante.

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