A história do cinema é pródiga em encontros à mesa que, pensados para serem amenos, acabam mergulhando no caos. Essa é exatamente a premissa de O Convite, o novo trabalho de Olivia Wilde como diretora, já em exibição nos cinemas do país. Na trama, Joe (Seth Rogen) e Angela (Wilde) formam um casal em crise e decidem chamar os vizinhos do andar de cima, Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton), para um jantar de aproximação. A leitura da crítica indica que a produção, mesmo carregando a herança do teatro filmado, escapa da artificialidade graças a um elenco afiado e a um argumento que converte o mal-estar cotidiano em sua grande força narrativa.
A evolução de Wilde à frente das câmeras reúne os analistas. Isabela Boscov enxerga um amadurecimento técnico relevante na cineasta e sublinha como ela ocupa o espaço físico — dois apartamentos interligados — para gerar uma desorientação geográfica que beneficia a história. Waldemar Dalenogare compartilha essa percepção e exalta a capacidade da diretora de converter restrições espaciais em ganhos cinematográficos. Para ele, a fotografia inteligente, que se vale de espelhos e da fragmentação das cenas, impede que a obra caia na sensação de peça filmada. Peter Bradshaw, do jornal inglês The Guardian, ressalva que o longa se abre com um maneirismo excessivo, no qual a trilha musical acentua cada fala de maneira estridente, mas reconhece que o recurso afortunadamente se dissipa com o passar da projeção.
Roteiro e referências
O roteiro, de Rashida Jones e Will McCormack, é definido por Boscov como uma “delícia”, com diálogos refinados que parecem espontâneos e envolventes. Para Dalenogare, a escrita se comporta como um “anti-romance”, colocando a irritação e o incômodo como propulsores de uma narrativa que ultrapassa a comédia superficial. Bradshaw, por sua vez, encontra paralelos instigantes com Deus da Carnáge, de Roman Polanski, e O Jantar dos Idiotas, e observa que a produção tem um espírito “clamoroso e quereloso”, com mudanças de tom bruscas que dialogam com o teatro de jantar — ainda que se tornem assimiláveis pelo carisma do conjunto.
Elenco em sintonia
As atuações surgem como um dos maiores trunfos do filme, sem divergências entre os críticos. Bradshaw aponta Seth Rogen como o responsável por arejar a atmosfera: o ator usa o riso característico e comentários irônicos para pontuar situações absurdas, evitando que tudo soe postiço. Boscov acrescenta que Rogen expõe camadas mais profundas da personagem, enquanto Edward Norton, segundo a mesma análise, aparenta se divertir claramente com o texto. Penélope Cruz é eleita por Dalenogare o ponto alto do elenco, irradiando uma “confiança erótica intimidadora” que empurra os demais a encararem as próprias fragilidades. Boscov corrobora o elogio e compara a entrega da atriz àquela vista em Vicky Cristina Barcelona.
O incômodo como matéria-prima
Dalenogare acredita que a construção desse incômodo é o que garante o impacto do filme: a montagem incisiva faz com que diálogos banais se tornem estocadas em tabus, entre eles a rotina sexual desgastada do casal. Bradshaw, por seu lado, entende que a capacidade de Wilde e do elenco de equilibrar o constrangimento com instantes atraentes e, ocasionalmente, comoventes dá à produção uma qualidade singular. Boscov encerra a leitura definindo O Convite como uma comédia sofisticada, que recupera a elegância de obras de outras décadas, tendo a palavra como centro de tudo. Ao fim, a avaliação majoritária é a de um filme que, partindo de uma rusga entre vizinhos, ecoa ao expor, entre ironia e exatidão, as angústias da convivência a dois.







