Ana Castela, que apareceu em foto com Nikolas Ferreira, teria recebido R$ 12,2 milhões em shows bancados por recursos públicos
Contratações financiadas com verba pública para shows da cantora Ana Castela teriam somado R$ 12,265 milhões em 2024, total distribuído por 17 apresentações em diversas cidades do Brasil, conforme levantamento da Revista Fórum. De acordo com a publicação, os cachês individuais oscilam entre R$ 450 mil e R$ 850 mil por apresentação.
O estudo relaciona os dispêndios a verbas oriundas de emendas parlamentares e alega que os repasses estariam ligados a deputados e senadores de legendas do Centrão e de partidos de direita. A própria Revista Fórum, no entanto, admite que ainda não conseguiu identificar formalmente os autores das emendas correspondentes a cada contrato examinado.
Essa observação tem relevância, pois o fato de uma prefeitura contratar um artista e o município receber uma transferência orçamentária da União não comprova, por si só, que um parlamentar específico tenha direcionado verba para aquele espetáculo. Para estabelecer essa conexão, é necessário rastrear o percurso completo: emenda, instrumento de repasse, execução na prefeitura e contrato artístico.
Pelos dados divulgados no levantamento, Ana Castela está entre os cantores sertanejos com os maiores montantes em contratações públicas mapeadas ao longo de 2024. A publicação soma 17 shows e chega a R$ 12,265 milhões em pagamentos ou gastos vinculados a essas apresentações.
Cachês teriam alcançado R$ 850 mil por apresentação
Dentre os contratos citados, os cachês mais altos teriam atingido R$ 850 mil. A reportagem menciona shows em Nova Lima (MG) e Afonso Cláudio (ES) nesse valor.
No extremo oposto, uma apresentação em Jacarezinho (PR) teria custado R$ 450 mil aos cofres municipais. Entre esses limites, há outros shows com cifras distintas, que compõem o montante total apurado pelo estudo.
O pagamento de artistas por prefeituras para festas, feiras agropecuárias, aniversários de municípios e grandes celebrações culturais virou alvo de atenção crescente quanto à procedência do dinheiro e à adequação dos valores. Em alguns casos, as administrações municipais bancam os eventos com arrecadação própria; em outros, recorrem a repasses estaduais ou federais, inclusive verbas de emendas parlamentares.
Sobre Ana Castela, a publicação afirma que os shows analisados tiveram financiamento público associado a emendas. Ao mesmo tempo, informa que ainda não foi possível determinar nominalmente qual congressista seria responsável por cada transferência.
Diante disso, com base nos dados tornados públicos pelo levantamento, não se pode vincular individualmente um show ou pagamento a um parlamentar específico.
Levantamento relaciona despesas a partidos do Centrão e da direita
A Revista Fórum sustenta que os valores examinados teriam vindo de emendas de parlamentares de partidos como PL, PP e Republicanos, além de outras siglas enquadradas pela publicação como integrantes do Centrão ou de direita.
O material menciona nomes de políticos ligados a essas legendas para contextualizar o estudo, porém não traz, nos dados divulgados, a correlação documental entre cada pessoa citada, número de emenda, cidade beneficiada e contrato específico da cantora.
Essa diferença impede que se considere comprovado um repasse individual feito por qualquer um dos citados sem a identificação do respectivo instrumento orçamentário.
O debate ganhou repercussão política depois que Ana Castela surgiu em uma foto com o deputado federal Nikolas Ferreira na Festa do Peão de Barretos. Na imagem citada pela reportagem, os dois aparecem fazendo um gesto ligado ao número eleitoral 22.
A fotografia, contudo, é um episódio à parte das contratações públicas de 2024 e não prova, por si mesma, qualquer relação entre a artista, um parlamentar e a fonte orçamentária dos espetáculos.
A ligação entre os dois temas vem do enfoque do levantamento, que cruza o histórico de shows bancados pelo poder público com o episódio político protagonizado pela cantora.
Contratações no Centro-Oeste somaram centenas de milhões
O estudo integra uma investigação mais ampla sobre os gastos municipais com espetáculos. Conforme dados reunidos pela revista, prefeituras de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul teriam destinado R$ 211,679 milhões a 1.856 contratos de shows em 2024.
Desse montante, R$ 189,085 milhões teriam sido desembolsados por municípios comandados por partidos enquadrados pela publicação como do Centrão ou de direita.
Os dados indicam Goiás como o estado com maior volume de contratações, somando R$ 132,743 milhões. Mato Grosso aparece na sequência, com R$ 59,125 milhões, e Mato Grosso do Sul, com R$ 19,810 milhões.
Os números estaduais do levantamento, no entanto, pedem cautela metodológica: a soma dos três valores apresentados excede o total de R$ 211,679 milhões informado para a região. Essa discrepância não é explicada no material divulgado e, sem documentação complementar, não permite afirmar qual cifra deve ser considerada correta.
Quando a análise considera o partido dos prefeitos à frente das administrações municipais, a publicação indica União Brasil com R$ 39,742 milhões em 312 contratos, seguido por MDB, com R$ 34,559 milhões em 258 contratações.
PSDB aparece com R$ 23,729 milhões em 132 contratos; Republicanos, R$ 19,957 milhões em 126; PP, R$ 18,701 milhões em 142; e PL, R$ 9,104 milhões espalhados por 95 contratos.
Esses dados dizem respeito à legenda das prefeituras apontadas no estudo e não implicam, por si sós, que os diretórios nacionais ou dirigentes desses partidos tenham autorizado ou bancado diretamente os shows.
Ana Castela aparece entre artistas com maiores contratos
No recorte específico do Centro-Oeste, Ana Castela teria embolsado R$ 2,24 milhões em três contratos firmados por três municípios, conforme a revista. O maior cachê unitário nesse grupo teria chegado a R$ 800 mil.
Outros artistas sertanejos também figuram no levantamento. Gusttavo Lima teria acumulado R$ 5,5 milhões em cinco contratos, com um show alcançando R$ 1,1 milhão.
Leonardo teria somado R$ 4,08 milhões em sete contratos, enquanto Ícaro e Gilmar aparecem com R$ 3,35 milhões divididos em dez apresentações.
Os valores de Zé Neto e Cristiano teriam atingido R$ 2,05 milhões em três municípios; Maiara e Maraisa, R$ 1,95 milhão; Eduardo Costa, R$ 1,82 milhão; e Barões da Pisadinha, R$ 1,78 milhão.
Os números mostram que o debate não envolve apenas uma cantora. Eventos bancados ou apoiados com dinheiro público representam um filão importante para grandes nomes da música popular, sobretudo em cidades onde feiras agropecuárias e festejos locais atraem multidões.
Origem de cada emenda ainda é ponto central
A maior falha do levantamento divulgado está exatamente na identificação individual das verbas parlamentares que teriam custeado os 17 shows ligados a Ana Castela.
A revista diz que as contratações foram financiadas com emendas e relaciona o conjunto de despesas a partidos do Centrão e da direita, mas ressalva que os autores formais das emendas ainda seguem desconhecidos.
Sem essa correspondência, não há como comprovar documentalmente que um congressista específico enviou verba para contratar a artista, nem como atribuir participação individual aos políticos citados no contexto.
É preciso ainda diferenciar emendas parlamentares convencionais das modalidades orçamentárias apelidadas de “orçamento secreto”. Aplicar esse rótulo a despesas de 2024 não permite, sem a identificação do código orçamentário e do instrumento de repasse, concluir que todos os valores estejam juridicamente ligados ao antigo mecanismo das emendas de relator.
O passo essencial para aprofundar a apuração é a divulgação da cadeia documental completa de cada show: identificação da prefeitura contratante, número do contrato, fonte orçamentária, empenho, pagamento, instrumento de repasse federal e eventual número da emenda parlamentar que gerou os recursos.
Enquanto esse vínculo individual não vier a público, seguem válidos, dentro das limitações do levantamento, os valores atribuídos às contratações examinadas e a declaração da própria revista de que ainda não identificou formalmente os autores das emendas ligadas aos shows.







