A plataforma Discord decidiu suspender, por tempo indeterminado, as lives e o compartilhamento de vídeos em território nacional, depois de uma determinação da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
De acordo com o órgão regulador, a decisão se fundamenta em “evidências robustas” de que o serviço não adota providências “suficientes” para diminuir a exposição de crianças e adolescentes a materiais ligados à violência, à automutilação e ao suicídio.
A medida surge na esteira da repercussão do caso de uma garota de 13 anos que tirou a própria vida depois de ser induzida por uma transmissão ao vivo de um grupo extremista na plataforma.
Aumento nas denúncias de violações
Na resolução, a ANPD destaca que o episódio integra um quadro mais abrangente e cita informações repassadas pela SaferNet, Organização Não Governamental (ONG) dedicada ao enfrentamento de crimes on-line.
A entidade informa que mais de 2 mil links do Discord foram reportados aos seus canais desde janeiro de 2017. Nos sete primeiros meses do ano atual, as denúncias cresceram 54% na comparação com o mesmo intervalo de 2025, que já havia registrado um total três vezes superior ao de 2024.
A própria equipe de moderação do Discord já precisou remover diversos links por violações dos direitos do público infantojuvenil. É o que revelam dados do DSA Transparency Database, repositório que reúne informações sobre as moderações executadas por grandes plataformas digitais na União Europeia.
Entre agosto de 2024, quando o primeiro registro da rede social surgiu no banco, e 6 de agosto de 2026, 41,4% das decisões de moderação do Discord — aproximadamente 10,6 milhões — foram classificadas como “proteção de crianças e adolescentes”.
Nesse universo, a expressão “material de abuso sexual infantil” foi a mais recorrente, surgindo 4,37 milhões de vezes (17% do total de ações da categoria). Já o item “compartilhamento de imagem não consensual” respondeu por 8,4%.
Em comunicado, o Discord declarou que a descrição feita pela ANPD não condiz com a realidade da plataforma nem com os aportes da companhia em segurança.
A empresa afirmou ainda ter investigado o servidor associado à morte da jovem e o removido antes do episódio. Agora, diz estar em conversa com a agência para restabelecer os recursos de vídeo.
Mas, deixando de lado os números e a controvérsia, afinal, o que é o Discord, em que situações a ferramenta pode representar perigo para adolescentes e como os responsáveis podem monitorar esse uso?
O que é o Discord?
O Discord é uma ferramenta de comunicação que, no início, era voltada ao público gamer (jogadores de videogames). Hoje, porém, reúne comunidades dos mais variados temas.
A rede aceita usuários a partir de 13 anos e, ao contrário de plataformas como Instagram ou TikTok, sua estrutura não se baseia essencialmente em um feed. O espaço é organizado em servidores, que atuam como comunidades.
Dentro desses servidores, há canais variados, de texto, voz ou vídeo. Nos canais de texto, os usuários trocam mensagens, imagens, links e arquivos. Nos de voz e vídeo, conversam ao vivo, fazem transmissões (as lives) e compartilham a tela.
Entre os servidores, existem ambientes públicos e ferramentas de comunicação privada, cujas conversas são visíveis apenas para os membros.
Outra particularidade relevante é que cada servidor define suas próprias normas e pode ter administradores e moderadores exclusivos, com poder para expulsar ou banir usuários.
Ou seja, a moderação não depende apenas do Discord, pois cada comunidade tem sua própria gestão.
Por que o Discord preocupa a ANPD?
O ponto crítico, conforme especialistas, não é a rede social em si, e sim a sua habilidade de evitar situações de perigo.
Para a ANPD, a mistura de ambientes públicos e privados na plataforma pode ampliar a exposição de crianças e adolescentes a cenários como assédio e aliciamento.
Uma extensa pesquisa conduzida por estudiosos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) auxilia a dimensionar essa complexidade.
Chamado de Discord Revelado, o estudo reuniu mais de 2 bilhões de mensagens compartilhadas em servidores públicos da plataforma.
Embora ainda não revele o teor das conversas, o documento indica que o modelo de moderação descentralizado e flexível do Discord pode “favorecer a criação e a manutenção de comunidades extremistas e de ódio”.
Outros especialistas compartilham esse receio. “Como não há regulação, é como se ninguém estivesse vigiando o que acontece ali”, sintetiza a educadora Sheylli Caleffi, que atua na proteção infantil no ambiente digital.
O levantamento também aponta que conversas sobre automutilação e comportamento suicida são amplamente registradas, sobretudo entre os grupos demográficos mais jovens.
Aliás, a própria ANPD diz ter identificado situações graves em que as lives serviram para induzir tais práticas, além de violência, assédio e maus-tratos de animais.
Outro aspecto que preocupa o órgão é a criptografia de ponta a ponta. Desde março de 2026, parte das comunicações de áudio e vídeo do Discord é protegida por esse recurso, o que impede a plataforma de acessar diretamente as conversas em tempo real.
Embora a companhia afirme empregar sinais comportamentais, relações entre contas, inteligência artificial, ferramentas automatizadas de busca por imagens ilegais e metadados para detectar conteúdos nocivos, a ANPD sustenta que a plataforma não forneceu provas suficientes de que tais medidas funcionam.
Vale ressaltar que isso não difere muito de redes como WhatsApp e Telegram. O que coloca o Discord em evidência é a maior diversidade de recursos para comunidades e a presença marcante entre os públicos mais novos.
Há também inquietações acerca da identidade dos usuários, que criam perfis sem nomes reais, usando apelidos. “É muito simples criar uma conta, se anonimizar e se passar por outra pessoa. Criminosos adoram essas plataformas”, avalia Caleffi. “Muitas vezes, são adultos que criam os grupos direcionados aos mais novos”, alerta.
De acordo com a SaferNet, os dados da DSA Transparency Database indicam que o volume de moderações executadas pelo próprio Discord caiu 65% desde setembro de 2025, período que coincide com cortes de funcionários anunciados pela empresa, inclusive em setores de confiança e segurança.
A organização ressalva que os números não possibilitam estabelecer uma ligação direta entre as demissões e a queda. Mesmo assim, afirma que “o movimento gera questionamentos sobre a capacidade de moderação da plataforma”.
Por essa razão, a diretora da SaferNet, Juliana Cunha, psicóloga infantojuvenil e especialista em segurança digital, avalia que ainda é cedo para mensurar os efeitos da decisão da ANPD, mas considera a medida um avanço relevante.
“Trata-se de um fenômeno complexo. Portanto, mais do que solucionar o problema, essa é uma resposta que procura forçar a plataforma a se adequar e a oferecer instrumentos mais eficazes”, explica.
O que pais podem fazer
Diante desse panorama, os especialistas lembram que usar o Discord não implica, necessariamente, que o adolescente esteja em perigo. Afinal, a ferramenta pode ser, em tese, um local para bater papo com amigos, jogar, integrar comunidades e fóruns e até aprimorar habilidades sociais.
“É fundamental recordar que a internet também é um meio que proporciona pertencimento e importantes redes de apoio”, afirma o psiquiatra e psicoterapeuta Gabriel Okuda, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Esse aspecto é especialmente relevante na adolescência, fase em que os vínculos com os pares ganham mais peso e podem, em certa medida, superar a influência de pais e professores.
Por isso, os especialistas enfatizam que proibir não é a melhor saída. Mas isso não quer dizer liberar o acesso sem limites.
Dessa forma, a supervisão precisa ser contínua, assim como o diálogo, com vínculos de confiança, limites personalizados e acompanhamento de como o jovem usa a plataforma.
“Situações graves podem assustar, mas é essencial não agir com pânico, pois ele não é um bom conselheiro para os pais”, avalia Cunha.
Conforme ela, os responsáveis precisam demonstrar interesse genuíno pela vida dos filhos e servir como figuras de confiança. “Assim, os adolescentes procuram ajuda em situações desconfortáveis”, diz.
Os pais também devem apostar em educação sobre os perigos do universo on-line e incentivar atividades fora das telas, como hobbies e esportes.
Além disso, para Caleffi, combater a violência no ambiente digital passa por conversas precoces sobre intimidade e limites ligados ao próprio corpo. “O enfrentamento da violência não se resume a regular as redes; envolve educar a população e as crianças”, afirma.
Na visão da psicóloga infantojuvenil Luiza Brandão, especialista em impacto das mídias na infância, a proteção de crianças e adolescentes na internet deve obedecer ao mesmo princípio da proteção no mundo físico. “Assim como nas ruas, eles não podem ficar sozinhos no ambiente digital”.
Para Brandão, ainda que o controle se torne mais difícil conforme os jovens crescem e almejam mais autonomia, cabe aos responsáveis auxiliá-los a permanecer em espaços seguros.
Nesse cuidado, os limites podem ser definidos conforme o perfil de cada adolescente.
Para Cunha, a questão não deve ser apenas “quanto tempo meu filho passa no Discord?”, mas também “o que ele está fazendo por lá?”. “O adolescente está criando amizades e desenvolvendo habilidades sociais ou está usando o ambiente para se isolar e se tornando mais vulnerável à ansiedade?”, indaga a especialista.
Sinais de que algo está errado
Quando se trata de crianças e adolescentes na internet, os riscos se manifestam de diversas maneiras. Para organizar essa análise, especialistas recorrem aos chamados “4 Cs”: conteúdo, contato, conduta e contrato.
- Conteúdo é o que aparece na tela e pode incluir materiais violentos ou sexualizados.
- Contato envolve a interação com pessoas mal-intencionadas.
- Conduta tem a ver com comportamentos prejudiciais, como cyberbullying.
- Já o contrato entra quando há acordos digitais pouco transparentes, fraudes ou publicidade enganosa.
“Em situações extremas, temos o agressor, a vítima e também uma plateia. Assim, mesmo sem participação direta, a criança pode ter contato com esse tipo de conteúdo”, explica Caleffi.
De qualquer forma, a exposição a esses riscos pode impactar a saúde mental, favorecendo ansiedade, estresse e sofrimento emocional. Por isso, os especialistas recomendam que a atenção dos pais aumente diante de alterações de comportamento, mesmo as mais sutis.
Entre os sinais relevantes estão maior isolamento, queda no desempenho escolar, dificuldade de controlar o tempo de uso ou uso frequente das telas durante a madrugada.
Mudanças de humor, irritabilidade, tristeza e alterações no padrão de sono também merecem atenção. Preocupação exagerada com notificações e o costume de ocultar conversas ou aparelhos são outros alertas.
É nesse momento que os vínculos de confiança, recomendados pelos especialistas, precisam funcionar. Além disso, se houver problemas, é necessário avaliar a busca por ajuda profissional.
No caso específico do Discord, Brandão acredita que uma eventual proibição do aplicativo no Brasil não extinguiria os riscos, uma vez que suas funções poderiam ser replicadas em outras plataformas.
“Não se pode esperar que a proibição de um serviço específico resolva o problema”, afirma. Daí a importância das conversas em família e, principalmente, da regulação das redes. “Apesar dessas limitações, não se pode abrir mão de políticas públicas para fiscalizar as plataformas e coibir práticas danosas”, conclui.
Onde buscar ajuda
Se você ou alguém próximo estiver vivendo uma crise emocional ou tiver pensamentos suicidas, não é preciso enfrentar isso sozinho. Procure alguém de confiança e busque auxílio profissional.
No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) disponibiliza apoio emocional gratuito e confidencial, 24 horas por dia, pelo telefone 188. Também há a opção de conversar pelo chat do CVV.







